Opinião

Medicina cidadã

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A busca de lucro em detrimento da saúde do paciente traz um grande risco para a sociedade

Luiz Roberto Londres
O Globo – 14/05/2018

Nossa medicina encontra-se numa situação insustentável, principalmente para aqueles menos aquinhoados, justamente os que têm mais necessidade de atendimentos. A medicina é uma atividade de cunho eminentemente social e humanístico, e vemos que ela não está conseguindo atingir esses objetivos.

Hospitais e outros serviços médicos se deteriorando e mesmo muitos deles fechando unidades ou integralmente as suas portas. Nos que restam, as filas intermináveis proliferam. Lembro sempre que, quando me formei em medicina, os melhores hospitais de nossa cidade eram os públicos: Souza Aguiar, Miguel Couto, Lagoa, Ipanema, Andaraí, entre outros, e principalmente o Hospital dos Servidores do Estado, para onde vinham os presidentes da República.

O descaso ou a incompetência dos responsáveis pelos serviços são o principal motivo desta situação. Além disso, dois outros fatores que chamaria de dolosos contribuem para essa profunda distorção social: o desvio de recursos que deveriam ser destinados à saúde e são despejados em outros setores que, por vezes, nada têm de benefício público e o conluio de alguns desses responsáveis com áreas que cercam esses atendimentos, como planos de saúde e indústria de medicamentos.

O Sistema Único de Saúde, criado pela Constituição Federal de 1988, a chamada Constituição Cidadã, hoje é visto não como uma necessidade, mas como algo que não funciona. Aceitamos as distorções sem cobrarmos as medidas de nossos governantes e seus prepostos. As reações têm sido consideradas muito mais importantes do que as ações para resolver essa situação. Há até ministros da Saúde que preconizam planos de saúde para os menos afortunados com cobertura restrita; ou seja, descumprindo o que diz o artigo 196 da Constituição: “A saúde é direito de todos e dever do Estado”.

O uso da saúde suplementar deveria ser uma opção, e nunca uma necessidade. Quem quiser mais conforto ou acesso a médicos e serviços ambulatoriais e hospitalares específicos faria, por esse motivo, uso dos planos. Mas a saúde como um todo, sendo uma atividade de cunho social e humanitário, não é uma área que privilegie os mais bem dotados. Serviços públicos e, ao seu lado, os serviços beneficentes são o centro desejável para esse atendimento.

A busca de lucro em detrimento da saúde do paciente traz um grande risco para a sociedade. Como dizia Edmund Pellegrino, o grande filósofo da medicina: “Os cânones financeiros costumam ser incompatíveis com os cânones éticos”. E o benefício de poucos, numa área como a medicina, não pode ser à custa do benefício da sociedade em seu todo.

É muito importante que a população tome conhecimento desses princípios, pois terá uma voz mais forte na cobrança das medidas a serem tomadas pelos servidores públicos que são os responsáveis pelas diversas áreas da saúde.

Luiz Roberto Londres é médico e presidente do Instituto de Medicina e Cidadania

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