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No Dia Internacional do Diabético, entenda mais sobre a doença

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Por Fernanda Machado (estagiária)*

 

O diabetes é caracterizado pela produção insuficiente ou má absorção de insulina, hormônio regulador da glicose no sangue e fornecedor de energia para o organismo. Quando mal controlada, pode afetar diversos órgãos e causar problemas nos vasos sanguíneos, além de poder provocar desidratação e complicações respiratórias. Para alertar para os perigos da doença, no dia 27 de junho, é comemorado o Dia Internacional do Diabético.

Para a Dra. Mônica Gabbay, Endocrino-Pediatra e Coordenadora do Departamento de Diabetes Mellitus 1, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), é essencial falar sobre o diabetes e esclarecer que existe mais de um tipo da doença.

— Nós sempre colocamos para o paciente de forma bem clara e simples, que há 4 tipos: o tipo 1 é autoimune, causado pela destruição da célula beta do pâncreas, exigindo aplicação de insulina assim que diagnosticado; o tipo 2 é geralmente associado ao peso e ao sedentarismo, podendo precisar de insulina; o gestacional; e outros tipos de classificação que envolvem vários subtipos — esclareceu.

A médica também explicou que é comum entender o diabetes como uma coisa única, visto que 90% dos pacientes sofrem com o tipo 2 da doença (DM2). Muitas pessoas acreditam que o diabetes inicia em idade mais avançada e que está associado apenas ao peso, bastando fazer dieta e exercícios físicos e, eventualmente, medicando-se com insulina, que a doença será controlada. Apesar de poder acontecer em qualquer faixa etária, é uma surpresa ingrata quando uma criança ou um adulto jovem é diagnosticado com diabetes tipo 1 (DM1), às vezes após poucos dias de sintomas, tais como: muita sede, urina frequente, mal estar e perda de peso, aparecimento de uma vulvovaginite ou balanopostite (inflamações genitais causadas por fungos) e a necessidade imediata da reposição de insulina por toda vida.

— O diabetes tipo 2 (DM2), na grande maioria dos casos, é assintomático, descoberto ao acaso na realização de uma glicemia ou até em consulta com oftalmologista com o achado de uma complicação do fundo de olho devido ao diabetes. Porém, existem alguns sinais que precisam ser observados atentamente. A presença da sede excessiva, despertar a noite para urinar e a não cicatrização de uma ferida podem ser sinais de alerta. Já o diabetes tipo 1 causa grande perda da capacidade de produzir insulina, sendo que ao diagnosticar, em geral, já houve uma perda de 60 a 80% da capacidade produtora de insulina, dependendo da faixa etária. São pacientes, portanto, mais sintomáticos. Ter sintomas significa dizer que, na maioria das vezes, está mais direcionado para o tipo 1 — revela a especialista.

De acordo com Dra. Mônica Gabbay, o que vai diferenciar os dois tipos são os marcadores: exames laboratoriais do peptídeo C e a presença de autoanticorpos contra a célula beta. O peptídeo C, que mede a reserva de insulina, é muito baixo no DM1 e se apresenta normal ou aumentada, inicialmente, no DM2 (fase chamada de resistência à insulina ou hiperinsulinismo). No decorrer do tempo, o paciente com DM2 também terá a perda da capacidade dessa produção. Quantos aos anticorpos, serão positivos no DM1 e negativos no DM2.

Quanto ao diagnóstico, é importante entender, mais uma vez, as diferenças entre os dois principais tipos da doença. O DM1 é diagnosticado em geral na infância e adolescência, manifestando-se através da dificuldade de segurar o xixi e a sede intensa. A criança passa a noite inteira urinando ou molha a cama, o que é raro de acontecer a partir de uma determinada idade, em que ela já tem domínio sobre o esfíncter. Em bebês, o diabetes pode se manifestar através de irritabilidade e sede excessiva.

O diagnóstico do DM2, por outro lado, pode acontecer por um exame de rotina, exame pré-cirúrgico ou num mutirão de testes ponta de dedo (exame que testa o índice glicêmico, na qual a ponta de um dos dedos da mão é furada para coletar um pouco de sangue). 

Ao se descobrir diabético, existem critérios a serem seguidos sobre o nível da glicose. No DM2, pode ser necessário usar insulina já no primeiro momento, para tirar o paciente do período chamado glicotoxicidade. O controle glicêmico começa com medicações orais — metformina, por exemplo. O paciente será orientado a fazer dieta, atividade física e a frequentar consultas com um nutricionista e endocrinologista.

No DM1, por possuir um caráter emergencial, é preciso iniciar imediatamente a aplicação de insulina. O paciente precisa ser ensinado a aplicá-la e treinado a medir a glicemia pelo menos 4 vezes ao dia, para entender como essa glicose varia.

— Atualmente, iniciamos todos os pacientes com DM1 através do tratamento intensivo, chamado de terapia basal-bolus, com uma insulina basal achatada de longa duração e insulina rápida nas refeições do paciente, de acordo com sua glicemia e os alimentos que irá ingerir. Também é importante o fator educacional, em que os médicos ensinam o paciente a contar carboidratos, entender como corrige uma hipoglicemia e o que é hiperglicemia. O portador de DM1 demanda uma equipe multidisciplinar, com nutricionista, psicólogo, principalmente nessa primeira fase, para entender, por exemplo, que ele terá uma vida normal, com a ressalva de precisar aplicar insulina todo dia e medir a glicemia — esclarece Dra. Mônica Gabbay.

A especialista ainda acrescentou que a Medicina evoluiu muito e que hoje é possível monitorar o índice glicêmico através dos chamados sensores de glicemia. As canetas de aplicação de insulina também evoluíram, com agulhas menores e insulinas mais adequadas.

Segundo a Dra. Mônica Gabbay, hoje, no Brasil, 12 milhões de pessoas são diabéticas, sendo 10% pertencentes ao grupo de DM1 (cerca de 1.2 milhão de pacientes).

— Em âmbito estadual, não temos esse número. Temos noção pela estatística geral brasileira. Aliás, isso é uma falha grande dos nossos dados estatísticos nacionais, porque, infelizmente, não é uma doença de notificação compulsória, quando deveria ser — informa.

Lamentavelmente, o diabetes vem crescendo assustadoramente no mundo. No caso da DM2, existe uma razão muito clara: erro alimentar e sedentarismo. As dietas estão cada vez mais ricas em gorduras e carboidratos e as atividades físicas estão cada vez menos frequentes. Já sobre a DM1, o que se nota são diagnósticos mais precoces e em maior quantidade.

— Eu atuo há 36 anos. Quando comecei, não se ouvia falar em diabetes em criança menor de 5 anos. Hoje, no ambulatório onde atendo, tenho um grupo de pacientes abaixo de 3 anos de idade. Existem várias teorias para isso acontecer: teoria higiênica, teoria de não aleitamento materno, teoria de introdução precoce de alguns alimentos e teoria de infecção viral. Mas, nenhuma delas é capaz de explicar esses números — revela a médica.

 

O diabético apresenta mais risco de sofrer complicações ao ter Covid-19

Ao falar do diabetes em meio ao cenário de Covid-19, Dra. Mônica Gabbay afirmou que o paciente com diabetes não apresenta mais chance de ter Covid-19 do que uma pessoa que não tenha diabetes.

— O risco, na verdade é de complicação, especialmente na presença de comorbidades que o diabetes tipo 2 apresenta: obesidade (que é o pior fator) e pressão alta, além do mau controle da doença. A obesidade é um fator tão importante que é um dos critérios adotados quando o paciente com tosse ou febre é encaminhado para o Hospital de Campanha. Se obeso, independente de ter diabetes ou não, ele é levado para uma área especializada, pois o risco de complicação é grande — esclareceu.

Sobre o estudo publicado no The New England Journal of Medicine, alertando que a Covid-19 pode desencadear o aparecimento de diabetes em pessoas saudáveis, Dra. Mônica Gabbay afirmou que a pesquisa faz sentido, pois um dos fatores deflagradores de diabetes tipo 1 são as infecções virais.

— Existem, por exemplo, algumas pesquisas mostrando a associação de Coxsackie e rubéola como gatilhos em quem tem predisposição genética em deflagrar o diabetes. Isso poderia justificar o porquê de alguém apresentar DM1 com 2 anos de idade e outra pessoa desenvolver a mesma doença apenas aos 70 anos. A diferença de um para o outro, o que “protege” um e “expõe” o outro são fatores genéticos e ambientais — explicou.

A especialista finalizou reiterando que o novo coronavírus pode ser um gatilho para o diabetes tipo 1, mas que os estudos ainda são preliminares.

— Há muito tempo, estudava-se a rubéola como deflagradora de DM1, pois houve um salto no número de diabéticos tipo 1 após um surto da doença. Parece que, de fato, os vírus funcionam como um gatilho e talvez a Covid-19 faça o mesmo papel, mas ainda é muito cedo para falar — encerrou.

 

*Sob a supervisão de Juliana Temporal

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