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Dois cafés e a conta com Julia Rangel

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Julia Rangel, responsável pela Rede Postinho – Mauro Ventura / O Globo

Psicóloga fala do posto de saúde que criou em favela com foco no atendimento preventivo e multidisciplinar da mulher

Por Mauro Ventura
O Globo – 25/02/2018

 

Julia Rangel cresceu com uma inquietude. “Eu sabia que não poderia ser feliz se não trabalhasse na área social”, diz essa psicóloga carioca de 35 anos. Ela acredita que esse incômodo foi despertado quando assistiu em 1993, na escola, a uma palestra de Yvone Bezerra de Mello, que criou o projeto Uerê e ajudou as crianças sobreviventes da Chacina da Candelária. Julia pôde pôr em prática sua vocação no último ano de faculdade, quando estagiou no projeto Olha para Mim, voltado para pessoas em situação de rua. Após o programa acabar por falta de verba, ela procurou outras ONGs para colaborar, mas nenhuma “tocou” seu coração. Até que criou, em 21 de abril de 2010, no Morro do Cantagalo, a Rede Postinho de Saúde.

O local atende mulheres a partir de 13 anos das favelas do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho com uma equipe de 42 voluntários de várias especialidades (psicologia, fisioterapia, nutrição, terapia floral, massoterapia, Reiki, meditação, auriculoterapia, mediação de família e coach). Há ainda o clínico geral, homeopata e acupunturista Rodolfo Carnevalli.

-Nossa maior necessidade são médicos, a rotatividade é muito grande – diz ela, que divide o tempo entre a filha Helena, de oito meses, o consultório particular, no Leblon, e o Postinho, que funciona de segunda a sexta.

A ONG já tratou de mais de 1.700 moradores e realizou quase 15 mil atendimentos — com a inauguração em 2017 do segundo andar a média de atendimentos mensais pulou de 320 para mais de 700. O novo espaço, construído com ajuda do Instituto Phi e da BrazilFoundation, abriga a sala multifuncional Leticia Spiller, madrinha do Postinho. Dia 8, Julia lança lá o grupo Saia Empoderada, para meninas de 13 a 18 anos, uma rede de conversa supervisionada por duas coachs para discutir desde empreendedorismo até racismo.

Como surgiu a ideia da Rede Postinho?

Eu queria fazer um trabalho social e, como morava em Ipanema, um amigo me sugeriu ir ao Cantagalo. Apesar de viver perto, eu nunca tinha ido à favela. Subi o morro na cara e na coragem. Procurei o presidente da Associação dos Moradores, Luiz Bezerra, e disse: “Sou psicóloga, recém-formada, quero oferecer atendimento para os moradores uma vez por semana porque sei que no sistema público as consultas são escassas e no particular são caras.” Bezerra disse que eles precisavam de todo tipo de profissional de saúde, e acabei chamando voluntários de outras áreas. O primeiro foi um amigo de infância, o ortopedista Gustavo Magalhães. E vieram uma fisioterapeuta, uma fonoaudióloga e uma enfermeira.

E como começaram os atendimentos?

Bezerra nos ofereceu uma casa abandonada na divisa do Cantagalo com Pavão-Pavãozinho, com goteiras, infiltrações, teias de aranha. Fizemos um mutirão de limpeza. No início, houve muita desconfiança, porque ninguém na comunidade me conhecia. Pensavam: “O que essa patricinha quer?” Era ano eleitoral e achavam que eu ia fazer que nem os candidatos, que em campanha apareciam e sumiam. Quando inaugurei o Postinho, ouvi: “Vai durar seis meses.” Mas chegou a UPP, o capitão Nogueira começou a fazer reuniões com as lideranças comunitárias, eu frequentava tudo, fiquei conhecida e o preconceito acabou.

Você enfrentou muitos problemas?

Em 2012, o Postinho fechou após um temporal. Ficou insalubre, de tanto mofo. Os voluntários passaram a atender de graça em seus consultórios particulares. Mas saiu uma reportagem no RJTV sobre o fechamento, e um médico de São Paulo, Rodolfo Carnevalli, se sensibilizou e bancou toda a reforma. Pudemos reabrir um ano depois. Até hoje ele vem sempre ao Rio e atende no Postinho. Ano passado cheguei a pensar em fechar de novo. Tinha tiroteio todo dia, a ONG foi atingida por vários tiros, a construção do segundo andar atrasou muito. Mas insistimos. Subi aqui até os nove meses de gravidez. Brincavam: “Você quer que sua filha nasça do Cantagalo?” Temos serviços que são muito escassos na rede pública de saúde. Uma doméstica de 69 anos com artrite, artrose e reumatismo sentia tantas dores que às vezes não podia trabalhar. Tem feito massoterapia e acupuntura, e melhorado muito. Nossa recepcionista, a Paula, única funcionária do Postinho, começou como paciente. Estava com depressão após ficar desempregada, tinha insônia, vivia chorando. Hoje dorme a noite toda e está sempre rindo. Ela nunca tinha ouvido falar de tratamentos como florais. Não disputamos com a clínica da família do morro. Vamos começar um grupo com adolescentes grávidas em que a psicologia e a fisioterapia estarão à frente do atendimento.

Que outros grupos existem no Postinho?

Dia 5 começa a segunda turma do grupo de emagrecimento. Reúne nutrição, psicologia e terapia floral. Só a nutrição não resolve, porque muitas mulheres interrompem a dieta. No Postinho, temos dois pilares: tratamento multidisciplinar e prevenção. Outro grupo é o AmarEla, roda de conversa e espaço de escuta para lésbicas, bissexuais e trans da favela. Já o (Qual)Idade de Vida é voltado para a terceira idade. E tem o grupo A Voz do Corpo, a Voz da Alma, de canto coral, com a cantora Luciana Coló, do Mulheres de Chico, que trabalha as histórias de vida e as emoções por meio da música. Temos dois projetos de capacitação que aguardam patrocínio: Mulheres Pintoras, em parceria com a ONG Mão Santa, e Mulheres que Curam, de massoterapia e de Reiki. Afinal, após resgatar a saúde e a autoestima, a mulher pode produzir e voltar ao mercado de trabalho.

Que tipos de queixas vocês recebem?

De depressão, transtornos de ansiedade, dores no corpo. Há muitos casos de violência doméstica, de abusos, do filho que entrou no tráfico. A gente escuta, acolhe. Tem mulher que diz: “Vim porque estou com dor no cotovelo.” Você conversa e acaba descobrindo que o problema é outro, é o marido que bate. Em vez do médico ela vai para a psicóloga. Pode parecer que estou enxugando gelo, mas só de conseguir que uma menina deixe de engravidar precocemente e não haja mais uma criança largada por aí já me dá motivação. Quando estou aqui me sinto uma pessoa melhor.

2 comentários em "Dois cafés e a conta com Julia Rangel"

  1. Parabéns pelo trabalho. O pouco que fazem é muito para várias pessoas.
    Nós do IMC Instituto de Medicina e Cidadania, também procuramos ajudar de acordo com nossas possibilidades.
    Se vocês precisarem de algum apoio da nossa parte, estamos a disposição.

  2. OriginalMusic disse:

    Existe curso de Massoterapia aos sabados? Se sim, qual a carga horaria? order a custom essay

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