Opinião

O estilo de vida tem efeito cumulativo

Dra Mari Cassol
*Dra. Mari Cassol, Endocrinologista, Doutora em Ciências – Endocrinologia pela FMUSP, Membro Titular da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Membro da Endocrine Society

 

Ao pensar como queremos viver os próximos 50 anos nos vem à mente vários aspectos, como formação, trabalho, renda futura, estabilidade financeira, relacionamentos, família, com certeza muitas coisas. Mas, e sobre a nossa saúde nos próximos 50 anos? Será que estamos avaliando o fato de que o estilo de vida tem efeito cumulativo durante todo o curso da nossa vida? Então, devo começar a pensar sobre o meu estilo de vida agora ou ainda é muito cedo para me preocupar com isso?

Para muitas pessoas, a pandemia da Covid-19 evidenciou a nossa vulnerabilidade. Muitos que tinham a falsa sensação de segurança, que não tinham medo de ficar doentes ou de morrer, começaram a refletir. E é preciso refletir sobre quais devem ser as nossas prioridades em se tratando de longevidade saudável. É preciso informação em saúde e ação.

Já se sabe muito bem que doenças, como o diabetes mellitus, têm altos dados de mortalidade atribuídos. Por exemplo, em 2019, foram 4,2 milhões de pessoas no mundo e, mesmo com todos os alertas, observamos mais de 50% de negligência dos pacientes com seu o tratamento, ou seja, mau controle glicêmico e alto índice de complicações secundárias. O mesmo observamos com o tabagismo, que está associado a uma mortalidade de 8 milhões de pessoas a cada ano. Sendo que 7 milhões são resultados do uso direto do cigarro, enquanto que cerca de 1,2 milhão resultam de não fumantes expostos ao tabagismo passivo. Isso só para citar dois exemplos, nem vou detalhar outras duas condições responsáveis por enorme morbidade e mortalidade: a obesidade e as doenças cardiovasculares.

Então, estamos passando por momentos de reflexão, de ressignificação e, portanto, uma fase importante para a reprogramação dos hábitos de vida, para buscar e aplicar informações em saúde preventiva, voltadas para cada faixa etária. Em se tratando de hábitos de vida, as nossas escolhas alimentares, tipos de atividade física, grau de espiritualidade e padrões de relacionamento interpessoal precisam ser reavaliados. E nesse aspecto, é muito fundamental lembrar também que as estratégias em saúde devem ser embasadas em informações adequadas e respaldadas pela ciência. Tenho observado que, cada vez mais, em áreas do conhecimento como a Endocrinologia, Nutrologia, Geriatria etc, há inúmeras distorções de conceitos e fisiopatologia, levando a condutas terapêuticas inadequadas e ineficientes, que muitas vezes são anunciadas como antienvelhecimento, ou preventivas, ou até para melhorar a performance geral.

O nosso estilo de vida vai refletir em diferentes aspectos de acordo com a faixa etária. Nesse sentido, salienta-se muito o impacto das nossas escolhas alimentares no bem-estar e na qualidade de vida. Inclusive no quesito suplementação alimentar, que deve ser individualizada, de acordo com a idade e as características individuais. Enfim, mesmo levando em consideração todos os aspectos descritos acima, penso que se tivéssemos que escolher somente um hábito para começar a corrigir, eu diria que não deveríamos nunca menosprezar os cuidados com a performance física. Esse aspecto é a base para qualquer outra medida a ser implementada, visando preservar a autonomia e a qualidade ao longo da vida, principalmente porque a performance física é também a base para a saúde metabólica e cognitiva. Fique atento ao seu estilo de vida atual, ele tem tudo a ver com seu futuro.

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