Opinião

É preciso reconhecer a situação de emergência na saúde

A prefeitura tem contingenciado recursos, o que é normal em tempos de queda na arrecadação. Mas, por isso mesmo, é preciso estabelecer prioridades

POR EDITORIAL – O Globo

Jordenis Benicio de Sousa, de 63 anos, morreu na madrugada de 20 de novembro, depois de peregrinar durante cinco dias por hospitais municipais sem conseguir atendimento adequado. Ele havia caído de uma escada, quando pintava uma parede, no dia 15 de novembro. Com fortes dores, procurou a UPA de Sepetiba; o Hospital Pedro II, em Santa Cruz; o Albert Schweitzer, em Realengo; voltou ao Pedro II e encerrou sua via crucis no Hospital Salgado Filho, no Méier, onde morreu vítima de hemorragia digestiva. O caso, em investigação pelo Conselho Regional de Medicina (Cremerj) e pela secretaria municipal de Saúde, evidencia a crise aguda por que passa a saúde no Rio.

Anteontem, ao visitar obras do programa Favela Bairro na comunidade de Furquim Mendes, no Jardim América, o prefeito Marcelo Crivella foi interpelado por uma médica de uma clínica da família, que denunciou a falta de medicamentos básicos na unidade. “Tem muita gente aí que não tem R$ 3 para comprar dipirona, e a gente não tem para oferecer”.

Crivella respondeu que não há crise na saúde e que o problema é das Organizações Sociais (OSs) contratadas para gerir unidades do município. “Souza Aguiar não tem crise, Miguel Couto não tem crise. Salgado Filho não tem crise. Não há crise nos nossos grandes hospitais. Mas Rocha Faria, Pedro II e Albert Schweitzer são OSs”, argumentou o prefeito.

Ora, a crise está aí, para quem quiser ver. Unidades de saúde da prefeitura reduziram o número de procedimentos entre 2016 e este ano. A quantidade de exames, por exemplo, caiu quase um terço, despencando de 13,1 milhões para 8,8 milhões. Os dados estão disponíveis no DataSus. Pacientes que penam nas filas sabem que hospitais municipais estão cancelando cirurgias eletivas (que não são de emergência). Uma inspeção da Comissão de Saúde da Câmara no Hospital Salgado Filho, em outubro, constatou a falta de 56 itens, entre insumos e medicamentos. O estoque de agulhas para coletar sangue estava zerado.

Nas unidades básicas, a situação é crítica. No mês passado, o Tribunal de Contas do Município (TCM) pediu esclarecimentos à prefeitura sobre a suspensão de serviços nas clínicas da família devido à falta de repasses às OSs.

É claro que a crise da saúde não se restringe às unidades municipais — ela atinge igualmente hospitais e UPAs estaduais, alguns em situação de calamidade —, mas a condição financeira da prefeitura não é tão dramática quanto a do estado, reconhecidamente falido.

A prefeitura tem contingenciado recursos, o que é normal em tempos de queda na arrecadação. Mas, por isso mesmo, é preciso estabelecer prioridades. E a saúde é uma delas. Na verdade, trata-se de um problema de gestão. Como no caso das OSs. Se há falhas, que sejam corrigidas. Talvez um primeiro passo para resolver a crise na saúde do Rio seja reconhecer que ela existe. O diagnóstico é fundamental para poder tratá-la.

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