Opinião

Dra. Fraude denuncia revistas científicas falsas

Por: Gina Kolata
Estadão – 22/04/2017

O pseudônimo da candidata não era exatamente sutil para alguém que conhecesse polonês. A inicial do meio e o sobrenome da autora, Anna O. Szust, significa “fraudadora”. Suas publicações eram falsas, assim como seus títulos. Os capítulos do livro que ela listou entre suas publicações não puderam ser encontrados, mas talvez esta não tenha sido uma surpresa, porque a editora do livro também era falsa.

Entretanto, quando Dra. Fraude se candidatou ao cargo de editora em 360 revistas acadêmicas de acesso aberto, 48 a aceitaram e quatro a nomearam editora-chefe. Ela recebeu duas propostas para lançar uma nova revista com o cargo de editora-chefe. Uma delas, inclusive, enviou-lhe um e-mail, que dizia: “É com prazer que incluímos seu nome como editora-chefe de nossa revista sem qualquer responsabilidade”.

Mal sabiam que estavam sendo vítimas de uma armação, montada por pesquisadores que queriam chamar a atenção e documentar o lado sórdido das publicações de acesso aberto. Embora este tipo de revista tivesse começado com a aspiração honesta de tornar os trabalhos científicos disponíveis a todos, sua proliferação teve consequências indesejadas.

As revistas tradicionais são mantidas por assinantes que pagam uma taxa, enquanto os autores não pagam para ser publicados. Os não assinantes só podem ler os trabalhos se pagarem à revista cada vez que desejarem consultá-los.

As revistas de acesso aberto, por sua vez, invertem este modelo. Os autores pagam e os artigos publicados são oferecidos gratuitamente aos leitores.

Publicar em uma revista de acesso aberto pode ser dispendioso — as revistas extremamente conceituadas da Biblioteca Pública de Ciência (PLOS na sigla em inglês) cobram de US$ 1.495 a US$ 2.900, dependendo da publicação que aceitar o trabalho.

Nem todos previram o que aconteceria em seguida, ou até que ponto a coisa chegaria. O modelo de empresa de acesso aberto gerou um mundo nebuloso de publicações predatórias, como foram chamadas. Elas podem ter nomes parecidos com os de revistas legítimas, mas se mantêm publicando praticamente tudo o que lhes enviam mediante pagamento de uma taxa que pode variar de US$ 100 a milhares de dólares.

A taxa frequentemente é de US$ 100 a US$ 400, disse Jeffrey Beall, bibliotecário da área de comunicações acadêmicas da Universidade de Colorado, Denver, porque as revistas competem pelo pagamento dos clientes. Evidentemente, é mais fácil para as revistas predadoras manterem taxas baixas, uma vez que seus gastos são mínimos.

Os pesquisadores decidiram não listar as revistas envolvidas na tramoia, afirmando que algumas têm nomes tão parecidos com os de publicações legítimas que poderiam gerar confusão.

Agora, existem milhares de revistas de acesso aberto, aproximadamente tantas quantas são as legítimas, segundo um dos criadores de Dra. Fraude, Katarzyna Pisanski, pesquisadora da Escola de Psicologia da Universidade de Sussex, na Inglaterra.

Quando os pesquisadores enviam trabalhos para as revistas falsas, “eles são publicados com uma rapidez espantosa, frequentemente sem revisão pelos pares”, ela contou.

Nem todos os que publicam nestas revistas são ingênuos, porém. “Acredito que existam inúmeros pesquisadores e acadêmicos, atualmente empregados, que usaram como parte das próprias credenciais publicações pagas em revistas, de maneira a garantir seus empregos e conseguir promoções”, disse Beall.

Pisanski e seus colegas pesquisadores comunicaram às revistas que aceitaram a Dra. Fraude que ela gostaria de retirar sua candidatura ao cargo de editora. Mas não foi fácil. A Dra. Fraude continua como integrante dos conselhos editoriais de pelo menos 11 destas publicações.

E está inclusive listada como membro do conselho de assessores da Comissão de Indexação das Revistas de Acesso Aberto. Sua missão? “Aumentar a visibilidade e a facilidade do uso de revistas acadêmicas de acesso aberto”.

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