Dr. Sebastião Amoêdo

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Por Prof. Sebastião Amoêdo

O Valor da Sua Saúde

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Sebastião Amoêdo
Conselho de Minerva

 

O que vale mais: a vida de um cachorro ou a de um ser humano? Essa pergunta dura, tem uma resposta amarga. Mas para compreender toda a sua dimensão, em primeiro lugar vamos lembrar a questão afirmativa de William Shakespeare que teria proposto algo mais ou menos assim: “o que vale algo, a não ser o valor que se dá a ele? “.  Com isso o grande dramaturgo inglês nos ensinava sobre a subjetividade dos valores. Quando mais próxima for de cada um, a vida terá uma importância maior.

Vamos recorrer ainda a uma segunda referência. Tomando emprestada a frase do professor de Ética Adolfo Sãnchez Vãsquez, temos: “o valor não é propriedade dos objetos em si (ou de determinada pessoa), mas propriedade adquirida graças à sua relação com o homem como ser social”.

Daí então podemos analisar nossa pergunta crucial: O que vale mais, um cão ou um humano? A resposta amarga é:

– Depende.

Se formos pesquisar as ações judiciais onde alguém é processado por matar um animal, ainda que este lhe estivesse causando prejuízos, vamos comprovar casos bem excepcionais. Na 18a Vara Cível de Porto Alegre houve uma sentença indenizatória de R$ 20 mil pelo extermínio de um cão brabo de um vizinho, que matou 12 ovelhas e feriu outras seis, antes de ser degolado pelo pastor enfurecido pela revolta.  

Vamos agora para o mundo dos humanos. Se uma criança, um jovem, um adulto ou idoso é atropelado e vem a falecer, a família não receberá nada além de R$ 13.500 do seguro obrigatório que todo motorista paga.

Entre o animal de estimação e o humano atropelado estamos todos nós a querer saber:  O que valemos? Para que vivemos? Por que precisamos cuidar de nossa saúde? Quanto vale a vida de cada um de nós? Quanto vale a nossa saúde?

A resposta não poderá ser desigual: Depende! Depende se você ama a sua e a vida dos outros ao seu redor. Ou como disse o professor Vãsquez: a sua vida vale a “propriedade adquirida graças à sua relação com o homem (aqui considerado o outro, o próximo) como ser social”. E se você ama, possivelmente será amado e aí a sua vida terá algum valor.

Se você está aqui, tem uma razão de ser, mas sua vida não é sua só. Ela é uma relação com os outros que te cercam e que precisam se nutrir de seus serviços ou bens de produção, sua atenção ou, talvez o mais importante, o seu bem querer. Você não é portanto uma ilha isolado, como já dizia o poeta John Mayra Donne nos idos dos anos 1.500. Você é sim um nó de relações, com bem ensina Leonardo Boff.

Por todas as suas relações, a sua vida e, consequentemente, a sua saúde, há de valer muito, por mais subjetivo que isso seja.    

Mas, se você não ama, a si ou a outrem, tampouco se sente amado, por favor pare por aqui e não continue a ler. Vá correndo procurar um bom terapeuta. Afinal sua psique não está afinada com sua vida.  

Para aqueles que amam a própria vida e a do próximo é que vamos iniciar uma série de artigos sobre aspectos econômicos, com ênfase em dados financeiros, sobre saúde. Não vamos falar economês nem mediquês, porque não somos nem economista tampouco médico.  Vamos tentar, no entanto, traduzir como é abordada a sua saúde por aqueles que dispõem do dinheiro da coletividade, e que, eventualmente, tomam algum desvio entre o cofre do Tesouro Nacional e o investimento ou custeio de atividades, preventivas ou curativas, de nossa saúde.

Se conseguirmos cumprir aquilo que nos propomos estaremos em breve apresentando quanto gasta e com quem gasta a unidade de saúde pública mais próxima de você. Mas para isso precisamos ir abrindo portas, muitas delas trancadas por sete vezes sete chaves. Afinal qual o agente público que deseja ver suas contas analisadas por todos e qualquer um? Vamos então subir uma grande escada, degrau a degrau, tentando desbravar a cada elevação um futuro melhor.

Mas afinal, o que é economia da saúde?

Inicialmente precisamos chegar a um acordo sobre o que é Saúde. Para não inventar um nova roda vamos adotar o conceito da Organização Mundial da Saúde:  

– Saúde é o completo bem-estar físico, mental e social.

Vemos logo que o tema é mais complexo do que a simples assistência aos tormentos físicos. Saúde quer dizer higidez também da mente, indo além da física. Ela engloba também a coletividade, nos seus aspectos sociais, onde nenhum de nós é um só mas um todo de relações. Não basta você estar saudável, todos precisamos estar saudáveis para conquistar o completo bem estar social.

Saúde custa dinheiro, que sai do seu bolso direta ou indiretamente através dos impostos. Assim sendo os Aspectos Econômicos da Saúde passaram a atrair atenção em 1963, quando surgiu o artigo pioneiro do economista americano Kenneth Arrow (1921-2017), Nobel de Economia em 1972.

Ele discorreu sobre a Teoria da Escolha Social debatendo como as preferências individuais se agregam para formar uma preferência coletiva.  Entendendo Arrow podemos identificar como uma preferência ou necessidade nasce na cabeça de cada um e se enriquece com todos os desejos ou carências das demais pessoas que a cercam, para então se tornar uma identidade coletiva. Mais ou menos assim: você lê que apareceu a febre amarela na sua cidade. Fala com seus vizinhos. No dia seguinte você e uma multidão estão na fila da unidade de saúde exigindo serem vacinados.

Aí você vai ter que nos aturar. Responda sinceramente: você precisava da vacina? Seu vizinho precisava? Não sabe? Então por que estão falando mal do serviço de saúde na fila quilométrica que você criou, sem procurar se informar antes se precisava ser vacinado?

Não estamos brigando nem brincando com você. Estamos sim tentando explicar o Teorema da Impossibilidade, de Arrow, que diz:

– A soma das racionalidades individuais não produz uma racionalidade coletiva.

Traduzindo: muitas vezes você acha que pensa correto, mas o resultado final pode ser desastroso.

Arrow apresentou também os “Fatores da Economia da Saúde” que vamos abreviar ao máximo:

O primeiro fator é a “Intervenção do Governo”, tendo em vista que, em princípio, é esse o responsável pelo bem comum e aquele que detém os recursos oriundos da contribuição imposta a cada um. Ao governo cabe fazer escolhas, por vezes impopulares, em quais atividades deve priorizar a sua atuação.

Ao longo de nossos artigos haveremos de nos dedicar intensamente a esse primeiro fator.

O segundo fator é a “Incerteza”, intrínseca à atividade de saúde, notoriamente a assistência médica, em termos de resultados e finanças. A vida tem variáveis que a razão desconhece, na medida em que ainda somos um ser em construção perante a grande existência e por mais que estejamos assistidos pelo mais alto conhecimento humano, cada um é um universo de variáveis imponderáveis.  A vida é só incerteza, como a saúde faz parte da vida, é uma permanente incerteza.

O terceiro é a “Informação assimétrica”. Temos de compreender que Arrow identificou seus fatores na década de 1960 numa relação econômica onde uma das partes detinha maior conhecimento. Ou seja, o médico possuidor de um conhecimento superior ao do paciente e com isso mantendo uma relação privilegiada ou assimétrica. Há que se lembrar que nessa ocasião o paciente não dispunha de tantos recursos de informação e não podia nem simplesmente consultar o Dr. Google ou seu colega o Dr. Yahoo!

O quarto fator são as chamadas “Barreiras à Entrada”. Todas aquelas dificuldades financeiras, técnicas ou legais para o bom concurso da saúde. Quando falarmos desse quarto fator testemunharemos como a pesquisa científica é extremamente contingenciada por tais barreiras, atrasando por décadas novos recursos de cura. Haveremos de abordar esse tema ao longo de nossa série.

O quinto fator são as “Externalidades”, que são basicamente os efeitos colaterais positivos ou negativos que ocorrem como reação a uma ação. Está na moda falar de resiliência, considerada como a grande capacidade de adaptação ante a uma situação fora de nosso total controle.  Mas é preciso compreender que nem sempre a resiliência é apenas positiva. Por exemplo, uma doença infectante também pode infectar o agente de saúde. E tal possibilidade, tão desalentadora, exige mecanismos de controle das “externalidades”, uso de máscaras e roupas especiais, por exemplo.

Por último Arrow apresenta como fator econômico da saúde a “presença do terceiro agente”. Ele tenta explicar que essa presença seria a atuação daquele profissional que procura se cercar de todos os meios possíveis para alicerçar um diagnóstico, não raro solicitando exames ou procedimentos altamente dispendiosos e eventualmente dispensáveis. Tal fator tem sido hoje altamente debatido e utilizado principalmente por empresas de medicina coletiva, para glosar despesas médicas. Sem dúvida será um item que precisaremos debater, com muita atenção e cuidado.  

Arrow não ficou apenas nisso, também fez incursões na importância da identificação das informações financeiras, compreensão dos custos, encargos e despesas com a medicina preventiva e a curativa, objetivando alicerçar a disciplina Economia da Saúde.

Hoje muitas instituições universitárias de graduação e pós-graduação prosseguem nos estudos da Economia da Saúde. Mas essa é uma outra história.

Um comentário em "O Valor da Sua Saúde"

  1. Acyr Cunha disse:

    Interessante abordagem da saúde coletiva. Instigante e esclarecedora. Vamos aguardar a sequencia que, acredito, irá nos brindar com entendimento das possibilidades de compreender os problemas e propostas de solução para uma melhor abordagem da saúde pública.

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