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Vasectomia: mitos e verdades

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Por Juliana Temporal

 

De quem é a responsabilidade pela contracepção de um casal? Se você respondeu que a responsável é a mulher, está na hora de rever os seus conceitos. O planejamento familiar é de responsabilidade do casal. É papel do homem também se preocupar com esse assunto. Mas, além do uso de preservativo (camisinha), existem outros métodos contraceptivos para o homem? Sim, a vasectomia é um método de contracepção considerado eficiente e seguro.

Para o Dr. Fernando Facio, Chefe do Departamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia (SBU), em relação à contracepção de um casal, ambos têm responsabilidade compartilhadas, mas recai sobre as mulheres o ônus de fazer uso de uma infinidade de métodos anticoncepcionais no início da vida conjugal. Os homens precisam amadurecer e aderir com sua parcela de contribuição, admitindo o uso de métodos de barreira associados tal como o uso do preservativo (camisinha).

De acordo com o especialista, a vasectomia é um procedimento cirúrgico para esterilização masculina ou contracepção permanente. Nesse procedimento, os vasos deferentes, que são canais que transportam os espermatozoides produzidos no testículo, são cortados e amarrados de modo a evitar que os espermatozoides entrem na uretra e sejam expulsos durante a ejaculação e, assim, evitar a fertilização de uma mulher através da relação sexual.

– Trata-se de um procedimento cirúrgico feito sob anestesia local, podendo-se utilizar outras formas de anestesia como a sedação, caso a condição clínica e o paciente necessitem. São feitos um ou dois cortes na bolsa escrotal, que são posteriormente suturados, podendo haver ou não a necessidade da retirada dos pontos, dependendo do material utilizado. As complicações são raras, podem ocorrer desde um discreto hematoma (sangramento interno), o aparecimento de manchas escuras no escroto e/ou no pênis (equimoses), dor ou infecção. O médico assistente comumente recomenda uso de antibióticos e anti-inflamatórios e/ou analgésicos – explicou.

Os riscos, continuou Dr. Fernando Facio, são apenas os de qualquer pequeno procedimento cirúrgico, como a possibilidade de pequeno sangramento, dor e edema no local. Após a recuperação, não há alterações na vida sexual. O prazer não é comprometido. O risco de impotência sexual não acontece, pois a vasectomia não altera nenhuma estrutura responsável pela função erétil. A produção de esperma continua inalterada, mesmo sem a presença de espermatozoides na ejaculação, assim como a produção de hormônios, como a testosterona.

Segundo o urologista, apesar de a vasectomia ser um método de esterilização permanente, existe uma pequena possibilidade (1 em cada 2.000 cirurgias) de ocorrer recanalização espontânea, ou seja, ocorrer a passagem dos espermatozoides de um coto do ducto para o outro e voltarem a ser ejaculados, o indivíduo permanecer fértil e ocasionar uma gravidez.

– Trata-se de evento raro, mas possível de ocorrer independentemente da vontade ou técnica empregada. Devido a isso, o paciente é orientado a ter várias ejaculações e atividade sexual com manutenção de métodos anticoncepcionais de barreiras até completar três meses, quando fará um espermograma para avaliação do resultado final. Isso só ocorre em geral após uma média de 25 ejaculações, que é o número necessário para “esvaziar” o trato genital – relatou.

O Dr. Fernando Facio ressaltou ainda que a vasectomia deve ser encarada como definitiva, apesar de existir a possibilidade de reversão cirúrgica. A reversão possui tempo cirúrgico maior e não garante a fertilidade na totalidade dos casos. O sucesso depende de fatores anatômicos bem como do tempo entre a vasectomia e a reversão, pois quanto maior o intervalo, menor a chance de sucesso.

– Assim, é importante que o paciente seja orientado antes da vasectomia quanto à impossibilidade de reverter o quadro. Cabe ao médico urologista tratar sobre esse assunto. Também é importante acompanhamento e orientação psicológicos para evitar arrependimentos de decisões mal calculadas. Algumas pessoas costumam congelar o esperma em clínicas especializadas antes de realizar a vasectomia. Desta forma, se um dia resolver ter filhos, pode proceder com a fertilização artificial. No entanto, esse processo costuma ter alto custo – frisou.

 

O que se deve levar em consideração para tomar a decisão de fazer uma vasectomia?

De acordo com o Dr. Fernando Facio, a principal diretriz é a escolha compartilhada do casal constituído, devendo ser respeitadas a vontade e a intenção de ambos. Ao terem sua prole constituída e completa, segundo interpretação da lei, o casal deve procurar atendimento médico (ex: urologista) para entender que, embora o procedimento cirúrgico (vasectomia) seja reversível, precisam estar cientes e esclarecidos de que devem tratar como permanente ou irreversível. Assim, demonstrando consciência e rigidez nas escolhas. O aconselhamento deve ser multidisciplinar incluindo médicos e psicólogos.    

Segundo a Lei 9.263/1996, da Constituição Federal, Art.10 – Somente é permitida a esterilização voluntária nas seguintes situações: “I – em homens com capacidade civil plena e maiores de 25 anos de idade ou pelo menos dois filhos vivos, desde que observado o prazo mínimo de 60 dias entre a manifestação da vontade e o ato cirúrgico, período no qual será propiciado à pessoa interessada acesso a serviço de regulação da fecundidade, incluindo aconselhamento por equipe multidisciplinar, visando desencorajar a esterilização precoce”.

O especialista enfatizou ainda que é necessário avaliar as possíveis contraindicações cirúrgicas e as éticas. Os cuidados pré-operatórios incluem exames clínicos e laboratoriais que mostram as características clínicas e físicas do paciente, que deve ser conduzido com segurança médico-cirúrgica.

– Quanto às indicações éticas, o Código de Ética Médica, em seu capítulo II (Direito dos Médicos), item IX afirma: “É direito do médico recusar-se a realizar atos médicos que, embora permitidos por lei, sejam contrários aos ditames de sua consciência”. Existe a ilicitude ao realizar uma cirurgia mutiladora do aparelho reprodutor para uma pessoa que não tenha filhos – afirmou.

A vasectomia pode ser realizada gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde em todo o Brasil. E os planos de saúde também são obrigados a realizar o procedimento.

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