Dr. Sebastião Amoêdo

$ua $aúde

Por Prof. Sebastião Amoêdo

Muito além das boas intenções

Prof. Sebastião Amoêdo
Conselho de Minerva

No domingo dia 21 de outubro o jornal Folha de São Paulo publicou um caderno sobre sua Segunda Jornada pela Saúde, com o título “O paciente no centro de tudo”, sob o patrocínio do Laboratório Takeda Brasil.

O primeiro parágrafo dessa longa matéria afirma: “Garantir acesso à saúde de qualidade é um tema complexo, que envolve médicos, governo, indústria farmacêutica, hospitais, planos de saúde e o próprio paciente. Os obstáculos são inúmeros, mas isso não pode impedir que todos os envolvidos nessa engrenagem se unam para iniciar uma mudança”.

Seguindo com a matéria da Folha “Durante o evento, representantes da área de saúde, do governo, do Legislativo e de pacientes concordaram que, por mais que cada um faça o melhor na sua área, é impossível ampliar o acesso à saúde sozinho. É preciso identificar quais os principais gargalos do setor e combinar experiências e conhecimento para pensar em soluções que beneficiem o paciente e tornem todo o sistema de saúde mais eficaz”.

Para quem acompanha nossas matérias em $ua $aúde tais informações não representam grande novidade e ganham cada vez maior comprovação, dessa feita através de pesquisa do Ibope Inteligência e da IQVIA sobre as principais dificuldades relatadas por pacientes dos sistemas público e até do particular para ter acesso a tratamentos e medicamentos.

Considerando dados totais dos usuários do SUS e do sistema suplementar de saúde a pesquisa revelou que somente 19% dos entrevistados se dizem satisfeitos com o sistema de saúde e 44% com o atendimento em prontos-socorros.  Indicam os pesquisados terem realizado em média 6,7 consultas no último ano, levando 6,4 semanas em média de tempo entre o agendamento e a consulta. Tais consultas têm uma duração média de 17 minutos, sendo que 3% delas duram mais de 45 minutos e 6% menos de 5 minutos.

Já um simples check up, representado por exames de pressão, sangue, urina e fezes, tem o tempo médio de 3,5 anos para ser repetido.

A satisfação com as campanhas e o acesso à vacinação chega a 76%. Dizem ter tido acesso a exames 70% dos entrevistados, 80% deles a consultas e 72% informam ter acesso à medicação. Mas a expectativa é tão baixa em relação à saúde que apenas a marcação de uma consulta já é considerada uma vitória.   

Mas o otimismo brasileiro sobressai na afirmativa de que se está cuidando da saúde. “Dados da pesquisa apontam que 60% dos entrevistados dizem ter uma alimentação saudável, que mais da metade afirma ter participado de campanhas de vacinação e que quase 40% dizem praticar alguma atividade física com frequência” informa a Folha, que prossegue:

“A pesquisa mostra um descolamento entre o discurso e a prática. As pessoas entrevistadas falam que estão se prevenindo, que a vacinação é importante, mas os índices de vacinação no Brasil estão caindo” afirma a Dra. Cyrla Zaltman, Presidente do Grupo de Estudos da Doença Inflamatória Intestinal do Brasil.

Na opinião do Fr. Claudio Tafla, Diretor Médico do Grupo Bem “As pessoas se preocupam com prevenção, mas não sabem como colocar isso de forma realista em suas vidas”.

Ainda segundo a pesquisa, o Clínico Geral é o especialista mais procurado, fato revelador da falta de médicos especialistas em muitas regiões do Brasil. Se formos apontar para o Estado do Rio de Janeiro teremos a triste constatação de municípios onde não existe uma simples UPA, obrigando paciente a fazerem a famosa transportoterapia em Vans contratadas pelas prefeituras.

Segundo relato de um ex-prefeito de duas gestões no interior do Rio de Janeiro, o prefeito que instala pequenos postos de saúde acaba comprando problemas. A partir do momento em que o usuário apresente uma carência de saúde, que demande maior assistência como ir fazer um exame ou um procedimento médio ou complexo, ele e seus familiares passam a exigir tal assistência da prefeitura. Na expressão do velho político: “ele estava morrendo quietinho e aí vai morrer nas mãos do prefeito, olha a encrenca”. Por isso, justifica, muitos prefeitos preferem contratar as Vans e mandar o problema para outro município.

Para Helena Soares, diretora do Ibope, para ]se tornarem protagonistas de sua própria saúde os pacientes precisam ser empoderados, entendam como usar o sistema de modo mais eficiente e sem desperdício de tempo e recursos.

Para a Juíza Gabriella Spaolonzi, do Tribunal de Justiça de São Paulo, “é preciso divulgar os diretos dos usuários da saúde pública e privada. E criar coragem para que haja mais diálogo entre as instituições”

“Falar em empoderamento é importante, mas também é essencial pensar que a realidade brasileira é muito diversa” disse Aline Leal, técnica do Ministério da

Saúde, representando gestores públicos sempre apresentando um obstáculo como desculpa para justificar o insucesso dos bons serviços.

A pesquisa do Ibope traz ainda muitos outros dados importantes.  Ela comprova o quanto a medicina preventiva é negligenciada. Apenas 15% dos entrevistados receberam comunicação sobre a necessidade de realização de consultas ou exames preventivos. Quanto a possibilidade de obter medicamentos todas as vezes em que se precise, 28% teve sucesso no geral. Esse índice cai para apenas 8% de sucesso em obter o medicamento na Farmácia Popular e 6% no próprio SUS, que lidera a taxa de insucesso com 18% de frustrados afirmando que quase nunca ou nunca obtêm medicamentos no âmbito do próprio SUS.

Os mais famosos médicos da atualidade, Drs. Google e Yahoo atendem informações sobre problemas de saúde para 68% dos pesquisados.

O quadro de conhecimento profundo sobre os direitos de diagnósticos de doenças e acesso ao tratamento não ultrapassam a metade dos usuários. Apenas 49% tem noção do acesso universal à saúde no SUS. 40% conhecem a disponibilidade de medicamentos básicos gratuitos. O índice cai para 35% de reconhecimento sobre direito a medicamentos gratuitos de doenças consideradas estratégicas pelo governo. Já sobre medicamentos oncológicos orais listados pelo SUS, o índice decresce para 34% das pessoas e 27% sobre medicamentos específicos de alta complexidade.

Caso o governo e suas instituições não ofereçam o tratamento médico no tempo adequado, apenas somente 24% conhecem poder ter acesso a alternativas. E apenas 22% mostraram conhecimento de que os pacientes oncológicos têm direito a realização de exames dentro de um prazo de 60 dias.

Muito ainda está desinformado o povo brasileiro. Muito há que se gestionar para que o SUS passe de um dos maiores para um dos melhores sistemas de saúde.

Nesse projeto gigantesco, tão grande quanto essa imensa Nação, o papel de cada um é de importância vital. Não bastam as boas intenções, com as consequentes desculpas que se repetem há 30 anos. É preciso atitude. Vontade de fazer e fazê-lo bem.

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