Opinião

Não existe teleconsulta

A hoje chamada telemedicina reduz nossos sentidos a frações da visão e da audição

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*Dr. Luiz Roberto Londres, presidente do Instituto de Medicina e Cidadania
O Globo On-Line – Publicado em 13/07/2020

 

Danilo Perestrello, um dos introdutores da psicanálise em nosso país, tem como título de um de seus livros “A medicina da pessoa”. A publicação que contém minha tese de mestrado em Filosofia e cujo título é “Iátrica — A arte clínica” traz como subtítulo “Medicina — um encontro de pessoas”. E outro livro meu, com o título “Sintomas de uma época”, tem como subtítulo “Quando o ser humano se torna um objeto”.

Vale destacar a Resolução CFM 1958/2010, que diz em seu artigo 1º: “Definir que a consulta médica compreende a anamnese, o exame físico e a elaboração de hipóteses ou conclusões diagnósticas, solicitação de exames complementares, quando necessários, e prescrição terapêutica como ato médico completo e que pode ser concluído ou não em um único momento”.

O que hoje pouco se sabe é que uma anamnese bem feita por um médico bem preparado nos leva, em 90% dos casos, a uma hipótese diagnóstica correta. Essa foi a minha experiência e é o que nos diz o pensador médico Howard Barrows em seu livro “Developing Clinical Problem-Solving Skills: A Guide to More Effective Diagnosis and Treatment“. E, com a anamnese e o exame físico bem feitos, metade dos meus pacientes saía da primeira consulta sem pedidos de exame e solicitações de medicamentos. Quase todos voltavam à consulta seguinte curados em seus sintomas.

Portanto, conforme dito por um colega que compartilha do mesmo pensamento, “não existe consulta médica sem anamnese e sem exame físico”. Portanto, não existe teleconsulta; o que pode existir são, em pacientes já por nós conhecidos, quando for possível, o telemonitoramento e a teleorientação.

A hoje chamada telemedicina, entre outras perdas, reduz nossos sentidos a frações da visão e da audição. Perdemos os dados que nos são revelados pela palpação, pela percussão e mesmo pela ausculta. E, talvez o ponto mais importante, não leva a um verdadeiro encontro médico-paciente, encontro esse que facilita o relato de todas as histórias do paciente tanto em seu campo pessoal, quanto em seus campos familiar, social, profissional e mesmo psíquico e espiritual.

Em suma, telemedicina nos traz um grande avanço à Medicina, desde que não ofusque seus pontos básicos, cujos principais são: a relação médico-paciente e a anamnese completa.

 

Fonte: https://oglobo.globo.com/opiniao/nao-existe-teleconsulta-24526294

Um comentário em "Não existe teleconsulta"

  1. Marcio Meirelles disse:

    A Telessaúde permite expandir o atendimento à saúde, fazendo com que ele chegue a locais distantes ou de difícil acesso. Será especialmente útil no Sistema Único de Saúde (SUS), onde é mais fácil utilizá-la sem que se ultrapassem os limites da ética.

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