Opinião

Violências do Rio

Violência financeira destina dinheiro ao bolso de quem a pratica
POR LUIZ ROBERTO LONDRES
O Globo – 07/11/2017

Estamos presenciando a onda de violência na cidade do Rio de Janeiro concomitante com um alto grau de impunidade em relação aos atores dessa situação. A origem alegada é o tráfico de drogas, fato que existe há muitas décadas e, apenas por si, não justificaria o que está acontecendo. Alguma outra situação deve justificar o terrível momento que estamos vivendo.
Outro fato muito alegado é o momento de crise econômica que está assolando o país, atingindo principalmente as classes menos abastadas — em boa parte moradoras de comunidades como a Rocinha, o Alemão, a Maré e tantas outras. Essas classes estão vivendo um duplo problema: a falta de recursos e a falta de segurança. E vale a pena lembrar que elas têm ainda outro problema: o atendimento à saúde nos hospitais, ambulatórios e setores de emergência dos estabelecimentos públicos.
Vale lembrar que o crime organizado não é apanágio desses grupos nem dos traficantes de drogas. Da mesma maneira que estão se tornando públicas as ações de violência física, o mesmo acontece com as ações de outro tipo de violência muito mais ampla que se dá à distância: a violência financeira, seja destinando recursos para os bolsos de quem a pratica, seja desmontando as entidades públicas. Ela é praticada pelos servidores públicos que hoje se intitulam “autoridades”, esquecidos de que num sistema democrático a autoridade do poder é do povo.
A violência financeira não é apenas a apropriação direta de recursos públicos. Ocorre também por criação de leis ou projetos de lei e de medidas provisórias que visam muito mais a instituições ou a grupos, em detrimento da sociedade como um todo. É importante lembrarmos que as leis são feitas pelo Poder Legislativo, ou seja, deputados e senadores, grupos que abarcam um número significativo de elementos sob investigação. E lá acontece o mesmo que no grupo de traficantes e outros criminosos, que, mesmo quando condenados, pelo menos metade não cumpre a pena que lhes foi imposta.
A violência no Rio de Janeiro, com seus tiroteios, traz algumas mortes, muitas delas de inocentes, que são atingidos por projéteis e outros tipos de agressões. Mas a violência financeira e a legislativa emanadas do Parlamento e outras entidades federais, estaduais e municipais através de seu simples descaso — ou de suas intenções de destruir as empresas e serviços públicos — atingem direta ou indiretamente a população em seu todo. A crescente destruição da saúde pública — acompanhada pela educação e pelas medidas de segurança — desfigura a vida pública no presente e também no futuro. E provoca muito mais mortes, com frequência escondidas em leitos hospitalares, setores de emergência e mesmo nas residências daqueles que não conseguiram vaga nos hospitais.
O tráfico de drogas é um crime lamentável, mas também um excelente bode expiatório para ocultar crimes mais hediondos e de muito maior abrangência que atingem todos nós.

Luiz Roberto Londres é presidente do Instituto de Medicina e Cidadania

 

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *