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Impactos da desigualdade social na saúde dos brasileiros

Pesquisas comprovam que problemas de saúde são predominantes em populações menos favorecidas, e que não dá para cuidar da saúde sem tratar da desigualdade.

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Por Maylaine Nierg
redacao@observatoriodesauderj.com.br

A busca por um estilo de vida saudável é algo cada vez mais idealizado por pessoas no mundo inteiro. Na Brasil, essa filosofia também tem se instaurado, aos poucos, exceto pelo fato de que ainda existem milhões de pessoas que não conseguem pensar em qualidade de vida, porque ainda precisam lutar para sobreviver.

De acordo com dados recentes do IBGE, 52 milhões de brasileiros vivem abaixo da linha da pobreza. Entre esses, cerca de 14 milhões vivem em pobreza extrema. Pesquisas mostram que tal realidade exerce impacto direto na saúde dessa camada da população.
Segundo especialistas, os inúmeros brasileiros inseridos nesse quadro têm como principal meta o alcance de condições de vida dignas. O que inclui moradia e alimentação adequadas, além de melhor acesso aos serviços públicos de modo geral. Nesse cenário, os cuidados com a saúde costumam se resumir ao tratamento de doenças e não a prevenção delas.

“Não podemos falar de prevenção em saúde desconsiderando o fato de que a desigualdade social do país, por si só, já é um grave problema de saúde pública”, destaca o cardiologista e pesquisador Nelson Souza e Silva.

Nelson é um dos autores da pesquisa “Evolução da Mortalidade por Doenças do Aparelho Circulatório nos Municípios do Estado do Rio de Janeiro, de 1979 a 2010”. O estudo apresenta um levantamento das principais causas de morte por essas doenças no estado do Rio de Janeiro.

A pesquisa apontou a desigualdade econômica como fator determinante para o surgimento de tais doenças. Contatou-se que bairros do Rio com os piores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), apresentam mortalidade por doenças cardiovasculares dez vezes maior do que aqueles com os melhores índices, como os da Zona Sul, por exemplo.

“Pessoas submetidas a longas jornadas de trabalho, com uma remuneração abaixo do necessário, e que passam longos períodos em transportes públicos, por exemplo, terão maior dificuldade de praticar atividades físicas e cuidar da alimentação. Esses aspectos devem servir como base das estratégias do Governo para a saúde. O cenário precisa ser analisado como um todo” enfatiza o médico.

Trazendo para a realidade

Aos 58 anos, moradora do bairro de Campo Grande – Zona Oeste do Rio, e com problemas de saúde como hipertensão e risco de diabetes, Maria José sente na pele como é ter que cuidar da saúde, sem todos os recursos necessários.

Vendedora autônoma e sem previsão de aposentadoria, ela reconhece que precisa fazer a sua parte para ter uma vida mais saudável, mas diz que a preocupação com aluguel, luz e água, contribui para o aumento do estresse, comprometendo ainda mais sua saúde.

Maria desabafa que não dá para falar em saúde de forma isolada: “como cidadã, eu entendo que saúde inclui melhores salários, menos corrupção, mais igualdade socioeconômica e melhoria dos serviços públicos como um todo”.

A lógica da desigualdade social em saúde

No livro “Como e por que as Desigualdades sociais fazem mal a Saúde”, da editora Fiocruz, a médica e especialista em Medicina Preventiva Rita Barata aponta algumas teorias para o alto índice de mortalidade entre populações mais carentes. Uma delas é a teoria estruturalista ou materialista, onde a autora assinala que “a falta ou insuficiência dos recursos materiais para enfrentar de modo adequado os estressores ao longo da vida acaba por produzir a doença e diminuir a saúde”.

Barata ressalta que, embora a teoria mereça algumas ressalvas, ela se comprova numa comparação de PIB entre países do mundo.

“Esta situação pode ser exemplificada pela comparação entre a esperança de vida ao nascer e o Produto Interno Bruto (PIB) per capita dos países. As duas variáveis são diretamente correlacionadas e esta relação é forte. Por exemplo, a esperança de vida na Suécia, país que têm um PIB per capita de 42 mil dólares, é de 80 anos, en¬quanto em Angola, cujo PIB per capita é de 2.800 dólares, a es¬perança de vida ao nascer é de 40 anos”.

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