Dr. Sebastião Amoêdo

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Por Prof. Sebastião Amoêdo

O Custo Econômico e Social da Gravidez Precoce

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Professor Sebastião Amoêdo
Conselho de Minerva,
Conselho de Curadores da UFRJ.

Os adolescentes representam cerca de 18% da população do mundo, sendo que 88% deles vivem em países em desenvolvimento.

De acordo com Fundo de População das Nações Unidas – UNFPA a gravidez na adolescência traz consequências para a saúde, educação, emprego e direitos de milhões de meninas em todo o mundo, e pode se tornar um obstáculo ao desenvolvimento de seu pleno potencial.

Até 3,2 milhões de abortos inseguros por ano são feitos por adolescentes em países em desenvolvimento. A estimativa é de 70 mil jovens morrem anualmente por complicações durante a gravidez ou o parto.

Em países desenvolvidos, afirma o estudo, 680 mil partos são de mães adolescentes. Cerca de metade deles acontece nos Estados Unidos. O documento do UNFPA aponta que 95% dos nascimentos de filhos e filhas de adolescentes ocorrem em países em desenvolvimento. Se as meninas no Brasil e na Índia pudessem chegar até seus 20 anos para dar à luz, os países teriam uma maior produtividade econômica equivalente a mais de 3,5 bilhões e 7,7 bilhões de dólares, respectivamente.

O Brasil dispõe da sétima maior taxa de gravidez em adolescentes da América do Sul, empatando com Peru e Suriname, apresentando índice de 65 gestações para cada 1 mil meninas entre 15 e 19 anos. Um em cada cinco bebês que nascem no país é filho de mãe adolescente.

A gravidez precoce se trata também de um problema de prioridade para a saúde pública devido ao alto risco de mortalidade que representa. Os bebês de mães adolescentes, de uma forma geral, apresentam pouco peso e costumam nascer prematuros. Sua incidência representa ao ano um dispêndio de 3,5 bilhões de dólares no Brasil, além de levar ao óbito cerca de 200 adolescentes, de acordo com levantamentos do UNFPA.

Publicado em 2013, o estudo aponta que, se de um lado, brasileiras com menos instrução e rendimento acabam tendo filhos não planejados mais cedo, por outro, mulheres com mais anos de estudo e uma carreira, têm cada vez menos filhos. Segundo o UNFPA mulheres que não concluíram o ensino fundamental têm em média 2,84 filhos, enquanto as com maior escolaridade têm apenas 1. Dez anos antes do estudo essa média era maior para os dois grupos: 3,5 e 2,1 filhos, respectivamente.

Para o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, em sua análise dos dados do Registro Civil, em 2017 houve 476 mil partos em adolescentes de 15 e 19 anos. Já o estudo comparativo ao longo da década apresenta um decréscimo de 24% no número de mães adolescentes, uma vez que em 2007 houve quase 630 mil partos.

Os estudos indicam ainda que 87% dos casos de gravidez na adolescência são indesejados, mas 50% das meninas engravidam após o segundo ano do parto e 30% após o primeiro ano.

O ônus social é pesado: 75% das gestantes precoces abandonam a escola e 57% delas nem estudam nem trabalham, dando início, ou até perpetuando, um ciclo vicioso de subdesenvolvimento, que se configura insidiosamente em cerca de 70% da população afrodescendente e 50% naquela moradora na região nordeste.

Nossa realidade sociocultural trata a gravidez na adolescência como questão exclusiva do universo feminino, com escassos relatos de experiência ante à paternidade de meninos adolescentes. Nesse contexto o menino é um personagem com pouca presença e voz e com parco poder de decisão, como que incapacitado de romper o universo de valores masculino, onde a saúde reprodutiva e a utilização de métodos residem muito mais no universo feminino. Para os especialistas da área, ainda que exista uma variedade maior de métodos disponíveis para as mulheres, isso não justifica o pouco esforço dos homens no sentido de se verem como elementos partícipes na contracepção, se empenhando em fazer uso de algum tipo de método.

Mas a lei é rigorosa com os homens que são pais, sendo eles alvo de forte candidatura ao encarceramento, pelo não pagamento de pensão alimentícia.  Mas quando o pai é menor e não tem recursos financeiros próprios, os encargos recaem sobre os avós paternos da criança. A situação se agrava quando a menina mãe tem menos de 14 anos e a gravidez pode ter indícios de estupro.

No Rio de Janeiro médica ginecologista e obstetra narra que os episódios de gravidez precoce já deixaram há muito de ser uma raridade, manifestando-se em todas as categorias econômicas. Em sua experiência ela constata que a maioria dos partos, pelas limitações fisiológicas das parturientes, se dá em procedimentos cirúrgicos. Ela observa ainda a expressividade de mães que acorrem ao consultório para exames de pós relacionamentos de suas filhas, por vezes sem saber nem mesmo relatar quem foi o parceiro. Para a médica, o SUS presta excelente serviço ao atender e fornecer medicamentos como a “pílula do dia seguinte”, evitando gravidezes indesejadas e orientando no combate à incidência de DSTs.

Gravidez precoce: desejo ou subversão?

É comum a gravidez precoce ser condenada a nível social e familiar. A adolescente grávida é vista como “culpada” de uma situação “indesejada”, pelo que há tendência a ser discriminada e a não contar com o apoio de que necessita. Por isso, os especialistas insistem em que a mãe precoce conte com o apoio da família e seja acompanhada nas visitas aos médicos e nos tratamentos.

Documento “Prevenir é sempre melhor” editado pelas pesquisadoras Sylvia Cavasin e Silvani Arruda da ECOS – Estudos e Comunicação em Sexualidade e Reprodução Humana, se propõe a compreender as condições predisponentes da gravidez precoce, analisando do histórico socioeconômico brasileiro às motivações físicas e psicológicas.  

Elas respondem à clássica pergunta: Foi subversão ou desejo?

Talvez não se trate nem de subversão nem de desejo. Talvez se possa até pensar em acaso, descuido, ingenuidade, submissão e tantos outros fatores. No entanto, a análise do discurso de muitas garotas que engravidam na época da adolescência se refere fortemente ao desejo de ter um filho ou filha, acreditando que a aquisição do status de mãe pode conduzi-las a uma valorização social.

E não é para menos. Apesar de tantas mudanças sociais ocorridas nos últimos anos, ainda faz parte da socialização de qualquer menina que seu grande valor está numa maternidade futura. Mesmo com a variedade de papéis desempenhados pelas mulheres dentro da sociedade, o papel de mãe não foi, nem de leve, ameaçado.

Voltando o olhar para a história, veremos que as mulheres têm tido filhos, cedo ou tarde, dependendo de mecanismos gerados pela própria sociedade. Por exemplo, no Brasil do inicio do século passado, a faixa etária entre 12 e 18 anos não tinha o caráter de passagem da infância para a vida adulta. Assim, meninas de elite entre 12 e 14 anos estavam aptas para o casamento e se não se casassem, nessa idade, seria problemático para os pais, uma vez que, após os 14 anos, começavam a tornar-se velhas para procriar. As uniões dessas crianças eram abençoadas pela igreja.

Essa constatação, encontrada em relatos de historiadores e nas biografias de nossas bisavós, permite considerar o quanto a concepção de adolescência está atrelada não só́ a fatores físicos e psicológicos como a fatores socioeconômicos que determinam o modelo de sociedade de cada época”.

Quase dez anos depois dessa análise do ECOS, o quadro verificado, ainda que apresente variações estatísticas, permanece quase inalterado quanto aos aspectos psicoeconômicosociais. Persiste a busca dessas meninas pela inclusão, se não pela valoração social conferida pelo matriarcado, ainda que precoce, ao menos pela promoção econômica, pela benesse de um rendimento oriundo do Estado, através de uma Bolsa, seja ela Família ou qualquer outra denominação de instrumento de promoção da cidadania, alguns deles ofertados por algumas municipalidades.

Riscos da gravidez na adolescência

O Guiainfantil.com publicou, em agosto de 2018,  artigo assinado por Vilma Medina que explicita os riscos da gravidez na adolescência.

“A gravidez na adolescência é considerada de alto risco e implica em mais complicações, já que a idade ideal para gestação e parto estaria entre os 20 e os 35 anos.

Para os especialistas a adolescente não está preparada nem física nem mentalmente para ter um bebê e assumir a responsabilidade da maternidade. A gravidez precoce apresentaria assim vários riscos tais como:  

– Quadros de má nutrição, com carência de nutrientes essenciais para o bom desenvolvimento do bebê;

– Um maior número de abortos espontâneos;

– Partos prematuros. Muitos bebês de adolescentes nascem antes da 37ª semana de gestação; 

– Os bebês têm um peso baixo, já que a imaturidade do corpo faz com que o útero não tenha se desenvolvido completamente;

– As mães adolescentes têm filhos com mais problemas de saúde e transtornos de desenvolvimento;

– Nos casos de gravidezes de meninas com menos de 15 anos, o bebê tem mais possibilidades de nascer com más formações;

Há ainda as Complicações psicológicas para a adolescente grávida.  Em geral, os estudos revelam uma série de circunstâncias pelas quais as mães adolescentes passam:

– Medo de serem rejeitadas socialmente: uma das consequências da adolescência e a gravidez, é que a jovem se sente criticada pelas pessoas do seu meio e tende a se isolar do grupo;

– Rejeição ao bebê: são crianças e não desejam assumir a responsabilidade, o tempo e as obrigações que significa ser mãe. No entanto, isso também faz com que elas se sintam culpadas, tristes e diminui sua autoestima;

– Problemas com a família: comunicar a gravidez na família, muitas vezes é motivo de conflito e inclusive rejeição dentro da própria família;

– Os filhos de mães e pais adolescentes podem sofrer maior taxa de fracasso escolar, problemas de aprendizagem ou inclusão social.

A adolescência interrompida

É consenso que a adolescência é um período marcado por intensos processos conflituosos e persistentes e por sofridos esforços de autoafirmação. Em tal momento o jovem absorve valores sociais e elabora projeto que impliquem sua integração social.

Nessa passagem de um estado de dependência psicológica para outro de relativa autonomia, potencializam-se as características sexuais, ainda por atingir a maturidade, que se dará em processo físico e psicológico transitório, até a fase adulta.

É necessário ter sempre em consideração que a forma de inserção da adolescência ou da juventude na vida social adquire formas e importâncias diferenciadas ao longo da história, variando de sociedade para sociedade, de cultura para cultura e de acordo com o contexto econômico de cada época.

Atualmente, a sociedade atribui à faixa dos 12 aos 20 anos a atividade escolar e a preparação profissional, em um contexto de dependência econômicofamiliar. Inscreve-se nas entrelinhas a norma de que é preciso atingir a maioridade, terminar os estudos, ter melhor trabalho e melhor salário, para então estabelecer uma relação amorosa duradoura; de que a responsabilidade pelos filhos e filhas, além de ser atribuída à idade adulta, fica restrita ao âmbito da família”.

Verifica-se no âmbito assistencial a adolescentes grávidas uma certa recorrência na transferência de responsabilidade dos cuidados com o recém-nascido e sua futura criação para o âmbito familiar, responsabilizado pelo infortúnio do mundo jovem.  A auto exclusão dessa obrigação e transferência para avós ou terceiros passa a caracterizar uma personalidade psicológica de procriação automática, como destinação de gênero. Com isso as reproduções passam a se descontrolar e ocorrer em série, problematizando a trajetória da vida, até hoje considerada a ideal para a grande maioria: formação escolar, trabalho, autonomia financeira e constituição de nova família.

O infortuno é potencializado por pais e mães contemporâneos que tiveram muito pouco acesso à informação sobre sexualidade e uma educação mais repressiva, o que os impede de acompanhar a contento a liberalização dos costumes e a própria agressividade do momento atual, com suas múltiplas expressões culturais de incentivo à sexualidade.

Ainda que dispusesse de informação e proatividade educacional, disporia a população mais carente, de maneira geral, de métodos contraceptivos de baixo custo?

Como orientar preventivamente e comprometer reativamente o parceiro da menina que engravidou? Qual é o espaço de expressão e importância que o adolescente masculino ocupa dentro da questão da paternidade, notoriamente numa sociedade machista, onde a reprodução é manifestação de domínio e afirmação da sexualidade masculina?

Há ainda as complexidades existenciais dos aglomerados regionais, que precisam ser identificadas pela diferenciação daquilo que é tradicional e o que é moderno na adolescência de hoje, pelas especificidades comportamentais dos jovens das zonas rurais e das zonas urbanas, influenciados que são pelos costumes locais.

A gravidez e a maternidade na adolescência rompe com a trajetória de amadurecimento físico e psicológico de meninas, instaurando um conflito entre a sexualidade juvenil e os projetos que a sociedade lhes impõe para sua sustentabilidade. Com isso ficam fragilizados os ideais de manutenção da reprodução dentro do marco da família; o suprimento de mão-de-obra qualificada em condições de participar da sociedade de consumo; e a contenção da pobreza através da diminuição de nascimento, notoriamente entre as parcelas mais carentes, uma vez que estas são aquelas que mais cobram do Estado assistência, políticas públicas de saúde, de educação, de habitação etc.

Pesquisadores indicam ainda que “a gravidez na adolescência desencadeia fatores que representam um comprometimento individual com questões de diferentes ordens. Estudos no Brasil e no exterior indicam medos, inseguranças, desespero, desorientação, solidão, principalmente no momento da descoberta da gravidez”.

Tais estudos são enfáticos ao afirmar: “Há que se ter cuidado especial para não se deixar envolver pela falsa ideia de que toda gravidez na adolescência seja de fato inconsequente e desastrosa”.

Mais recentemente têm sido detectados sinais de mudanças no ideário de jovens adolescentes de ambos os sexos, que não distinguem uma relação direta entre gravidez e o fim da juventude. Segundo analistas “As próprias famílias não estão vendo isso como uma ruptura social. Aliás, muitas vezes, se solidarizam com a gravidez. Da parte dos meninos, muitos deles externam o desejo de serem pais jovens e fazem projetos de vida que incluem o cuidado sistemático com os filhos e filhas”.

Prevenir para não remediar

O discurso tradicional pela prevenção da gravidez na adolescência utiliza o argumento dos riscos físicos, principalmente pelos fatores característicos da pouca idade e a não devida maturidade biológica para todo o processo de gestação e parto. Assim há uma assomada ênfase nas complicações obstétricas, e os problemas decorrentes da falta de cuidados pré-natais, complicações no trabalho de parto, anemias, hemorragias, desproporção cefalopélvica, entre outros.

Ainda que tais ocorrências possam se manifestar além da segunda década da vida, não se pode tomar a simples constituição física como aptidão para a reprodução. Ou seja, ainda que uma adolescente apresente condições biológicas para bem engravidar e gerar um novo ser, é necessário identificar seu momento histórico de mudança psicológica para atender aos valores e atitudes exigidos pela maternidade.

Há ainda a gravíssima consequência da prática sexual sem prevenção, que tem gerado o aumento da incidência das Doenças Sexualmente Transmissíveis – DST. Os dados, ainda que inconsistentes, já que apenas os casos de HIV e de sífilis em gestantes e bebês são notificados obrigatoriamente ao Ministério da Saúde, têm apresentado em São Paulo índices de crescimento em mais de 600%. Em 2013 e 2014, Acre, Pernambuco e Paraná registraram crescimento de 96,1%94,4% 63,1%, respectivamente.

A julgar pelos números do Ministério da Saúde, a sífilis ameaça cada vez mais gestantes e bebês. De 2005 a 2013, os casos de grávidas com a infecção pularam de 1.863 para 21.382, uma elevação de mais de 1000%. O drama é que a enfermidade pode passar de mãe para filho, gerando a sífilis congênita. No mesmo período, os episódios dessa ameaça tiveram um crescimento de 135%.

Tais índices ensejam a importância da educação sexual, como questão de Saúde Pública e segurança sanitária. Mas os óbices políticos e ideológicos a essa política são intensos, notoriamente numa cultura onde o prazer é condenado e o sofrimento é virtude. Detém ainda a elite política o conhecimento de que controlar a sexualidade é o mesmo que controlar as pessoas, motivação primária para toda restrição e razão mais que bem-sucedida para o atingimento de ideais econômico-sócio-ideológicos.

Mas ao não orientar para uma procriação responsável, notoriamente junto a famílias sem acesso à informação, o Estado fragiliza o próprio planejamento do seu desenvolvimento, impedindo a conquista dos menos afortunados às condições de promoção social e gerando uma subcategoria econômica, cada vez mais impossibilitada de atingir o bem comum. Instaura-se com isso o perverso ciclo vicioso do subdesenvolvimento.

Divide-se a sociedade brasileira quanto a abordagem do processo educacional para o relacionamento sexual. Em contrapartida àqueles que responsabilizam o núcleo familiar para tal procedimento, contra argumentam aqueles que identificam famílias sem condição cultural para tanto, haja vista sua desinformação. Há ainda o que apontam que, não raro, está no próprio núcleo familiar os agentes de agressões sexuais às crianças e adolescentes.

Em meio ao debate se incrementa a perigosa prática da educação sexual da rua, quando jovens adolescentes buscam nos amigos aquela informação que não detém, oportunizando experiências eventualmente não menos traumáticas.

A visibilidade do tema Sexualidade e Saúde Reprodutiva enseja ainda uma grande variedade de publicações e programas para adolescentes que são veiculados pelos diferentes meios de comunicação, notoriamente pelas redes sociais, hoje acessíveis por simples telefones e, não raro, de caráter mais pornográfico que educativo. Em próximo artigo falaremos sobre a força econômica desse universo de mídia pornô e a omissão dos programas de saúde junto a seus agentes.

No âmbito das Políticas Públicas, o Ministério da Educação editou há vinte anos seus Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental. Essa nova proposta definiu quatro princípios norteadores para todos os conteúdos: dignidade da pessoa humana, igualdade de direitos, participação e corresponsabilidade pela vida social. A Orientação Sexual entrou nessa proposta dentro dos temas chamados transversais às disciplinas. Questões relacionadas à Saúde, Meio Ambiente, Ética, Pluralidade Cultural, Trabalho, Consumo e Orientação Sexual poderiam ser tratados a qualquer momento, mesmo em aulas de outras disciplinas.

Sem haver obrigatoriedade e com certa dispersão de conteúdos e objetivos, as abordagens passaram a se multiplicar de acordo com a visão programática de múltiplos educadores, ensejando por vez algumas práticas que escandalizaram a opinião pública, que passou a radicalizar a condenação até mesmo de publicações de matiz científico.

No início do ano 2019, quando uma nova gestão governamental se faz presente, lastreada pelo voto considerado conservador, o tema da Educação Sexual volta ao debate, exigindo, a bem de cerca de 32 milhões de jovens, ser analisada mais pela ênfase de Saúde do que dos costumes, e a bem da própria saúde econômica. Se tal obrigatoriedade permanecer circunscrita ao âmbito familiar, há que se pensar em que tipo de apoio deva receber a família, principalmente as mais carentes, para que possa transmitir uma cultura, que eventualmente não disponha.

Desde IV Conferência de População e Desenvolvimento, realizada no Cairo em setembro de 1994, a adolescência recebeu destaque especial, principalmente quanto à educação sexual.  

Suas conclusões sobre Direitos Reprodutivos e Saúde Reprodutiva, apresentam as questões de saúde sexual e reprodutiva dos adolescentes, incluindo a gravidez, o aborto sem segurança, as DST e a Aids, indicando várias abordagens preventivas, tais como o  encorajamento a um comportamento reprodutivo e sexual responsável e saudável, incluindo a abstinência voluntária e a disponibilidade de serviços médicos com orientação aos métodos de sexo seguro e prevenção das DST, com ênfase à AIDS.

As orientações evidenciam a importância dos agentes de saúde e sua abordagem ética, mantendo a confidencialidade dos jovens.

Mais recente, o documento do UNFPA pede uma “mudança no perfil de intervenções dirigidas às meninas” para “abordagens amplas que construam o capital humano das meninas, ajudem-nas a tomar decisões sobre as suas vidas, especialmente em matéria de saúde sexual e reprodutiva”, além de lhes oferecer “oportunidades reais para que a maternidade não seja vista como seu único destino”.

A abordagem proposta no estudo deve ter como alvo, diz a agência, “as circunstâncias, condições, normas, valores e forças estruturais que perpetuam a maternidade precoce, por um lado, e que isolam e marginalizam as meninas grávidas, por outro”.

As meninas precisam ter acesso aos serviços de saúde sexual e reprodutiva e à informação. Elas precisam ser liberadas das pressões econômicas e sociais que muitas vezes se traduzem em uma gravidez, bem como da pobreza, da falta de saúde e da não realização do potencial humano que acompanham a gravidez”, afirma o estudo.

Lembro-me bem, como criança na década de 1950, da presença de serviço médico e odontológico nas escolas públicas.  Ao fim dessa segunda década do século XXI, me pergunto se não haveria necessidade de as escolas contarem com profissionais especializados para orientar meninos e meninas adolescentes nas questões de natureza sexual, muitas vezes relegadas a segundo plano pelas famílias. Recordo-me ainda, como professor universitário, as inúmeras vezes que orientei jovens, no limiar da maturidade, que lutavam contra a dependência das drogas e os litígios por estas ensejados junto a seus pais. Eu mais ouvia que falava, exercendo o treinamento que recebi em Seminário Católico para atender àqueles que desejavam o Santo Sacramento da reconciliação, o também chamado Sacramento da alegria. Se reconduzi jovens ao reencontro dos seus o fiz, apenas por ter sido afortunado com a educação religiosa para o confessionário. Em cerca de 40 anos de exercício profissional universitário nunca tive qualquer orientação acadêmica de como proceder, razão porque não identifico docentes,  aptos para a educação de costumes. Há que se ter profissionais habilitados e vocacionados a tal mister, podendo estes não apenas atuar junto aos jovens, e principalmente, junto às famílias. Talvez médicas e médicos, enfermeiros e enfermeiras, com vocação para a área da Saúde da Família, poderiam prestar relevantes serviços à causa.

Já a Organização Mundial da Saúde – OMS recomenda para evitar a gravidez na adolescência:

– Limitar o casamento antes dos 18 anos;

– Aumentar o uso de contraceptivos para os adolescentes;

– Gerar compreensão e apoio para reduzir a gravidez antes dos 20 anos;

– Reduzir o sexo forçado entre adolescentes;

– Apoiar projetos de prevenção da gravidez na adolescência.

De qualquer modo, a melhor prevenção é que as jovens tenham uma boa educação sexual dentro do seio familiar. É importante informar sobre os riscos e complicações da gravidez na adolescência e todas as mudanças que acontecem a partir do momento que uma adolescente engravida.

Recomenda-se o diálogo em família, como essencial, devendo haver uma conversa aberta e transparente para que as jovens tenham toda a informação ao seu alcance.

A pergunta que fica ainda é sobre o papel do Estado na orientação da família, tanto pela importância social e de saúde, como também pela econômica.

Quanto aos meninos é sempre bom lembrar que o sexo, com a gravidez precoce é uma “chave de cadeia”, razão que impõe a prevenção, ao menos para aqueles que não tenham a intensão de assumir tal responsabilidade.    

No meio do caminho, a Lei

O Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, passou a vigorar em 1990. O ECA define que todas as crianças e adolescentes têm direito à proteção integral, e que são sujeitos a direitos especiais porque são pessoas em processo de desenvolvimento. Determina também que o atendimento das necessidades e dos direitos das crianças – até 12 anos, e adolescentes – de 12 a 18 anos,  seja prioridade absoluta das políticas públicas do país.

Ainda que o ECA represente uma das legislações das mais avançadas do mundo no que tange à Doutrina da Proteção Integral de Crianças e Adolescentes, alguns pontos deixam margem para indagações de como abordar as questões de saúde reprodutiva de adolescentes, indo até mesmo além da situação de maternidade, esta explicitamente protegida pelo ECA.

Reincidimos assim na proposição:

Há que haver expressivo debate sobre o papel do Estado na orientação da família quanto à educação sexual. Se não pela importância social e de saúde, ao menos pela premente importância econômica.

A proposta educacional da Federação das Indústrias do Paraná, do Serviço Social da Indústria – SESI e do Rotary Club Curitiba Cidade Industrial com seu manual: “Gravidez Precoce, saiba como prevenir”, link abaixo, é uma das contribuições que não pode e não deve ser desmerecida por sua qualidade didático pedagógica, servindo como excelente base de discussão no processo de orientação às famílias brasileiras.  

http://www.sesipr.org.br/uploadAddress/gravidez%20precoce_saiba%20como%20prevenir_arquivo%5B33308%5D.pdf

Um comentário em "O Custo Econômico e Social da Gravidez Precoce"

  1. Marcio Meirelles disse:

    Em pleno século XXI, a reprodução humana – função fundamental para a preservação da espécie – ainda é motivo de estranhamento por setores expressivos da sociedade. Para uns, um erro da natureza – veja-se a história da cegonha. Para outros, uma simples e inconsequente diversão.
    Como demonstra a densa matéria apresentada pelo Professor Amoêdo, a relação entre os sexos é assunto sério, tem consequências múltiplas e merece ser tratado com ponderado cuidado pelos meios de comunicação.
    Aliás, Verdi, em belíssima ária de La Traviata, já nos advertia para essa dramática ambiguidade: “Di quell’amor ch’è palpito. Dell’universo intero, Misterioso, altero, Croce e delizia al cor.” (“Daquele amor que é o pulso do universo inteiro. Misterioso, altivo. Cruz e delicia ao coração”).

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