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Risco real e percebido

Não há acidentes sem precedentes, pois diversos fatores contribuem para sua gênese

Risco aceitável é o que vale a pena. Viajar de avião ou ser operado são missões que podem ser cumpridas de forma segura, porém o desfecho exato será conhecido a posteriori. Variando o contexto — viajar no Oriente Médio ou cirurgia de urgência —, a imprevisibilidade aumenta. A segurança não é um termo matemático: “Quantos quilos de risco é aceitável?”

A percepção incorreta do risco deve-se à falta de informações, de experiência ou por interferências externas. Não há custo em segurança, e sim investimento, mais barato que o acidente.

Também não há acidentes sem precedentes, pois diversos fatores contribuem para sua gênese e inexiste uma causa raiz. Cada fator tem sua dinâmica, inter-relacionamentos e linha de tempo. Todos têm importância, mas alguns parecem ter maior relevância, porém, isoladamente, não causariam o evento adverso; deve-se buscar entender não apenas quem estava envolvido, mas por que e como o fato se desenvolveu. Atribuir ao acaso um acidente é uma forma simplista de não se aprofundar na análise da sua dinâmica. Um ato terrorista não é um acidente. Em Bruxelas, após o atentado ao aeroporto, emitiu-se um alerta para fechar o metrô. Usaram o e-mail errado. Falhou a comunicação. Desconsideraram a experiência do massacre de Paris, ocorrido quatro meses antes. Os responsáveis belgas pela segurança foram questionados por menosprezarem as ameaças conhecidas e não terem treinado contingências para mitigar as consequências de atos terroristas.

O treinamento com foco na missão cria sinergismo, mitiga o conflito nas relações humanas e desenvolve o significado de decisão compartilhada — um por todos, todos por um! Esse modelo de treinamento diminui o distanciamento entre a alta gestão (estratégica) e o profissional operacional (no “olho do furacão”), contribuindo para a liderança situacional diante da incerteza — na qual o operacional assume o controle e é seguido pela equipe, não sendo sua atitude confundida como desvio de protocolo ou insubordinação.

Katzenbach e Smith, no livro “A virtude das equipes”, afirmam que “equipes não buscam o consenso, mas a melhor resposta”, e atribui-se ao talentoso jogador de basquete Michael Jordan a frase “Talento ganha jogo, mas trabalho de equipe e inteligência ganham campeonatos”.

A avaliação do risco na guerra contra o terrorismo globalizado está em sua infância, mas, nesse contexto, os órgãos de segurança pública brasileiros vêm realizando treinamentos intensos e contínuos. O sistema de saúde pré-hospitalar, com os bombeiros à frente, estão bem treinados.

Mas o final da linha é nos hospitais, cujos gestores públicos deveriam promover mais treinamentos dos times multidisciplinares — equipes —, dessa forma diminuindo a distância entre o risco percebido e o real.

Fonte: Alfredo Guarischi – O Globo – 13/06/2016

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