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UM PAÍS VENENOSO

Por: Editorial ÉPOCA

O Brasil é campeão no uso de agrotóxicos. Absorve um quinto de toda a produção mundial, gastando mais de US$ 10 bilhões. Obviamente, é um dos países menos restritivos no uso de produtos com possibilidade de graves males à saúde. Dos mais de 500 ingredientes liberados aqui, um terço é proibido em países de economia desenvolvida. Três dos dez agrotóxicos mais usados no Brasil (atrazina, acefato e paraquat) foram proibidos no bloco europeu há pelo menos 15 anos por serem neurotóxicos e carcinogênicos. Só neste ano, foram liberados no país 211 novos agrotóxicos, alguns dos quais contêm 17 substâncias de uso proibido pela União Europeia (UE).

Para demonstrar um caso grave, pode-se apontar a disseminação do acefato nos campos brasileiros — o terceiro ingrediente ativo mais utilizado no Brasil. Nos casos de intoxicação aguda — e o Brasil registra ao menos 15 mil vítimas por ano —, causa fraqueza nos músculos respiratórios e diminuição da força dos músculos do pescoço e das extremidades dos membros. O comprometimento respiratório pode levar à morte, na falta de aparelhos para auxiliar a respiração. Estudos apontaram que o acefato é letal para crianças e afirmaram também que a exposição contínua de animais ao produto interfere em seu crescimento e longevidade. Em razão da toxicidade e das suspeitas de causar até câncer, o uso do acefato tem sido alvo de restrições severas mundo afora há décadas. O Brasil, na contramão dos países desenvolvidos, continua permitindo seu uso em culturas de produtos como feijão, batata, soja e algodão, para nominar alguns poucos exemplos.

O agrotóxico mais usado no Brasil é o glifosato, usado em plantações de café, por exemplo, em taxas dez vezes maiores do que na Europa. A água potável no Brasil pode ter 5 mil vezes mais glifosato do que na Europa. Cálculos apontam que o brasileiro consumiria mais de 7 litros de agrotóxico por ano, se tomada como parâmetro a quantidade comprada por cada habitante do país. Claro que tal exercício é simbólico, porque o nível de toxicidade de tais produtos mataria um consumidor com alguns mililitros se absorvidos diretamente. Além de produtos banidos no mundo, o Brasil permite a pulverização aérea no uso de agrotóxico, possibilidade proibida, por exemplo, na UE, como medida redutora de danos ao ambiente e aos trabalhadores do campo.

O descalabro brasileiro do ponto de vista da saúde pública tem como fundo interesses econômicos gigantescos. A maioria dos fabricantes de agrotóxicos são multinacionais com sedes na Europa e nos Estados Unidos. Enfrentando restrições legais nos países de origem, exportam para países com leis menos restritivas agrotóxicos na fase final do ciclo de comércio — por terem sido proibidos nos países em que foram criados. É hora de incluir na análise da balança comercial os gastos incomensuráveis com saúde pública em razão de uma legislação permissiva.

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