Opinião

Sr. ministro, só há desenvolvimento tecnológico com pesquisa básica

Watson e Crick elucidaram o DNA sem saber que um seria possível consertar genes

Suzana Herculano-Houzel
Bióloga e neurocientista da Universidade Vanderbilt (EUA).

Ciência nada mais é que a investigação sistemática, organizada, de algo que não se entende sobre o mundo. A diversidade do mundo animal prova que é possível viver a vida perfeitamente ignorante, é verdade. O que sabem jacarés sobre a física da flutuação ou da dinâmica de fluidos, abelhas sobre a bioquímica do néctar, árvores sobre fotossíntese ou a gravidade que elas enfrentam? 

Assim também o animal humano poderia viver sem se perguntar o que faz o sol nascer todos os dias, meses quentes e não tão quentes se alternarem, certos frutos alimentarem e outros matarem, alguns bebês vingarem e tantos outros não.

Ou o que faz uma geração de bebês nascerem subitamente microcefálicos.

Como cientistas não são adivinhos, toda pesquisa é, por definição, básica: ela tenta entender algum aspecto da vida com zero previsão sobre o que se ganhará com isso no futuro. O resultado da pesquisa é conhecimento organizado. Este, sim, pode ser aplicado a problemas específicos, num processo que não se chama “ciência aplicada”, e sim tecnologia.

Criar uma vacina que evite a microcefalia causada por um vírus é desenvolvimento tecnológico. Países que investem nisso não dependem de outros para ter vacinas. Mas para chegar aí é preciso entender o que é um vírus; como o cérebro se forma; o que define o seu tamanho e saúde; como o vírus chega de uma pessoa a outra, e de gestante para feto. Tudo isso leva décadas.

Einstein não sabia que a compreensão de que a matéria distorce o espaço-tempo traria um século mais tarde satélites em órbita geoestacionária, GPS, e acesso global à internet. Watson e Crick elucidaram a estrutura do DNA sem saber que um dia seria possível consertar genes.

Só há desenvolvimento tecnológico se houver pesquisa científica, a tal da “básica”, que acontece graças a poucas pessoas tão teimosas que não se desencorajam quando juntar dados para responder a uma pergunta às vezes leva décadas  – nem quando outros desdenham da sua obstinação. Mas não podem trabalhar para gerar novo conhecimento, para permitir tecnologias futuras, ou no mínimo só manter o conhecimento vivo até dias melhores chegarem, se o governo não financia seu trabalho.

A razão é simples, senhor ministro. Na economia livre, empresas competem por retorno financeiro imediato — o que a ciência de fato não dá. Cabe ao governo ter visão da sua responsabilidade pelo futuro do país para que ele não fique à mercê do conhecimento alheio, financiado pelo governo alheio, à espera que ele seja publicado e chegue na tal da internet.

Com sorte, o Brasil ainda terá pesquisa básica por mais alguns anos.

Fonte: Folha de São Paulo

 

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