Isis Breves

Saúde Coletiva

Por Isis Breves

Transmissão da Doença de Chagas pelo consumo de açaí

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Hoje a Coluna Saúde Coletiva traz como pauta a transmissão da Doença de Chagas pelo consumo do Açaí. Açaí é um fruto nativo da região amazônica do Brasil bastante consumido em todo país. Porém, surtos de contaminação da doença de Chagas pela transmissão oral, ou seja, pelo consumo do açaí devido às condições inadequadas de preparo do alimento vêm aumentando.  Dados do Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde (MS) sobre a infecção aguda de Chagas apontou  112 surtos no território nacional entre 2005 e 2013, envolvendo em sua totalidade 35 municípios da Região Amazônica . A fonte provável de infecção foi à ingestão de alimentos contaminados com T. cruzi, entre eles o açaí. A maioria dos surtos ocorreu nos estados do Pará 75,9% (85) e Amapá 12,5% (14) e, em menores proporções, nos estados do Amazonas 4,5% (5), Tocantins 1,8% (2) e Bahia 1,8% (2).

Toda cadeia produtiva do açaí deve seguir as boas práticas previstas pela RDC da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) – 216/04.  O Estado do Pará concentra até 80% dos casos de Chagas no Brasil. Em 2006 foram registrados 430 casos da doença no Pará, principalmente por ser a região produtora do fruto, que faz parte da base alimentar dos paraenses, que o consomem em seu estado natural, sem passar pelo processo de industrialização que conserva o produto para venda em outras regiões do Brasil e no exterior.

Porém, uma pesquisa da Fiocruz padronizou  a técnica de análise capaz de detectar a presença do material genético do parasito causador da doença de Chagas em alimentos à base de açaí. O método contribui para a investigação por via oral, que representa hoje cerca de 70% dos registros de infecção aguda no Brasil, que pode causar a morte do infectado.

Nessa pesquisa, foram analisadas 140 amostras de alimentos à base de açaí comercializados em feiras e supermercados do Pará (entre 2010 e 2015) e do Rio de Janeiro (entre 2010 e 2012). A presença do material genético do Trypanosoma cruzi, parasito causador da doença de Chagas, foi detectada em 14 produtos, ou seja, 10% do total das amostras. O DNA do inseto que transmite o parasito – chamado de triatomíneo, popularmente conhecido como barbeiro – também foi identificado em uma das amostras.

Os autores destacam que a identificação do DNA do T. cruzi nos alimentos não implica, necessariamente, que havia risco de transmissão da doença, uma vez que o material genético pode ser detectado mesmo se os parasitos estiverem mortos e, portanto, incapazes de provocar infecção. De toda forma, os resultados indicam que as amostras foram contaminadas por T.cruzi presente em fezes ou fragmentos do inseto transmissor, que costuma habitar os açaizeiros.

Para evitar a contaminação do açaí com o parasito Trypanosoma cruzi, o Estado do Pará institui em 2012 a legislação para que a técnica de branqueamento dos frutos fosse obrigatória em batedeiras artesanais, assim como na agroindústria que não realizam a pasteurização da polpa. A etapa denominada branqueamento dos frutos foi introduzida como controle ao protozoário T. cruzi que pode estar presente em fragmentos de barbeiros contaminados remanescentes da etapa de peneiramento, ou em suas fezes aderidas aos frutos. No branqueamento, os frutos de açaí devem ser submetidos a tratamento térmico com água em temperatura de 80 °C durante dez segundos e, logo após, resfriado em temperatura ambiente. Esse procedimento pode ser realizado de várias formas, assim o batedor de açaí deve encontrar a melhor opção para sua realidade, levando sempre em consideração a temperatura a ser alcançada e o tempo de imersão para efetividade da prática. Porém, nas agroindústrias, deve haver a pasteurização da bebida processada, se não houver o branqueamento dos frutos; mas isso requer um método de conservação complementar: o resfriamento.

Para garantir que o açaí artesanal vendido em Belém do Pará está apto para o consumo, a  Prefeitura Municipal de Belém, criou em 2014 o selo de qualidade “Açaí Bom”, que sinaliza os pontos de venda de açaí que possuem licença de funcionamento e cumprem todas as normas de higiene e boas práticas de manipulação do fruto, como a técnica do branqueamento, além de garantir maquinário, armazenamento, adequação e limpeza do estabelecimento, vestuário adequado para a manipulação, forma de trabalho definida e cursos de capacitação, entre outros fatores. Se for comer açaí em Belém do Pará, fique atento se o fruto artesanal possui o selo “Açaí Bom”.

No Rio de Janeiro, fique em alerta se a polpa do açaí vendido é pasteurizada. Basta verificar se conta na embalagem o número de registro do produto junto ao Ministério da Agricultura (MAPA). O açaí pasteurizado elimina a possibilidade de contrair a Doença de Chagas. No processo de pasteurização, a polpa do açaí é aquecida durante alguns segundos a temperaturas entre 80°C e 90°C, e depois é imediatamente resfriada (temperatura que passa de -30°C). Esse processo elimina o agente causador da doença de Chagas.

Saiba mais: Doença de Chagas oral – Fonte: Fiocruz

Segundo o Ministério da Saúde, entre 2007 e 2016, o Brasil registrou, em média, 200 casos agudos de doença de Chagas por ano. Destes, 69% foram causados por transmissão oral, derivada da contaminação de bebidas e comidas. Embora casos de infecção já tenham sido ligados ao consumo de outros alimentos, o açaí é o item mais frequentemente associado a essa rota de transmissão do T. cruzi. Entre as notificações registradas de 2007 a 2016, cerca de 95% ocorreram na região Norte, com 85% no estado do Pará, onde o consumo do suco fresco de açaí é um item tradicional da cultura alimentar.

Pesquisas apontam que o aquecimento acima de 45ºC e a pasteurização são medidas eficazes para matar o T. cruzi. Por outro lado, o simples congelamento dos frutos pode não ser suficiente. Um estudo mostrou que o parasito continuava infectivo após 26 horas de contato com a polpa de açaí congelada. Para evitar a contaminação, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recomenda uma série de medidas, que vão desde cuidados como retirar galhos, troncos e demais folhagens do cacho de açaí no momento da colheita até a seleção, lavagem e desinfecção dos frutos antes do preparo na etapa de processamento.

A maioria dos pacientes não apresenta sintomas na fase aguda da doença de Chagas. Quando acontecem, as manifestações mais comuns são febre por mais de sete dias, dor de cabeça, fraqueza intensa, inchaço no rosto e nas pernas. Principalmente nos casos de transmissão oral, dor de estômago, vômitos e diarreia são frequentes. Em até 5% dos casos, a infecção aguda por via oral pode levar à morte. O tratamento indicado para a forma aguda da infecção inclui medicamento específico contra o T. cruzi e, na maioria dos casos, é eficaz para curar o agravo. Entre os pacientes não tratados, um terço desenvolve a forma crônica da doença, na qual problemas cardíacos ou digestivos podem se manifestar cerca de 20 a 30 anos depois da infecção.

Um comentário em "Transmissão da Doença de Chagas pelo consumo de açaí"

  1. Importante alerta para quem consome o produto. Embora pouco frequente é grave e as vezes mortal como esclarece a publicação.
    Se processado como recomendado, o consumo do açaí é seguro e fonte de renda para grande parte da população nortista.

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