Opinião

Exames Laboratoriais – necessidade ou desperdício?

WilsonShcolnik_2018-2019
Dr. Wilson Shcolnik
Presidente da Soc. Brasil. de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial

Para médicos, pacientes e seus familiares, um dos momentos mais delicados da assistência à saúde é o da definição diagnóstica. Um diagnóstico correto é o primeiro passo para se definir o tratamento apropriado. Bernard Lown, médico professor emérito da Harvard School of Public Health,  que  desenvolveu  o  desfibrilador  cardíaco,  e  Prêmio  Nobel  da  Paz  (1985),  em  1999 afirmou que a história clínica, em 75% das consultas, fornece informações suficientes para o diagnóstico,   mesmo   antes   da   realização   do   exame   físico   e   da   solicitação   de   exames complementares.

Entretanto, segundo o relatório “Melhorando o Diagnóstico na Assistência à Saúde” (“Improving Diagnosis in Health Care”), publicado pelo Instituto de Medicina norte-americano em 2015, o erro  diagnóstico  ainda  representa  um  aspecto  crítico  da  assistência  à  saúde.  Segundo  essa publicação, adultos norte-americanos serão vítimas de, ao menos, um erro diagnóstico ao longo de  sua  vida,  algumas  vezes  com  consequências  devastadoras  e  5%  de  adultos  que  buscam assistência ambulatorial experimentarão um erro diagnóstico, a metade com possibilidade de danos. Nos últimos anos o número de queixas por erros diagnósticos contra o sistema de saúde do Reino Unido cresceu 22%. É sabido que diagnósticos tardios de doenças aumentam o risco de  disseminação  e  levam  a  complicações,  tornando  o  tratamento  mais  difícil.  Médicos  que trabalham em condições de pressão podem perder preciosas informações durante a coleta de dados clínicos mas, hoje, já podem dispor de modernos exames complementares que auxiliam na rápida definição de diagnósticos, prognósticos e até tratamentos.

Por  isso  deve  ser  saudada  a  recente  publicação  da  primeira  edição  da  lista  de  exames laboratoriais essenciais, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), onde estão destacados os exames necessários para endereçar prioridades em saúde. A lista, que teve como base diretrizes baseadas em evidências científicas, contém exames que devem estar disponíveis em ambientes de assistência primária à saúde, hospitais e em laboratórios de referência.

Os gastos com exames laboratoriais representam apenas de 1,4% (Alemanha) e 2,3% (Estados Unidos) dos gastos totais do sistema de saúde e estima-se que o laboratório clínico contribua com  cerca de 70%  das informações  utilizadas pelos médicos em suas decisões. Meta-análise realizada  ao  longo  de  15  anos  revelou  maior  prevalência  de  subutilização  (44,8%)  do  que  a superutilização (20%) de exames laboratoriais. Mais que se preocupar com o volume, portanto, deve-se avaliar o valor e os benefícios trazidos pelos exames laboratoriais.

No  momento  atual  em  que  diferentes  exames  laboratoriais já  são  oferecidos  livremente  em várias redes de farmácias brasileiras, sem a devida regulação, cabe considerar o alerta da OMS em relação a realização de exames: “isoladamente eles não trarão os impactos desejados, sendo necessário  que  o  laboratório  clínico  que  os  realiza  seja  dotado  de  infraestrutura  suficiente, mostre-se integrado, conectado, tenha recursos humanos treinados e capacitados e sistemas de garantia  de  qualidade  implantados”.  No  Brasil,  o  programa  de  acreditação  de  laboratórios clínicos (PALC), lançado pela Sociedade Brasileira de Patologia Clínica/Medicina Laboratorial em

1998  e  já  reconhecido  pela  Agência  Nacional  de  Saúde  (ANS),  há  anos  já  avalia  a  qualidade oferecida pelos laboratórios clínicos brasileiros, contribuindo  para assegurar a confiabilidade dos seus resultados e a segurança dos pacientes.

2 comentários em "Exames Laboratoriais – necessidade ou desperdício?"

  1. Isis Breves disse:

    Excelente conteúdo! Vou compartilhar nas redes de

  2. Isis Breves disse:

    Essa matéria trata de um assunto bem discutido mundialmente sobre o que realmente é necessário o paciente ser submetido, é um movimento chamado Choosing Wisely com braços em diversos países inclusive no Brasil liderado pelas sociedades de especialidades que publicam suas listas de recomendações

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