Dr. Newton Richa

Programa Saúde do Futuro

Por Dr. Newton Richa

O Atendimento ao Paciente na Era do Conhecimento Científico Compartilhado

Giselle Felix
Fisioterapeuta

Na primeira metade dos anos setenta do século passado, um ex-padre austríaco-americano lançava a crítica mais contundente até então empreendida contra a Medicina moderna. Dizia Ivan Illich logo no primeiro parágrafo de sua Nêmesis da Medicina: “a Medicina institucionalizada transformou-se numa grande ameaça à saúde”. Na tradução brasileira de 1975, feita com base na edição francesa, lê-se na introdução: “A empresa médica ameaça a saúde, a colonização médica da vida aliena os meios de tratamento, e o seu monopólio profissional impede que o conhecimento científico seja partilhado”.

A referida obra definitivamente influenciou a formação intelectual dos que integravam a Saúde Coletiva nos anos setenta, e foi citada em mais de uma apresentação durante o 6º Fórum do Observatório da Saúde, cujo tema é Sustentabilidade do SUS, em comemoração aos seus 30 anos. Vamos aproveitar e revisitar o conceito de iatrogênese, que, segundo o Ivan Illich dos anos setenta, aparece sob três formas principais:

– Em primeiro lugar, a iatrogênese clínica, causada pelos próprios cuidados de saúde, resultando em danos à saúde atribuíveis à falta de segurança e ao abuso das drogas e das tecnologias médicas mais avançadas.

– Em segundo lugar, Illich identifica uma iatrogênese cultural, que consiste na destruição do potencial cultural das pessoas e das comunidades para lidar de forma autônoma com a enfermidade, a dor e a morte.

– Finalmente, a iatrogênese social, decorrente de uma crescente dependência da população para com as drogas, os comportamentos e as medidas prescritas pela Medicina em seus ramos preventivo, curativo, industrial e ambiental. A iatrogênese social  representa a  medicalização social, porque anula o sentido da saúde enquanto responsabilidade de cada indivíduo e de sua família e dissemina na sociedade o “papel de doente”, que é um comportamento apassivado e dependente da autoridade médica.

Algumas boas décadas depois da publicação da Nêmesis da Medicina, em uma reflexão futurista sobre como será a Saúde do Futuro, observamos uma tendência cada vez mais comum na era da Transformação Digital, que ameaça a permanência de várias profissões, onde o profissional era remunerado por ser o detentor absoluto do conhecimento. Já que hoje o conhecimento e a informação estão cada vez mais acessíveis, há que se pensar em formas atualizadas para a educação do paciente, que sejam orientadas pelo seu médico pessoal.

Uma das consequências mais visíveis que podemos observar acontecendo na área de Saúde sob esse tema, se dá através da saúde digital, e que está promovendo uma mudança na relação entre pacientes e médicos. Os últimos não são mais a fonte exclusiva de informações sobre sauéd e doença para os primeiros: mecanismos de pesquisa, diários on-line e glossários, grupos de suporte a pacientes em mídias sociais, aplicativos e até chatbots estão amplamente disponíveis se alguém tiver dúvidas sobre problemas de saúde. E as estatísticas mostram que as pessoas estão cada vez mais inclinadas a usar os poderes dessas ferramentas para a autoeducação, com objetivos de cuidar da saúde de seus entes queridos.

Na Era do Conhecimento científico compartilhado, economia compartilhada, gostar ou não que o paciente dê um Google, um Bing ou consulte a Siri, ou Alexa, não está mais em questão. Ele vai fazer, ou um parente, um amigo, fará para ele. Precisamos encarar os fatos e concentrar energias para gerar ainda mais valor ao atendimento humano, humanizado, ético, bioético, sustentável, centrado no paciente. 

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