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Segurança no retorno às aulas presenciais

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Por Juliana Temporal

 

Uma pesquisa do Ibope, encomendada pelo Jornal O Globo, mostrou que para 72% dos entrevistados os alunos só devem retornar presencialmente às escolas depois que uma vacina para o novo coronavírus estiver disponível. O levantamento foi realizado entre os dias 21 e 31 de agosto, pela internet, com 2.626 brasileiros com mais de 18 anos e das classes A, B e C. O retorno às aulas presenciais, previsto para o dia 14 de setembro no Rio de Janeiro, tem sido motivo de preocupação para pais e professores. A despeito dos efeitos negativos que a pandemia de Covid-19 tem provocado no processo de aprendizado dos alunos, uma vez que as aulas presenciais tiveram que ser suspensas e que se sabe que o ensino a distância é insuficiente para crianças e adolescentes, a preocupação de pais e professores também é legítima. A volta às aulas colocaria um contingente grande de pessoas circulando nas ruas, aumentando a propagação do vírus e, consequentemente, a possibilidade de contaminação, inclusive dos indivíduos dos chamados grupos de risco, como é o caso de muitos idosos que moram com filhos e netos.

Diante desse cenário de apreensões e incertezas, o Observatório da Saúde promoveu uma live para discutir os desafios e problemas que possam advir do retorno às aulas presencias, que contou com a participação do Dr. Abelardo Bastos Pinto Jr, Presidente do Departamento de Saúde Escolar da Sociedade de Pediatria do Estado do Rio de Janeiro (Soperj), e teve a mediação de Giselle Felix, fisioterapeuta e membro do Observatório.

Para se ter uma ideia do contingente de pessoas que circulariam nas ruas com a volta às aulas, Dr. Abelardo Bastos apresentou alguns dados. A Prefeitura do Rio tem 1.058 escolas e 245 creches distribuídas em Educação Infantil e Ensino Fundamental, abrangendo cerca de 37.000 professores e 750.000 alunos. Já o Estado possui 1.542 escolas, contando com 39.597 professores, além de 13.807 funcionários administrativos.

– Dados da Fundação Oswaldo Cruz apontam que, no Brasil, temos 9,3 milhões de adultos de risco que moram com crianças em idade escolar. Se 10% desse grupo contrair Covid-19, ocorrerão cerca de 35.000 óbitos levando em conta a taxa de letalidade nessa faixa de idade (3,3%) – observou.

Se por um lado a volta às aulas significa o aumento da propagação do vírus e da possibilidade de contaminação, por outro, Dr. Abelardo Bastos ressalta que seguir com o adiamento do retorno também terá consequências, pois o afastamento da escola causa danos educacionais às crianças, principalmente da Educação Infantil e pré-escola, e aos alunos de necessidades especiais, que dependem de maior contato físico para a parte cognitiva.

– O excesso de tempo passado em casa, longe da escola, pode ocasionar quadros de ansiedade, angústia, gula, aumento do peso (devido à falta de atividade física), insônia e acidentes domésticos. Além disso, muitas famílias tiveram que lidar com a parte estrutural da casa, comida, roupas, limpeza, compras, orçamento, emprego, desemprego, dívidas, suporte educacional e emocional aos filhos diante da perda do contato físico importante dos amigos, parentes e professores – declarou o especialista, explicitando, inclusive, o impacto que o afastamento escolar tem no agravamento da desigualdade social.

Para o Dr. Abelardo Bastos, a grande lição que a pandemia de Covid-19 deixará, além da urgência em se discutir e combater a desigualdade social, é a importância de valorizar o Sistema Único de Saúde (SUS).

– Precisamos, mais do que nunca, dar valor ao nosso Sistema Único de Saúde. Até hoje, nenhum país com mais de 100 milhões de pessoas ousou tanto. O SUS atende diretamente 150 milhões de brasileiros (cerca de 75% da população), tendo, no Brasil, abrangência maior que o NHS (Serviço Nacional de Saúde britânico). O Programa de Saúde da Família, disponível no SUS, cobre 66% da população do país todo e 82% da Região Nordeste – frisou.

 

Principais medidas de segurança que devem ser seguidas na volta às aulas

Para Dr. Abelardo Bastos, caso seja determinada a volta às aulas durante a pandemia, é preciso seguir algumas regras de segurança. A primeira delas diz respeito ao transporte, seja ele van escolar, transporte público ou transporte individual.

– No caso de vans escolares, é importante manter o espaçamento e a aeração, ter cuidados de higiene após cada viagem e, ao final do dia, atentar-se a superfícies de grande contato e oferecer equipamentos de proteção individual (EPIs) – ressaltou.

Nos transportes públicos, continuou o especialista, a higiene é prejudicada devido ao grande número de usuários. Por isso, os cuidados com a aeração e espaçamento devem ser redobrados, além de ser fundamental o uso de EPIs.

– Na chegada à escola, é essencial que esta esteja equipada com termômetros, máscaras, máscaras transparentes para leitura labial, face shields, totens com pedaleira, álcool gel, sabão neutro, toalhas descartáveis, lenços umedecidos, papel higiênico, material de limpeza (detergentes, desinfetantes e luvas), redimensionamento estrutural para ventilação natural e sinalização de todo o espaço escolar – relatou.

Além disso, acrescentou o pediatra, as instituições devem enviar aos pais dos alunos, por e-mail, folder, cartilha ou webmeeting, todas as orientações necessárias para o retorno. Na entrada da escola, deve-se checar a temperatura dos alunos e de todo o staff.

Segundo Dr. Abelardo Bastos, se durante a aula for notada a alteração da temperatura corporal de um aluno, deve-se comunicar à família e reservar um espaço arejado para ele esperar a chegada do responsável. É preciso identificar a turma a qual esse aluno pertence e informar às famílias das outras crianças sobre o ocorrido.

– É obrigatório o uso de máscaras caseiras (não deve ser usada a N95 ou PFF2, segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria). As máscaras devem conter pelo menos duas camadas de tecido e cobrir totalmente a boca e o nariz, estar bem ajustadas ao rosto, sem deixar espaço nas laterais. Elas não podem ficar úmidas e devem ser trocadas em até duas horas – enfatizou.

O especialista afirmou ainda que, passado o momento da entrada na escola, é essencial a sinalização pré-determinada do trajeto até a sala, distanciamento de 2 metros entre as carteiras nas salas, barreiras físicas para separar os alunos, divisão das turmas e remanejamento dos alunos.

– É recomendado que os bebedouros sejam lacrados, orientando os alunos que levem suas próprias garrafas de água. As refeições da Educação Infantil devem ser feitas em sala de aula e dos Ensinos Fundamental e Médio, em refeitórios, respeitando o distanciamento – orientou.

Para o pediatra, pais e responsáveis precisam atuar junto à escola através de medidas como manter atualizado o calendário vacinal dos filhos, promover uma alimentação saudável, incentivar atividades físicas, disponibilizar EPIs (independente do fornecimento da escola), reunir os filhos para ler em conjunto as recomendações oferecidas pela escola e colaborar com o cumprimento das medidas de higiene e distanciamento social.

 

Alguns problemas já foram registrados em países que reabriram escolas

De acordo com dados apresentados pelo Dr. Abelardo Bastos, França e Coréia do Sul abriram, fecharam e reabriram as escolas. No Reino Unido, foi registrado que menos da metade dos alunos esperados compareceu. Na Dinamarca, mesmo com o hábito de lavar as mãos seis vezes por dia, alguns professores contraíram Covid-19 após o retorno às aulas. Cidades do norte da Austrália estão permitindo que os pais optem por enviar ou não as crianças para a escola.

Ao final da live, Dr. Abelardo Bastos Pinto Jr declarou que, para vencer esta fase, é preciso amplo acolhimento e inclusão através de uma rede de comunicação acessível à população, fornecendo informações seguras através dos Ministérios da Saúde e da Educação. Segundo o especialista, para tomar a decisão de reabrir as escolas, deve-se considerar os boletins epidemiológicos locais.

– Fale com o pediatra de seu filho e contate sua escola. A saúde e a vida devem vir em primeiro lugar – encerrou.

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