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Pessoas que escutam vozes discutem como conviver com o distúrbio

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O psicólogo Leonardo Bastos, responsável pelo grupo de ouvidores de Campinas: segundo ele, a pessoa que ouve vozes já se vê em um manicômio – Marcos Alves

Comunidades fazem grupos de apoio e tentam desvincular doenças como a esquizofrenia

Por Rafael Ciscati
O Globo – 11/03/2018

SÃO PAULO — Maria Aparecida Jacinto ficou em silêncio por alguns segundos, como quem ouve um recado com atenção.

— Agora, eu só estou escutando uns cochichos — disse, com uma expressão séria.

Eram 18h de uma terça-feira e Aparecida era uma das 12 pessoas que, naquela tarde, se reuniram para participar de um encontro de ouvidores de vozes em Campinas, interior de São Paulo. O grupo, criado por iniciativa do psicólogo Leonardo Bastos em 2015, se reúne duas vezes por mês. Serve de ponto de encontro para pessoas que convivem com esse fenômeno e querem compartilhar estratégias para lidar melhor com as vozes.

No jargão da psiquiatria, ouvir vozes significa vivenciar uma “alucinação auditiva”. O fenômeno pode ou não estar associado a uma patologia, como a esquizofrenia. Em muitos casos, é motivo de sofrimento.

— A pessoa que ouve vozes já se vê em um manicômio — diz Bastos. — A ideia do grupo é romper com a patologização dessas experiências. E mostrar que é possível levar uma vida normal.

Ainda nova no Brasil, a ideia surgiu na Holanda, em 1985, obra do psiquiatra Marius Romme, professor da Universidade de Maastricht. Romme tratava pacientes com esquizofrenia e que relatavam essas alucinações. Percebeu que parte deles desenvolvia estratégias para lidar com isso — alguns transformavam as vozes em uma experiência positiva. Romme, então, reuniu pacientes para que compartilhassem suas histórias.

Hoje, há comunidades de ouvidores em pelo menos 31 países. No Brasil, segundo Bastos, há quatro desses grupos funcionando no modelo advogado por Romme, segundo o qual os ouvidores contam com o apoio de um psicólogo e não há vínculos com o sistema de saúde. Esse último aspecto é importante: durante as reuniões, a ausência da figura médica é essencial.

— As pessoas nem sempre se sentem à vontade para contar tudo a seus médicos — afirma o psicólogo. — O grupo precisa ser um espaço de conversa franca.

O grupo de Campinas foi pioneiro nesse modelo no país e chega a reunir mais de 30 pessoas em algumas reuniões. Faz parte de uma rede de ouvidores chamada Intervoice, que divulga suas ideias pelo mundo. Anualmente, a organização realiza um congresso internacional de ouvidores. O Brasil pleiteia ser sede do encontro de 2020.

Aparecida, de 63 anos, frequenta as reuniões há cinco meses. Escuta vozes há 12 anos, desde que presenciou um assassinato na porta de casa:

— No começo, eu sentia medo. Eram dois homens dizendo que queriam me matar.

Diagnosticada com esquizofrenia, a aposentada foi medicada, mas as vozes persistiram. Soube dos encontros por amigos. Nas reuniões, foi estimulada a dialogar e estabelecer acordos com as vozes. Desde então, relata progressos:

— Hoje, eu só as escuto depois das 17h.

A ciência ainda não sabe precisar a origem desse tipo de alucinação. Rigorosamente, as vozes são produzidas pelo cérebro.

— Da mesma forma que os seus pensamentos e os meus — explica o neurocientista Rodrigo Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, especialista em depressão e esquizofrenia.

A diferença do pensamento para a alucinação é que, nesse caso, a pessoa não se reconhece como a origem do fenômeno.

— Há alguma falha nas áreas do cérebro relacionadas ao reconhecimento de si mesmo. Mas isso ainda não foi muito bem estudado — afirma Bressan.

NEM SEMPRE HÁ TRANSTORNO

Nem todo mundo que ouve vozes tem uma doença. Para haver um diagnóstico psiquiátrico, é preciso que a pessoa manifeste um conjunto de sintomas e que estes interfiram negativamente na vida do paciente, gerem pânico, impeçam o indivíduo de se relacionar ou ponham sua vida em risco. Somente ouvir vozes não basta para o diagnóstico de um transtorno.

— Nos últimos dez anos, alguns estudos populacionais mostraram que o número de pessoas que ouve vozes é bem maior do que se imaginava — diz o neurocientista. — Muitas levam vidas produtivas como médicos, juízes, professores. Não estão doentes.

Ainda não se sabe exatamente qual o impacto dos grupos de ouvidores. A maioria dos estudos sobre o tema reproduzem relatos — em geral, positivos — dos participantes. No final de 2017, a professora Eleanor Longdon, da Universidade de Liverpool, no Reino Unido, publicou um estudo que tentava preencher essa lacuna. Ela distribuiu um questionário a 63 grupos de ouvidores ingleses. A cada item, a pessoa deveria atribuir uma nota em uma escala. No quesito “satisfação gerada pelo grupo”, a nota foi alta: 99,4 pontos, em média, de 140. Segundo a maioria, a vida fora das reuniões havia melhorado desde o início dos encontros. Quem trabalha com o tema acredita que isso ocorra porque, ao se sentirem integrados, os participantes mudam a maneira pela qual se veem.

— Os grupos permitem que seus participantes construam um sentido novo para as suas experiências — diz Octávio Serpa, psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em 2005, Serpa criou um grupo de ouvidores aberto aos pacientes do serviço de psiquiatria da UFRJ.

No grupo de Bastos, em Campinas, as boas histórias se repetem com alguma frequência. A mais surpreendente, no entanto, é a do alagoano Eduardo José da Silva, de 27 anos. O rapaz conta que ouve vozes desde a infância. Por causa das alucinações, perdeu um emprego e se afastou da família. Hoje, tenta dar atenção somente às vozes que lhe trazem mensagens positivas:

— Elas me dizem para ficar calmo. Para confiar que as coisas vão melhorar.

Meses atrás, as vozes o ajudaram inclusive a encontrar um endereço no centro de Campinas. Eduardo ia a uma entrevista de emprego e não conhecia a região.

— Elas me disseram para onde ir. Como se fossem um GPS na minha cabeça. Essas vozes eu não quero que desapareçam — diz, rindo.

Segundo Bastos, é esse o efeito almejado: garantir que a pessoa conviva harmoniosamente com suas vozes, em lugar de desejar eliminá-las.

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