Isis Breves

Saúde Coletiva

Por Isis Breves

Especialista do Vital Brazil fala sobre o aumento da incidência de acidentes com escorpiões no país

scorpion

Essa semana a Coluna Saúde Coletiva reproduz uma entrevista, a qual eu elaborei para o Portal Pragas & Eventos, mas que achei pertinente publicada nesse espaço também. A alta incidência de acidentes com escorpiões vêm aumentando no Brasil. As notícias não param com relatos de casos de picadas do animal. Uma recente matéria contou um caso de picada de escorpião dentro de uma sala de cinema em São Paulo.

Segundo dados do Ministério da Saúde (MS), em 2017, foram registrados 124.077 acidentes com escorpiões no país e 143 mortes. As regiões nordeste e sudeste apresentaram os maiores números de casos, 56.074 e 54.488, respectivamente. Para falar sobre o aumento da incidência de acidentes com escorpiões, entrevistamos o especialista do Instituto Vital Brazil, Dr. Claudio Maurício Vieira de Souza, biólogo, doutor em Ciências pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Mestre em Patologia Experimental pela Universidade Federal Fluminense (UFF), especialista em Biologia de Serpentes, Aranhas e Escorpiões pelo Instituto Butantan. Claudio Maurício foi Diretor Científico do Instituto Vital Brazil e atualmente é Responsável Técnico do Laboratório de Análises Clínicas desta instituição.

O Instituto Vital Brazil está situado em Niterói no estado do RJ, é do Governo do Estado do RJ e referência do MS como um dos fornecedores de soros contra o veneno de animais peçonhentos e produtor de medicamentos para uso humano. Confira a entrevista:

Segundo estudos da consultoria PHFoco baseados nos dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – SINAN do Ministério da Saúde, no ano de 2000 o Brasil notificou menos de 20 mil casos de acidentes com escorpiões. As notificações ao longo dos anos só aumentaram e, em 2018, o registro foi de 156 mil casos de acidentes com escorpiões. Como especialista, o que você poderia citar como causa do aumento e alta de incidência?

Dr. Claudio Maurício – “O fenômeno do escorpionismo no Brasil não encontra paralelo em outras partes do mundo. Acreditamos que tenha uma base multifatorial, pois envolve questões biológicas, relativas às características das espécies mais perigosas e sua alta competência em proliferar em ambientes perturbados pelo homem. Há também forte influência dos modelos de ocupação do solo e crescimento dos aglomerados urbanos, que criam condições para a multiplicação de microambientes que favorecem a biologia, dispersão e proliferação dos escorpiões, ao mesmo tempo em que criam barreiras ou mitigam os fatores naturais que regulariam o crescimento populacional desses artrópodos, como a ausência de predadores naturais e inibição do canibalismo, pela farta oferta de alimento sob a forma dos insetos domésticos. Nesse complexo de fatores também participam os hábitos e costumes da população, e questões da organização dos sistemas de vigilância e atenção aos acidentados. Não é um problema trivial de simples ou rápida solução”.

As secretarias municipais de saúde atuam com ações de prevenção por meio de agentes comunitários de saúde e de endemias, orientando sobre o manejo ambiental. Quais as ações de prevenção no controle dos escorpiões são recomendadas?

Dr. Claudio Maurício- “As estratégias correntes de enfrentamento do escorpionismo se baseiam em um modelo que, na verdade, foi desenhado em meados do século XX. Essas ações normalmente se iniciam pelo mapeamento da ocorrência de escorpiões (utilizando denúncias da população, coleta de exemplares e ocorrência de acidentes), então são realizadas vistorias, utilizando um checklist para identificação dos microambientes e condições favoráveis aos escorpiões (aplicando o princípios dos 4As) e, em paralelo,  são implementadas estratégias de comunicação e educação ambiental sobre os fatores de risco para os acidentes e conduta para socorro aos acidentados. São incentivadas ações de correção ambiental e limpeza e, em alguns casos, são realizadas coletas sistemáticas de escorpiões, que devem ser encaminhados a centros de pesquisa e laboratórios produtores de soro, como o Instituto Vital Brazil”.

Apesar da recomendação do Ministério da Saúde de não usar veneno no controle do escorpião, há municípios no país como a cidade de Votuporanga, Estado de São Paulo, que estão utilizando veneno para combater a praga. Poderia explicar por que o MS não recomenda o controle químico de escorpiões e quais os riscos de se descumprir essa recomendação?

Dr. Claudio Maurício – “A postura do Grupo de Trabalho responsável pelo programa de controle de escorpiões do Ministério da Saúde se baseia no princípio da precaução. Embora existam várias evidências experimentais e relatos de diversos técnicos de programas municipais e de profissionais do segmento de controle de pragas sobre a segurança e eficiência do uso de ferramentas químicas no controle de escorpiões, essa informação está ainda muito fragmentada e precisa ser consolidada. Outro ponto é que existem muito poucos trabalhos científicos seguros, com metodologia validada, que permitam um maior nível de informações técnico-científicas que são necessárias para avançar nessa discussão. E, infelizmente, também ocorrem, como sabemos no controle de quaisquer pragas, experiências ruins pela má escolha e aplicação de produtos, não observação das recomendações dos fabricantes, pouca atenção às normas de segurança, e, principalmente, não considerar o controle de escorpiões dentro de um amplo programa de MIP. Nesse sentido, são muito bem-vindos os alertas e inciativas das lideranças e associações dos controles de pragas para maior profissionalização do setor, capacitação e qualificação permanente dos RTs nesse tema. Os principais riscos da utilização de produtos químicos estão relacionados ao eventual efeito irritante que alguns produtos podem apresentar, o que pode induzir desalojamento, estresse e dispersão das populações de escorpiões, aumentando o risco de acidentes”.

 

Poderia falar para finalizar, como especialista do Instituto Vital Brazil, quais são os programas/projetos da instituição desenvolve na contribuição para a saúde pública no combate aos escorpiões?

Dr. Claudio Maurício– “Nossas linhas de pesquisa e projetos acerca de vigilância e controle de escorpiões em ambientes urbanos abrangem um amplo leque de abordagens. Primeiramente, temos interesse em entender como o modo de vida das pessoas cria interações facilitadoras para o escorpionismo, e como intervir nessa relação. Outro ponto central para nosso grupo de pesquisas é identificar os indicadores socioeconômicos e ambientais críticos para a produção de informações relevantes para uma proposta de reforma de nosso modelo de vigilância e atenção. Para avaliação e desenvolvimento de ferramentas de impacto na população desses animais estamos envolvidos na comparação de segurança e eficiência de produtos químicos derivados dos princípios ativos registrados, em diferentes formulações e aplicados por metodologias variadas sob diferentes condições, além do desenvolvimento de pesticidas para controle biológico de escorpiões e aranhas, com menor impacto ambiental e menos risco para a saúde humana e dos animais de estimação. E principalmente, estamos reunindo condições e parcerias para realização de um amplo teste de campo para avaliar essas ferramentas, afim de avançar com mais segurança nesse importante tema de saúde pública”.

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