Opinião

Eleição no Cremesp vira palco de guerra de fake news entre médicos

Ataques marcam pleito para conselho médico paulista que tem orçamento de R$ 100 milhões

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Estetoscópio, instrumento básico na medicina; médicos de São Paulo travam guerra virtual em processo eleitoral para a nova diretoria do Cremesp – Daniel Marenco/Folhapress
Folha de São Paulo – 24/07/18

Em tempos de pós-verdade e de tantas fake news no mundo virtual nem mesmo profissionais que deveriam se pautar por uma conduta ética têm conseguido fazê-lo.

Falo do processo eleitoral do Cremesp (Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo), que definirá a direção do conselho para os próximos cinco anos. Nas últimas semanas, o pleito se transformou em um palco de baixarias, agressividade, calúnias e notícias falsas.

São seis chapas, das quais três com mais chances de vitória. As eleições acontecem entre os dias 7 e 9 de agosto. O que está em jogo? O comando de uma autarquia federal com orçamento anual de cerca de R$ 100 milhões.

Cada um dos 42 conselheiros pode receber até R$ 15 mil mensais, a depender do número de atividades que desempenha dentro do conselho. O Cremesp tem quase 140 mil médicos cadastrados, o que representa quase um terço dos profissionais atuantes no país.
Ainda não está claro quais grupos estão promovendo os ataques com mensagens apócrifas divulgadas em redes sociais e mensagens de WhatsApp, tentando desqualificar uma ou outra chapa. Duas delas estão sendo alvo da maioria dos ataques.

“São mensagens covardes, anônimas, com montagens de vídeos. Algumas usam imagens antigas e fora de contexto [como uma foto da década de 80 em que um médico aparece com a estrela no PT no peito] para nos chamar de chapa de esquerda. Também há propostas falsas como sendo nossas e manifestações racistas. Uma baixaria”, diz o infectologista Caio Rosenthal, que concorre pela chapa 1.

“Jamais imaginei que para a eleição de um conselho de ética eu veria tantas coisas absurdas. São vídeos com fake news, médicos atacando outros médicos de postura ilibada, ataques racistas e misóginos. É muito triste imaginar que essas pessoas estão concorrendo a uma vaga para julgar outros médicos e para defender a população”, declarou a neurocirurgiã Diana Lara, da chapa 2, em post no Facebook.

Diana, única mulher negra entre 240 candidatos, foi vítima de um desses ataques. Após declarar que vai combater o preconceito racial contra médicos e contra a população negra e defender que situações de racismo sejam julgadas pelo Cremesp, um “colega” compartilhou sua proposta em um grupo fechado do Facebook.

A Rádio Nacional (que pertence à EBC, Empresa Brasil de Comunicação) teve acesso a esse grupo. No post, o médico coloca a palavra racismo entre aspas e diz que a proposta de Diana leva a luta de classes para dentro do Cremesp. Entre os médicos que comentaram o post, um classificou o debate sobre o racismo de “frescura” e uma médica chamou de “vermes” os que defendem a proposta. Diana preferiu não se manifestar sobre isso.

O psiquiatra Cleber Firmino, também negro e que sofreu ataques por ter estudado medicina em Cuba, falou à rádio sobre o racismo na área: “Quando a gente fala que a medicina é branca, isso está incorporado tanto nos pacientes quanto nos outros médicos. Então, se eu pedir pra você fechar os olhos e imaginar um médico, ele não tem a minha cara. Isso faz com que eu sofra vários constrangimentos tanto por parte de pacientes quanto de outros colegas que não me veem como médico”, disse ele, da chapa 1.

Nesse ambiente tóxico de difamações e discriminações que envolvem a eleição do Cremesp, não são apenas os médicos que perdem. Também perdemos nós, pacientes, que, diante da má prática profissional, precisamos contar com profissionais éticos, justos e humanos atuando em nossa defesa.

Cláudia Collucci
Jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.

Um comentário em "Eleição no Cremesp vira palco de guerra de fake news entre médicos"

  1. Marcio Meirelles disse:

    Quando, numa sociedade democrática, pessoas se perpetuam nos cargos por um quarto de século, alguma coisa deve estar errada. O sistema de chapas é ótimo para disputas de poder. Para escolha dos membros de um Conselhos de Ética, talvez seja um contrassenso. Seria, quem sabe, melhor, se cada eleitor simplesmente votasse naqueles que, de uma lista, lhe pareçam mais aptos para essa difícil tarefa. A se pconsiderar.

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