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SOS Medicina: Uma Viagem com Bruxos e $enhore$

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Magos e Shamans. A figura do médico nas sociedades pré-literatas se mescla com a do feiticeiro, do bruxo, controladores das forças do mal. Seu prestígio é absoluto, seus atos são inquestionáveis. Desafia os deuses e forças ameaçadoras.
Uma era à frente e nos encontramos no Egito e na Mesopotâmia. Não mais bruxos, os médicos agora são sacerdotes, representantes dos deuses da saúde; não mais contrários à sobrenaturalidade, mas seus intermediários. Seu prestígio ainda permanece absoluto.
A humanização dos deuses deu-se na Grécia: o deus Apolo emprenha a mortal Coronis nascendo Asclépio, o deus grego da Medicina, na verdade um semideus. Nesta humanização os médicos trocam o campo do sobrenatural pelo campo do espírito humano; ora são filósofos. O trato do corpo é campo do centauro Quiron. A Medicina ganha um pai terrestre – Hipócrates, e um primeiro endereço: Epidauro.
A cultura grega deságua na Roma pré e pós-cristã. O prestígio dos médicos continua alto com Galeno. Com Cristo, filho do homem e médico milagroso, ganha a Medicina o cunho de ato caritativo. Com Paracelso, nascem as primeiras e importantes controvérsias.
Com Descartes e Vesalius, dessacraliza-se de vez a Medicina, sendo invadida pelos incipientes conhecimentos científicos. As forças celestes e telúricas são pouco a pouco dissecadas pelas análises objetivas e lógicas do pensamento racional. Aos deuses é deixada a mente, último refém na guerra entre a Ciência e a Religião. Os conhecimentos são ordenados, as escolas médicas proliferam, o prestígio médico é alto, mas simplesmente terrestre.
A ciência aprofunda-se na segmentação corporal; não considerando o espírito, afasta-se do humano. Gera aos poucos uma fria e potente cria, seu braço armado e insensível: a tecnologia. Como Gagárin ela tudo vê menos o subjetivo, característica essencial dos seres humanos. O olho se vale do microscópio, o ouvido do estetoscópio, a visão se transforma em radiação, a audição se substitui pelo gráfico. Tudo veem tudo ouvem; menos, e cada vez menos, o humano. O médico sábio torna-se apenas um conhecedor.
Finalmente através do microscópico “chip” a tecnologia usurpa do médico seu raciocínio e com ele sua dominância e seu prestígio. O médico torna-se escravo dos aparelhos. E escravo não costuma ter prestígio nem dominância (resta-lhe nada mais que uma esperança na dialética hegeliana). O homem foi dominado pelo meio, o meio é o novo Senhor, dono das mentes e da mídia. Este meio cresce como que metastaticamente e encarece absurdamente a Medicina.
E ne$$a nova ordem, onde o meio tornou-$e o $enhor, aquele que é o meio univer$al gradualmente tran$parece e naturalmente $e in$tala no trono outrora mí$tico, $agrado, caritativo e filo$ófico. Na Medicina de hoje o $enhor pa$$a a $er o dinheiro. Na$ conver$a$ entre médico$ fala-$e de cifra$ e inve$timento$; na$ conver$a$ com $eguradora$ fala-$e de cifrõe$ e cu$to$. O$ paciente$ e $eu$ problema$, ele$ que façam parte, $em ro$to$ e $em nome$, da ma$$a do mercado ou do$ jogo$ de intere$$e$ ideológico$ ou político$.
A história, porém, qual memória, não se constitui de uma sucessão de eventos, mas de sua acumulação. Cada ontogênese recapitula sua filogênese. A história não pode ser encarada como um simples relato, mas sim como uma construção cultural. Eu, como paciente, por exemplo, quero um médico que lute contra as forças das entidades maléficas, quero um sacerdote que interceda frente aos deuses e santos protetores, quero um pensador que reflita de maneira profunda acerca de meu estado, quero seu gesto caritativo, quero, além de seus conhecimentos humanísticos, o seu conhecimento científico e quero que faça uso criterioso da tecnologia que tem à sua disposição. E quero também que receba uma justa remuneração por sua atuação em relação ao meu caso.
Se houvesse em nossos dias um Diógenes da Medicina, com certeza procuraria ele com sua lanterna um novo Moisés que, ao se deparar com o culto do bezerro de ouro em forma de moeda, tivesse a coragem de quebrar as sagradas tábuas da lei com justa ira e apropriada indignação. Talvez, assim, o papagaiar a respeito de novos conceitos e paradigmas se transforme em verbo; a palavra tornada correta certamente se transformaria em gesto; e os personagens poderiam então voltar a se transformar em pessoas.
Tenho a certeza de que é um pensamento como este que está começando a fervilhar no nosso inconsciente coletivo. Não mais o arrogante predomínio dos médicos e correlatos (já deposto), não mais o predomínio consumista dos fornecedores de materiais e medicamentos (já em declínio) e não mais o predomínio financeiro, apenas, dos intermediários da saúde (vigente na atualidade). Que todas essas categorias ocupem os seus devidos lugares com os seus lídimos direitos e lucros sendo balizados pelos seus deveres humanísticos e sociais que a Medicina exige. E que a esperança de Abram Eksterman possa se tornar realidade (diz ele: “Talvez a história da Medicina registre no futuro – se conseguir conservar seu humor fino – que uma das notáveis inovações médicas do século XX foi a descoberta do… doente.”).

Por: Luiz Roberto Londres

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