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Incidência de tuberculose no Rio de Janeiro ainda é considerada altíssima, alerta especialista

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Por Fernanda Machado (estagiária)*

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estabeleceu 24 de março como o dia oficial de combate à tuberculose. A data enfatiza a urgência de cumprir os compromissos assumidos a nível global de: acesso à prevenção e tratamento, investimentos em pesquisas e em campanhas de conscientização sobre os riscos da doença.

O Observatório da Saúde entrevistou a Dra. Ana Alice Teixeira, Coordenadora do Programa de Tuberculose da Secretaria de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, que abordou a situação da tuberculose no Estado.

De acordo com a médica, acreditava-se que, com o desenvolvimento de medicamentos e tratamentos, a doença seria erradicada do território nacional, o que não aconteceu. O Rio de Janeiro, junto com o Amazonas, é o estado com maior incidência de tuberculose. De 2015 para cá, os casos aumentaram na maioria dos municípios fluminenses, principalmente na capital e em Japeri.

O motivo, segundo a Dra. Ana Alice, são as condições socioeconômicas precárias. A maioria das pessoas afetadas vive aglomerada em áreas menos favorecidas e possuem nível de escolaridade baixo, numa faixa etária jovem adulta (até 40 anos). “A tuberculose é uma doença de transmissão respiratória, então, o contato direto e constante com muitas pessoas, em ambientes pequenos, com má ventilação, ajuda o bacilo a se disseminar. Claramente, as maiores incidências da doença estão nas favelas, porque as casas são construídas muito próximas uma das outras, de forma totalmente irregular. É muito importante que os ambientes sejam arejados e que recebam a luz do sol, pois o bacilo responsável pela tuberculose não sobrevive em ambientes onde há incidência de raios solares”, informou a especialista.

Além dessa parcela da população, existem outras que também são muito atingidas: a população de rua e a população prisional. De acordo com Dra. Ana Alice, nas cadeias, o número de casos era de 850 em 2015. Em 2019, esse número chegou a, aproximadamente, 2.000 casos. A população privada de liberdade dentro do Estado, atualmente, é de cerca de 52 mil pessoas. A grande aglomeração de presos dividindo as celas facilita o contágio de doenças, principalmente aquelas respiratórias, como a tuberculose.

O Rio de Janeiro apresentou na última pesquisa 73 casos por 100 mil habitantes, em média, o que é um número bastante alarmante, considerado uma incidência altíssima. Segundo os números apresentados pela Dra. Ana Alice, a situação piora se considerarmos as periferias e comunidades. Em locais como a Rocinha e a Baixada Fluminense, esse número chega de 300 a 400 casos por 100 mil. “Para se ter uma ideia, anualmente, notificamos mais de 15 mil casos de tuberculose dentro do Estado. A maioria são casos novos e cerca de 2.000 são casos de retratamento, ou seja, pessoas que já tiveram a doença ou que retomaram o tratamento após abandono”, declarou a médica.

No município do Rio de Janeiro toda a atenção básica atende esses casos e acompanha. Na Baixada Fluminense, ainda se tem muita centralização de atendimentos em postos de saúde de referência para que essas pessoas sejam atendidas. As recomendações, para Dra. Ana Alice, deveriam ser as de descentralizar as ações para todas as unidades de saúde, isto é, todas elas deviam fazer a captação de sintomáticos respiratórios. O município do Rio já faz isso, mas de forma insatisfatória, segundo ela. “O governo está diminuindo as unidades de saúde e as equipes de estratégia da saúde da família. Isso é péssimo. Nós estávamos caminhando para um bom modelo de cobertura de atenção básica, e agora estamos retrocedendo”, enfatizou.

Ainda de acordo com a médica, o ideal seria que as equipes de saúde aumentassem e atendessem, assim, menos pessoas cada uma. Atualmente, cada equipe atende de 3.000 a 3.500 pacientes, o que, na atual conjuntura, certamente vai aumentar.

Outro problema enfrentado é o fato de que a maioria das unidades de saúde funciona em horário comercial, ou seja, no mesmo horário em que a maior parte da população está trabalhando. Por isso, as pessoas adiam ir ao médico e acabam procurando uma emergência quando os sintomas já evoluíram e a doença já pode estar em situação mais grave.

Em relação ao tratamento, Dra. Ana Alice enfatizou a importância de realizar o chamado Tratamento Diretamente Observado, uma estratégia específica, aprovada pela Organização Mundial de Saúde, para melhorar a adesão dos pacientes ao recurso terapêutico. Isso precisa ser aplicado porque, atualmente, há uma alta taxa de abandono. Para mudar esse quadro, é necessário acompanhar os pacientes bem de perto, para que qualquer dificuldade apresentada possa ser orientada pelo serviço de saúde.

Existem vários fatores que fazem os pacientes abandonarem o tratamento. Um deles é a maneira como eles são acolhidos. Para Dra. Ana Alice, é essencial conversar bastante durante a consulta e entender a situação daquela pessoa. “Não pode ser rápido e superficial. É preciso usar o que a atenção básica chama de Projeto Terapêutico Singular. Isso significa passar a enxergar o paciente em toda a sua integralidade, com todos os seus problemas de vida”, declarou. “Quando se fala em projeto terapêutico singular, a pessoa com tuberculose precisa ser vista com todas as suas particularidades. De repente, ela faz uso de algum remédio que entra em atrito com a medicação de tuberculose, ou é usuária de drogas ou de bebida alcoólica. São coisas que só se descobre conversando com o paciente, fazendo com que ele se sinta seguro e abraçado”, completou.

Sobre a resistência às drogas, a Coordenadora da Secretaria de Saúde declarou que um terço dos casos pertence ao Estado do Rio de Janeiro e o principal motivo é justamente o abandono do tratamento. Muitos pacientes começam a se tratar nas unidades de saúde e ficam abandonando e retomando com frequência, o que torna o tratamento irregular e a doença mais resistente. Isso propicia que haja um aumento da resistência às drogas.

“Nós temos hoje um número grande de casos resistentes à medicação. Anualmente, mais de 200 casos notificados no Estado apresentam resistência às drogas. A cura nessas situações demora 1 ano e meio, e esses pacientes, considerados mais graves por apresentar resistência aos remédios, podem transmitir o bacilo mais forte para outras pessoas de sua comunidade”, informou a médica. Por isso, é tão importante promover ações que evitem o abandono do tratamento.

Quanto à incidência da doença no Rio de Janeiro, fica o alerta: muitas pessoas ainda morrem de tuberculose no Estado. Atualmente, a taxa de mortalidade está em 4.3 por 100 mil habitantes (representa cerca de 739 óbitos anualmente). Esse é um número muito alto para uma doença que tem tratamento e cura.

De acordo com a Dra. Ana Alice, cerca de 40% desses casos só obtiveram diagnóstico quando já estavam praticamente em óbito. “Eles não se encontram notificados, ou seja, não se sabia que o paciente tinha tuberculose até que ele procurasse uma emergência, já em quase óbito ou em situação muito grave”, informou.

Quando perguntada sobre a incidência da doença a nível nacional, a médica declarou que o número da tuberculose no Brasil é a metade do número do Rio de Janeiro (35 casos por 100 mil). O número de óbitos gira em torno de 4.500.

A situação do Rio de Janeiro no cenário mundial da tuberculose é muito preocupante e medidas precisam ser tomadas urgentemente. Segundo dados da Secretaria de Saúde do Estado, cedidos pela Dra. Ana Alice, em 2015, existiam menos de 14 mil casos e, hoje, estão registrados um pouco mais de 15 mil.

É preciso investir em melhorias sanitárias e habitacionais, para que a maior parte da população tenha acesso à moradia em local arejado e espaçoso. Dessa forma, a incidência da doença vai diminuir. Enquanto isso não acontece, é necessário focar no mapeamento de sintomáticos e no tratamento deles, além de promover a ideia de que atendimentos deixem de ser feitos apenas em dias úteis, em horário comercial. A saúde não pode funcionar dessa forma.

*Sob a supervisão de Juliana Temporal

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