Dr. Newton Richa

Programa Saúde do Futuro

Por Dr. Newton Richa

Repensando o Seguro Saúde

Giselle Felix
Fisioterapeuta

É muito comum observamos que as iniciativas envolvendo os desafios corporativos de gestão da saúde dos funcionários abordam, quase exclusivamente “as dores” e não vislumbram soluções. Ouvimos inúmeras vezes a afirmação de que “a saúde é o segundo item da folha de pagamento das empresas”. Talvez dois fatores contribuam para esta realidade: a falta de conhecimento e de estratégia para os gestores de recursos humanos das empresas que não fazem a gestão exclusiva da Saúde, pois tem várias áreas para conciliar, somado ao conceito conceito equivocado sobre quando estamos falando de saúde realmente (cultura de doença x saúde).

Alberto Ogata, em sua coluna Saúde Corporativa, opina que com relação à estratégia, é importante entender a força de trabalho como um capital importante para as empresas. Neste caso, não basta somente adotar medidas de contenção de custos através de limitação de acesso (como coparticipação, restrição de rede assistencial, burocratização) ou buscar o controle da sinistralidade como único KPI de gestão em saúde. Estatísticas internacionais relatam que mais de 80% dos trabalhadores possui, pelo menos uma condição crônica ou excesso de peso. Isso afeta fortemente a produtividade e leva a taxas crescentes de agravos com custos elevados. Enquanto não se utilizar indicadores integrados de capital humano (custos assistenciais, absenteísmo, FAP, acidentes no trabalho), não será possível enxergar o “big Picture” da saúde na empresa.

Uma solução que tem sido adotada por algumas empresas é fechar um acordo direto com uma rede de atendimento, e dessa forma, as empresas conseguem negociar preços melhores e metas de custo e qualidade. No modelo tradicional, com convênios mediados pelas seguradoras, os empregadores ficam no escuro sobre os custos envolvidos nos cuidados com os pacientes, e os hospitais são remunerados pelo volume de atendimentos e serviços prestados, o que cria um incentivo ao desperdício.

Apesar da complexidade dos acordos diretos, cada vez mais empresas pensam em adotá-los. Uma pesquisa recente feita pela National Business Group on Health com grande empregadores nos Estados Unidos mostra que 11% deles pretendem adotar algum tipo, contra apenas 3% no ano passado.

Já temos algumas empresas que são early adopters na busca por maneiras de reduzir os custos da saúde. Ao orientar os trabalhadores para atendimento de urgência e cuidados preventivos e oferecendo orientação sobre dieta e exercícios, as empresas esperam manter seus funcionários mais saudáveis ​​e fora do hospital.

Em janeiro, a Amazon anunciou uma parceria com o J.P. Morgan Chase e a Berkshire Hathaway para melhorar a qualidade do atendimento e reduzir os custos. Trata-se de uma empresa independente, sem fins lucrativos, para seus empregados nos Estados Unidos. Para dirigir a joint venture, o grupo recentemente nomeou o cirurgião Atul Gawande, professor de Harvard, que é crítico ferrenho da ineficiência do sistema de saúde, e defende a importância de “cuidados regulares e constantes”, chamando-o de “a maior fonte de valor da medicina moderna”, em um relatório de 2017. Com esse direcionamento, a Amazon iniciou seu esforço contratando especialistas em atendimento primário, e é importante relatar a cultura “customer centric” da Amazon, que começa dentro de casa, com seus “clientes internos”, os funcionários, onde testa as novas idéias com seus próprios trabalhadores antes de escalá-las. A atenção primária é uma área de foco para Gawande, o novo CEO da Amazon, Berkshire Hathaway e J.P. Morgan Chase joint-venture de saúde. Jeff Bezos Amazon planeja clínicas de atenção primária para trabalhadores, e a empresa está começando pequena com um piloto, mas quer expandir o esforço no início do próximo ano. Esta atitude é típica de empresas de tecnologia, que usam metodologia Lean startup para validar seus negócios, prototipando, criando um MVP (mínimo produto viável), para que após confirmadas as hipóteses, seja possível escalar e ganhar tração.

O movimento ecoou na Apple, que está desenvolvendo clínicas para seus funcionários e seus dependentes. A Intel começou a fazer contratos diretos com provedoras de serviços médios em 2013 e hoje adota este modelo em cinco mercados. O resultado: custos 17% menores que nos planos tradicionais. A Boeing também começou com o modelo em 2015 e hoje o aplica em quatro localidades. Outras empresas como Walmart e JetBlue tem uma parceria mais restrita, para cirurgias complexas – como de coluna, coração e bariátrica – por meio de uma rede chamada Employers Centers of Excellence Network (ECN), que ajuda os empregadores a identificar provedores de serviço de qualidade e negociar os pagamentos.

A GM engrossa essa fila crescente, de empresas que vêm adotando essa modalidade de benefício de saúde nos Estados Unidos, decidindo cortar o intermediário em sua cidade natal, fechando acordo direto com uma rede de seis hospitais de Detroit e região, para atender seus empregados, planejando dessa forma, eliminar as seguradoras do processo. O acordo da GM com o Henry Ford Health System cobre de tudo, de consultas médicas a procedimentos cirúrgicos. Como parte de um contrato de cinco anos, a rede de hospitais terá metas de qualidade e custo que envolvem a obrigação de marcação de consultas para o mesmo dia ou o dia seguinte (a depender da especialidade), redução de internações e melhora no controle de pressão alta dos pacientes. O presidente do Henry Ford, Wright L. Lassiter III, disse ao The Wall Street Journal que a parceria é um desafio, mas reconheceu que o setor precisa se afastar dos modelos que premiam o volume dos serviços médicos. “Teremos que entregar menos das coisas que tradicionalmente geram mais receita”, afirmou. Apesar disso, a escala potencial com o acordo promete fechar as contas: 24 mil funcionários (de um total de 180 mil empregados da GM no mundo) são elegíveis ao benefício.

Em todo esse contexto, entretanto, a gestão da saúde das empresas não pode estar restrita à área de benefícios com o mero controle dos custos assistenciais, senão, de alguma forma, só estaremos mudando de problema. Há a necessidade de uma abordagem ampla, envolvendo a criação de uma “cultura de saúde” na organização, para maximizar o desempenho da força de trabalho. Caso contrário, como eternizou Peter Drucker com sua frase “ a cultura come a estratégia no café-da-manhã”, ou seja, qualquer estratégia por melhor que possa parecer, será engolida pela falta de uma cultura de saúde legítima.

As matérias que serviram como referência para esta abordagem você pode consultar na íntegra nos sites:

http://braziljournal.com/gm-corta-plano-de-saude-e-vai-direto-ao-hospital

https://www.cnbc.com/2018/08/09/amazon-plans-primary-care-clinics-employees.html

https://saudebusiness.com/finalmente-um-novo-ator-na-arena-da-saude/

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