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Exercício no lugar de remédio

Nova diretriz da Academia Americana de Neurologia recomenda apenas atividade física na abordagem do problema

Cesar Baima

O Globo – 28/12/2017

A prática de exercícios regulares é uma maneira bem conhecida, e provada, de manter a saúde física, em especial a cardiovascular. O que pouca gente lembra é que ela também é uma importante estratégia para a manutenção da saúde mental. E é de olho nos benefícios da atividade física para o cérebro que a Academia Americana de Neurologia publicou ontem uma atualização de suas diretrizes na qual recomenda a prescrição de exercícios no lugar de remédios para o tratamento do chamado comprometimento cognitivo leve (CCL), geralmente associado ao envelhecimento.

Corpo e mente. Idoso faz exercícios em equipamentos instalados na Praça do Lido, em Copacabana: prática ajuda a proteger não só o coração, mas também o cérebro e suas funções

O CCL abrange uma ampla gama de condições caracterizadas por problemas de memória, expressão, pensamento ou na tomada de decisões que vão além dos naturalmente esperados com a idade, mas que não atrapalham significativamente o dia a dia dos indivíduos, e não estão relacionados com outras doenças que também podem afetar a cognição, como desordens metabólicas, vasculares, sistêmicas ou psiquiátricas, sendo por isso chamado de “idiopático” (sem causa conhecida). E apesar de muitas vezes se manter estável ou até ser revertido com o tempo, o CCL também pode ser um dos primeiros sinais de males neurodegenerativos mais graves, como o Alzheimer. AÇÃO CONTRA ALZHEIMER Segundo Ronald Petersen, diretor do Centro de Pesquisas do Mal de Alzheimer da Clínica Mayo, nos EUA, e líder do comitê responsável pela elaboração das novas diretrizes da Academia Americana de Neurologia, são justamente a relação do CCL com o maior risco de desenvolvimento de algum tipo de demência mais séria e a falta de tratamentos medicamentosos comprovadamente eficazes contra a condição que fazem da nova recomendação uma alteração fundamental na sua abordagem clínica.

— O comprometimento cognitivo leve pode ser provocado por uma variedade de fatores, muitos deles reversíveis ou controláveis, como diabetes ou problemas vasculares no cérebro — explicou Petersen, em entrevista ao GLOBO. — Mas ele também pode ser um sinal de alerta para outras demências, como o mal de Alzheimer. Então, se um paciente tem histórico familiar ou predisposição genética para o Alzheimer, a nova recomendação é ainda mais importante e benéfica, pois ela inclui, com impactos positivos, essas pessoas sob maior risco de desenvolvimento de demência. Isso porque os exercícios não podem evitar o surgimento do Alzheimer, mas podem adiar seu desenvolvimento. Assim, uma pessoa que estava fadada a ter sua vida comprometida pela demência aos 70 anos pode só começar a ter problemas cognitivos que afetam seu dia a dia aos 75, 76 ou mais anos, por exemplo.

Para chegar à nova recomendação para tratamento do CCL — que atualiza diretrizes estabelecidas em 2001 pela Academia Americana de Neurologia —, Petersen e os demais integrantes do comitê revisaram mais de 11 mil estudos publicados nos últimos anos sobre o tema. Filtrando por critérios como relevância, metodologia e escopo, eles chegaram a algumas dezenas de pesquisas que revelaram a ineficácia ou ausência de benefícios significativos de diversas estratégias farmacológicas contra a condição. Ao mesmo tempo, encontraram experimentos que mostraram a possibilidade de frear ou mesmo reverter seu avanço com a atividade física.

Embora a nova recomendação baseada nestas evidências se limite à prescrição de “exercícios regulares duas vezes por semana”, Petersen foi além na definição e uso da estratégia na conversa com o GLOBO. Segundo ele, a atividade deve ser do tipo aeróbica, como uma caminhada a passo rápido, e deve preferencialmente se somar à usual recomendação mínima para proteção cardiovascular, de 150 minutos semanais de exercícios divididos em cinco sessões de 30 minutos ou três de 50 minutos. Isso significa que os idosos que já se exercitam regularmente devem se exercitar mais, desde que tal carga extra seja aceitável pelo médico com quem se consultam regularmente e seu próprio organismo. Já os sedentários ou aqueles que não cumprem a recomendação mínima de exercícios devem se esforçar para se mexer e alcançar tal nível, somando assim os benefícios cardiovasculares e neurológicos da atividade física regular. ABORDAGEM MAIS AMPLA A nova recomendação da Academia Americana de Neurologia foi recebida com elogios pelo cardiologista brasileiro Claudio Gil Araújo, diretor de pesquisas da Clínica de Medicina do Exercício (Clinimex), que defende uma abordagem multifacetada da prática pelos idosos.

— Quando falamos em idosos, temos que pensar nos vários aspectos de sua condição física — explica. — Não é apenas disposição, mas também flexibilidade, força muscular e, fundamentalmente, o equilíbrio, que pode evitar quedas com uma repercussão muito séria na sua saúde geral. E equilíbrio e coordenação estão muito relacionados com aspectos neurológicos.

Petersen concorda com Gil e acrescenta que atividades que combinam exercícios físicos e estímulos mentais, como a dança, são boas estratégias.

— Atividades que forcem o equilíbrio e a coordenação também são compatíveis com esta recomendação para proteção neurológica — recomenda. — O que quer que o idoso queira ou possa fazer de exercício já é bom. Uma atividade aeróbica simples como caminhar já é benéfica deste ponto de vista, mas atividades combinadas, que exigem coordenação e memória, como dançar, são ainda melhores.

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