Giselle Felix

Programa Saúde do Futuro

Por Giselle Felix

Por que precisamos vacinar contra o sarampo?

Giselle Felix
Fisioterapeuta

Em 1904, a cidade do Rio de Janeiro foi palco de uma rebelião inusitada, posteriormente batizada de a Revolta da Vacina. A situação sanitária da capital era tão desastrosa na época, que o Brasil era conhecido internacionalmente como o “túmulo de estrangeiros”. Entre as doenças em circulação na época, destaca-se a varíola. Calcula-se que a varíola matava cerca de 400.000 pessoas por ano na Europa do século XVIII. Numa tentativa de erradicar a doença no Rio de Janeiro, o sanitarista Oswaldo Cruz conseguiu que o Congresso aprovasse a “Lei da Vacina Obrigatória”, que autorizava a invasão de domicílios e vacinação forçada.

Naturalmente a maioria da população não tinha nenhum conhecimento sobre vacinas e temia os possíveis efeitos do tratamento desconhecido. Houveram protestos e, por razões políticas, a rebelião saiu do controle. O governo foi obrigado a amenizar suas práticas, mas retomou a vacinação e eventualmente a varíola foi eliminada da capital. Não há dúvidas sobre o impacto positivo das vacinas e das campanhas de vacinação.

Vivemos hoje na época mais segura da história do ponto de vista de doenças infecciosas. Basta comparar o Rio de Janeiro atual com a descrição de 1904. O problema é que, para algumas camadas da população, o medo das doenças infecciosas acabou ficando no passado. Nós também vivemos um desequilíbrio entre o acesso fácil à informação e a falta de uma base educacional sólida, que nos permitiria filtrar criticamente o excesso de informação e tomar decisões fundamentadas cientificamente. Esse desequilíbrio nos traz ao fenômeno que alguns veículos brasileiros estão chamando de a “nova revolta da vacina”. Ao contrário da original, em que a suspeita com as vacinas partia principalmente da população mais pobre e com menos acesso à informação, o medo das vacinas agora atinge principalmente as classes mais altas. Estas pessoas acreditam que basta se ter uma alimentação saudável (e usar produtos naturais), para se estar protegido contra doenças. Além disso, a ideia de que as vacinas podem conter “químicos” danosos à saúde acaba complementando perfeitamente uma visão de mundo de que devemos priorizar produtos naturais e tratamentos alternativos.

O movimento anti-vacinação (ou anti-vaxx) ganhou notoriedade nos Estados Unidos, apoiado em dados sem credibilidade científica e teorias conspiratórias que se espalharam por redes sociais. A consequência foi um grande surto de sarampo em 2014 (doença que havia sido eliminada nos EUA em 2000). Agora a mesma coisa ocorre na Europa, com uma epidemia de sarampo que já infectou 7,5 mil pessoas. Infelizmente, chegou a vez do Brasil, onde a adesão a campanhas de vacinação também vem caindo em vários grupos. Mais do que um risco às crianças não vacinadas, este é um risco para toda a população. O controle da doença depende da cobertura da vacinação. Mais do que isso, cada pessoa infectada é uma roleta-russa para a comunidade. Durante a infecção, milhões de novas partículas virais são criadas, com diversas mutações. Estas mutações aleatórias podem deixar o vírus subitamente mais agressivo – ou até mesmo resistente à vacina.

O Brasil tem um excelente programa público de vacinação e as vacinas recomendadas pelo Ministério da Saúde são seguras e essenciais. As vacinas permitem a proteção preventivamente, mas não ajudam depois da infecção. Negar vacinação a seus filhos é um ato irresponsável e perigoso que afeta a todos. Felizmente, podemos aprender com a história e com a ciência contemporânea. Apenas com educação e vacinação será possível controlar esta “nova revolta da vacina” e garantir a nossa contínua proteção contra as doenças infecciosas.

Dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas/OMS) mostram que os casos notificados de sarampo no mundo cresceram 300% nos primeiros três meses deste ano, em comparação ao mesmo período de 2018, já são ao todo, 6.640 casos confirmados em 2019. Em resposta ao aumento dos casos de sarampo, neste sábado, dia 19 de outubro de 2019, foi iniciada a primeira fase da campanha nacional de vacinação contra o sarampo de 2019, onde postos de saúde de todo o país estiveram abertos para aplicar a vacina do sarampo às crianças de 6 meses a menores de 5 anos. Com a campanha: “Você, sua família e seus sonhos protegidos”, também aconteceu o “Fiocruz pra Você”. No evento, a população pode participar de uma série de atividades educativas, científicas, sociais e culturais relacionadas à saúde. Nesta edição, crianças de até 4 anos foram imunizadas com a tríplice viral, que protege contra o sarampo, a rubéola e a caxumba. O Dia D é especialmente importante porque, até o momento, a taxa de vacinação está baixíssima. E essa fase da campanha está prevista para acabar no dia 25 de outubro. A segunda etapa da vacinação acontecerá de 18 a 30 de novembro, com foco na priorização da faixa etária de 20 a 29 anos, com vacinação seletiva.

REFERÊNCIAS:
PORTAL FIOCRUZ – Fiocruz pra Você realiza ato a favor da vacinação: https://portal.fiocruz.br/noticia/fiocruz-pra-voce-realiza-ato-favor-da-vacinacao
SAUDE ABRIL – Dia D da campanha nacional de vacinação contra o sarampo acontece sábado: https://saude.abril.com.br/familia/dia-d-da-campanha-nacional-de-vacinacao-contra-o-sarampo-acontece-sabado/
PORTAL DO MINISTÉRIO DA SAÚDE: Sarampo: sintomas, prevenção, causas, complicações e tratamento: http://saude.gov.br/saude-de-a-z/sarampo
Boletim Epidemiológico – Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde. Vol. 50; out 2019
MUSEU DO AMANHÃ – Da varíola ao anti-vaxx: Por que precisamos de vacinas?: https://museudoamanha.org.br/pt-br/artigo-da-variola-ao-anti-vaxx-porque-precisamos-de-vacinas

Um comentário em "Por que precisamos vacinar contra o sarampo?"

  1. Marcio Meirelles disse:

    Não há mais por que duvidar do efeito positivo das vacinas e da importância da adesão às campanhas de vacinação. Basta lembrar a eliminação de populações inteiras pelo sarampo, a varíola e outras doenças transmissíveis ocorrida ao longo da História ou os trágicos efeitos, há apenas umas poucas décadas, de doenças como a poliomielite, para se reconhecer o real valor da vacina. Sejamos prudentes e solidários. Vamos, todos, nos vacinar!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *