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Durante a pandemia, é essencial desenvolver mecanismos para a preservação da saúde mental

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Por Fernanda Machado (estagiária)*

 

Vivemos tempos turbulentos e únicos. Em meio a uma pandemia, os cuidados com a saúde precisam ser redobrados, pois a situação pode afetar, inclusive, nosso psicológico. As incertezas do momento, somadas ao isolamento social, podem acarretar crises de ansiedade, pânico, insegurança e, até mesmo, depressão. Para a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), o primeiro passo para encarar essa fase é trocar o termo isolamento por distanciamento social.

— Não estamos isolados socialmente. Temos diversas formas de estar em contato com nossos familiares e amigos sem precisar do contato físico, podemos abraçar com apenas um olhar em uma chamada de vídeo, por exemplo — afirmou o Dr. Antônio Geraldo da Silva, Presidente da ABP e da Associação Psiquiátrica da América Latina. 

Segundo o médico, existem três possíveis cenários perigosos: no primeiro, pessoas que nunca tiveram sintomas psiquiátricos podem começar a apresentá-los; no segundo, pacientes que já tiveram alta podem apresentar recidiva dos sintomas e voltar ao atendimento; e, por último, pacientes que ainda estão em tratamento podem ter o agravamento de seus sintomas. Por isso, é importante desenvolver mecanismos de preservação da saúde mental, principalmente durante a pandemia. O primeiro deles é, caso esteja em tratamento psiquiátrico, não interrompê-lo. Dr. Antônio Geraldo alerta que somente um psiquiatra poderá orientá-lo a mudar ou parar o processo terapêutico.

— Além disso, cuidar do nosso ritmo circadiano (ciclos físicos, mentais e comportamentais no período de 24 horas sobre o qual o ciclo biológico se baseia) também é fundamental. Estabeleça e mantenha uma boa rotina de sono e alimentação, realize atividades sempre da forma mais adequada e no mesmo horário, faça as refeições sempre à mesa, evitando comer no sofá e dedique sua atenção durante a alimentação — orientou o médico.

Também é benéfico a rotina diária de exercícios físicos em casa, não só para o corpo, mas para o psicológico. Acompanhe vídeos em streamings, redes sociais de centros esportivos ou academias, faça sozinho ou acompanhado, mas não fiquem sem se movimentar. 

Dr. Antônio Geraldo também chamou a atenção para a importância do cultivo de atividades prazerosas, como uma boa leitura ou assistir filmes e séries, hábitos que podem evitar os gatilhos que a pandemia traz aos quadros psiquiátricos.

Se não for possível evitar momentos de crise — sejam eles de nervosismo, pânico ou ansiedade — é importante administrá-los da mesma forma que ocorria antes da pandemia.

— Tenha em mente que é apenas um episódio e que vai passar, mesmo que seja difícil de assimilar no momento. Respire fundo e concentre-se em sua respiração. Alguns pacientes possuem medicações que devem ser administradas no momento da crise. Se esse for o seu caso, use conforme recomendação médica — aconselhou.

O especialista também explicou como deve ser conduzida caso a crise ocorra com alguém próximo.

— A orientação é a de tentar acolher a pessoa, dando-lhe o espaço necessário e respeitando o momento. Coloque-se disponível para ajudar, lembre-a de que a crise é passageira e que logo estará bem. Auxilie no exercício respiratório, contando o tempo, por exemplo. Tente distrair a pessoa e tirar o foco da crise em si, respeitando a individualidade. Algumas pessoas preferem ficar sozinhas, então apenas fale que você está por perto caso precise e respeite-a. Em caso de emergência, entre em contato com o médico ou um serviço de urgência médica — explicou.

Sobre os riscos do distanciamento social para pacientes com transtorno de humor, principalmente com aqueles que sofrem de bipolaridade, o médico afirmou que as orientações são as mesmas: eles devem continuar o tratamento recomendado pelo médico psiquiatra e não interrompê-lo sem sua autorização sob nenhuma hipótese. 

O fluxo frenético de informações durante a pandemia já é considerado pela Organização Mundial da Saúde como uma “infodemia” (uma espécie de epidemia de informação causada pelo excesso de notícias sobre determinado assunto), que serve de gatilho para episódios de ansiedade e paranoia. Para evitá-la, Dr. Antônio Geraldo orienta escolher apenas um período do dia para consumir notícias.

— Escolha um horário: manhã ou noite. Não podemos nos privar completamente de informações, mas consumir notícias durante todo o dia não nos faz bem. Além disso, precisamos ter uma fonte confiável e ter cuidado com as fake news. Não acredite em tudo o que receber por aplicativos de mensagem e, na dúvida, coloque a informação no Google para se certificar — pontuou.

Ainda não sabemos, a longo prazo, quais serão as consequências da pandemia de Covid-19. A Fundação Oswaldo Cruz estima que entre um terço e metade da população exposta a uma epidemia pode vir a sofrer alguma manifestação psicopatológica. Uma delas é o Transtorno do Estresse Pós-Traumático (TEPT).

— Ainda não há uma estimativa do número exato de pessoas, mas sim, o cenário atual é um potencial gatilho para o desenvolvimento de TEPT. Isso foi estudado até mesmo em outras pandemias, como SARS (Síndrome Respiratória Aguda Grave) e MERS (Síndrome Respiratória do Oriente Médio) e a tendência é que se repita com a Covid-19. Um dos grupos mais afetados é o de trabalhadores da linha de frente de combate ao novo coronavírus e aqueles considerados essenciais — enfatizou o psiquiatra.

O grande número de mortes causado pelo novo coronavírus já é considerado uma tragédia e, como toda tragédia, afeta diretamente o psicológico da população de uma forma geral. Para o Dr. Antônio Geraldo, o momento atual possui alguns agravantes. 

— Além do medo de contaminar-se, adoecer e contagiar a família, convivemos também com as incertezas em relação ao futuro. Perguntas como “quando tudo isso vai acabar?”, “como ficará o meu trabalho?”, “será que já tive a doença e não apresentei sintomas?” são alguns dos questionamentos que nos fazemos nesse período. Temos também o fato de que a pandemia é global e democrática: não escolhe pacientes pelo credo, nacionalidade, classe social, cor da pele ou gênero. Está afetando de forma muito similar a todos que passam por ela, gerando uma sensação geral de incerteza e medo — assinalou.

Apesar das previsões feitas por cientistas de que uma pandemia estava por vir, o mundo foi surpreendido pelo novo coronavírus e segue atravessando momentos turbulentos em busca da tão esperada vacina.

 

*Sob a supervisão de Juliana Temporal

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