Dr. Sebastião Amoêdo

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Por Prof. Sebastião Amoêdo

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Professor Sebastião Amoêdo
Conselho de Minerva

Este Observatório foi criado para colaborar com o ideal de atenção à Saúde de acordo com o que exige a Constituição da República.

Temos procurado evidenciar os bons serviços prestados à população, na esperança que esses exemplos sirvam como inspiração para um sem número de profissionais, a grande maioria dedicadíssimos em bem servir, não raro lutando contra obstáculos por vezes instransponíveis, como a falta de material que lhes assegure um bom trabalho.

Ao longo dessa atuação temos obtido eventuais depoimentos, agradecidos com o bom atendimento e excelência de tratamento, recebidos por equipes do SUS.

Mas a amargura do filho da Sra. Irene Bento, de 54 anos, documentadamente rejeitada no Hospital Getúlio Vargas, corta qualquer coração. Suas lágrimas frente às câmeras se juntam a muitas outras, a esmagadora maioria já secas pela desatenção.

As unidades de saúde, todas, dependem de muitos recursos, muito além dos financeiros. O dinheiro tudo paga, mas não compra sensibilidade ou humanismo.

Aqui no Observatório da Saúde temos alertas sobre a importância dessa humanidade, carinho, atenção, ou ética, que parece estar rareando na medicina contemporânea, escandalizando antigos médicos e demais profissionais de saúde. Para onde foram os antigos ideais? Quem aboliu os ensinamentos de Hipócrates?

Voltando às unidades de saúde, precisamos ter em conta os custos financeiros de sua constituição, aí compreendendo o imóvel devidamente habilitado com móveis, equipamentos e sistemas necessários, além daqueles insumos imprescindíveis, a maioria composta por materiais de consumo descartáveis.

Mas há um valor maior. Por vezes raro, porém imprescindível: São os Recursos Humanos.

Toda unidade de saúde, da baixa à alta complexidade, carece de gente. Profissionais de diferentes níveis de formação técnica e de alta competência moral. A moralidade que se instaura no respeito àquele que lhe está próximo, na dedicação à preservação da vida, no senso de humanidade como pressuposto que nos diferencia entre os demais seres da criação.

Lamentavelmente nem sempre os processos de recrutamento e seleção dos Recursos Humanos para Saúde atingem o ideário de alocar pessoas certas no lugar certo, ocasionando desvios lamentáveis como o documentado pelo filho, que agora se culpa ao se julgar incapaz de ter atendido à necessidade de sua querida mãe. Empenho não lhe faltou, e a gravação efetuada prova o quanto lutou.

É triste constatar que por mais que se gastem recursos financeiros com a formação de profissionais dedicados, sempre haverá o desafio maior de lhes conferir os mais nobres atributos humanos, como a empatia, que instaura o sentimento maior conhecido como Amor.

O que se tem comprovado em fatos como esse é a graduação de pessoas não vocacionadas para os cursos de que são egressos. A gravidade dessa ocorrência se dá na medida em que a motivação é precedida pela vocação e essas, vocação e motivação motivam a competência e a dedicação.

Ao profissional de saúde é exigido no dia a dia o atendimento ideal e o tratamento irrepreensível.

Atender nem sempre representa corresponder à demanda. Um paciente terminal não necessariamente reverterá seu destino pelo simples fato de procurar um profissional. Mas a esse profissional sempre caberá o bem tratar, com zelo, carinho, ou seja, humanidade.

Don Helder Câmara ensinava que “ninguém é tão pobre que não possa doar e ninguém é tão rico que não possa receber”. Não há nenhuma razão para não atender bem, não se doar, mesmo em condições limítrofes da miséria. Os Médicos Sem Fronteiras que o digam, em seu trabalho, não raro, com risco da própria vida.

O vídeo que foi gravado pelo filho da S.ra Irene Bento é irrefutável. Todos os presentes naquela sala do Hospital Getúlio Vargas, da Senhora Doutora aos demais profissionais de vestes brancas ou cinzas, todos permaneceram insensíveis. Nenhum se levanta para constatar se havia alguma veracidade na versão do reclamante. Nenhum deles manifesta qualquer empatia. Qualquer sensibilidade. Como se a humanidade lhes fosse subtraída no ofício daquele plantão. A priorização para o telefone celular foi arrasadoramente desumana.   

O Estado, será cobrado pela adoção de uma medida exemplar e saneadora. Por certo, aquela família enlutada haverá de questionar judicialmente o poder público e exigir uma reparação. Se esta advir será mais um ônus financeiro sobre a sociedade, motivada pela irresponsabilidade de alguns. Todos haveremos de pagar por mais esse descaso, como se todos já não fossemos vítimas de altos impostos para serviços que deixam a desejar.

Faltou atenção, respeito, carinho, empatia, humanidade, ética. Faltou tudo. Talvez a vocação daquela equipe seja outra que não os serviços de saúde.

Que tal irem trabalhar num abatedouro de gado? 

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