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Doenças mentais viram epidemia entre policiais

Polícia Militar do DF renova mais de 3 mil coletes balísticos
Por: Metropolis – Ed: Rafael Laet

O soldado reformado da PMSP Júlio César da Silva chegou a apontar uma arma para a sua têmpora, mas desistiu de se matar. 0

Uma bala alojada na medula tirou não apenas o movimento das pernas, mas também a vontade de viver do soldado reformado da Polícia Militar de São Paulo (PMSP) Júlio César da Silva. Há 15 anos, ao tentar evitar um assalto, ele entrou em confronto com bandidos. Foi baleado em sua última missão oficial como agente da lei, e o dano irreversível na coluna o deixou dependente de cadeira de rodas para sempre.

O diagnóstico de paraplegia veio acompanhado de uma depressão profunda. Trancado em um quarto escuro, sem se alimentar adequadamente e dormindo somente à base de fortes remédios, ele tomou a decisão radical de se matar. Com a arma em punho apontada para a têmpora, cão acionado e dedo no gatilho, Júlio César desistiu ao lembrar da filha, à época com 1 ano e 8 meses.

Durante três meses, o Metrópoles se dedicou a buscar explicações para o tema, censurado nas entidades. A reportagem percorreu quatro unidades da Federação, entrevistou mais de 40 pessoas – entre policiais militares, civis e federais, servidores do Corpo de Bombeiros e inspetores da Polícia Rodoviária Federal, psicólogos e psiquiatras – a fim de reportar dramas pessoais e indicar serviços de ajuda disponíveis. Mais do que isso: chamar atenção do poder público para o mal que atinge integrantes das corporações brasileiras e 320 milhões de pessoas no planeta.

Em 2015, o Grupo de Estudo e Pesquisa em Suicídio e Prevenção (GEPeSP) entrevistou, por meio de um questionário on-line, 18.007 policiais de diversas instituições em todo território nacional. Desse total, 3.225 já haviam cogitado se matar e 650 chegaram a tentar suicídio.

“As políticas de segurança pública não incluem a saúde mental dos agentes e militares. Percebemos que esses profissionais, de maneira geral, vivem à margem dos programas existentes na área. Os resultados do estudo coordenado por nós mostram que 80% dos policiais não se sentem reconhecidos pela sociedade nem pelos seus superiores. Para o poder público, o investimento é só material: na compra de viatura e na construção de quartéis e delegacias. Os governantes não enxergam o policial como ser humano, por isso ele se sente cada vez mais descartável e adoentado” destaca Dayse Miranda, doutora em ciência política pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do GEPeSP.

A cabo Simone Sampaio da PMSP sobreviveu a três tentativas de suicido. Para vencer a depressão, ela passou praticar atividades físicas ao lado do marido Flavio. Um amor que nasceu graças aos plantões policiais quase morreu dentro do quartel. Há duas décadas, Simone Sampaio e Flávio Souza, 45 e 43 anos, respectivamente, eram recém-formados na PMSP. Durante os atribulados expedientes dos fins de semana, se apaixonaram e, em poucos meses, namoraram, noivaram e casaram. Alguns anos depois, Simone sentiu o peso da intensa e desgastante atividade. Com duas filhas pequenas, o casal fazia bicos durante as folgas para incrementar a renda mensal.

Afastada das funções de patrulhamento ostensivo e submetida a um intenso tratamento psiquiátrico, Simone apresentou evolução em seu quadro clínico. O esporte foi fator crucial para ela vencer de vez a depressão. O marido, Flávio, a convenceu a praticar atividades físicas. Começaram com curtas e lentas caminhadas, evoluíram para trotes e, atualmente, os dois participam de corridas de rua. Na última prova, o casal de PMs correu 21 quilômetros.

Hoje, 25 quilos mais magra, ela usa o próprio testemunho para encorajar outros colegas de farda a buscarem ajuda. “Tive assistência impecável do comando da minha corporação e meu marido foi uma fortaleza. Policiais têm de entender que não são super-homens nem supermulheres. Por trás dessa farda, existe um ser humano, com suas fragilidades e sentimentos”.

5 comentários em "Doenças mentais viram epidemia entre policiais"

  1. Marcio Meirelles disse:

    Os números são assustadores: segundo a pesquisa citada, 17% dos policiais já cogitaram se matar e 3,7% chegaram a tentar suicídio. Numa categoria especialmente exposta a estresse intenso e permanente, faltam programas direcionados à prevenção e ao tratamento dos distúrbios mentais resultantes dessa condição. O Observatório da Saúde fez bem em organizar recentemente um Fórum para analisar o problema. Compete às autoridades valorizar a saúde dos seus agentes de segurança e enfrentar de modo efetivo essa grave situação.

  2. Carlos André da Siva disse:

    Boa noite!
    Meu nome é Carlos André e sou policial miliar em Brasilia há 27 anos. Não sou um estudioso do tema, mas observo que ao longo do tempo, quase tudo foi automatizado, coisas do cotidiano policial, que pareciam burocráticas ou indesejáveis, foram sendo eliminadas ou subistituidas. Antigamente os quartéis tinham o rancho (restaurantes), onde os policiais se alimentavam em grupos; Também tinham reservas de armamento, onde a cada início de jornada se formavam filas para acautelar o armamento e os equipamentos; Particularmente na PMDF, tínhamos cursos de formação de Cabos e Curso de Formaçao de Sargentos, que foram eliminados em nome da praticidade de unificar toda a formação em um único Curso de Formação de Praças; Tínhamos também as atividades físicas dentro dos quartéis, que tambem foram extintas, pois com a criação dos Serviços Voluntários Gratificados, como forma de compensar a drástica redução de efetivos, não sobra tempo para mais nada; As formaturas que ocorriam uma vez por mês, reuniam todo o efetivo dos batalhões, nas quais muitas vezes, eram seguidas de confraternizações; Atualmente, todos os avisos e escalas são transmitidos por Whatsapp. Ocorre que todas estas situações cotidianas, apesar de parecerem pouco práticas ou inadequadas aos tempos atuais, proporcionavam ao policial o convivio com seus companheiros de trabalho, os colegas de Unidade Policial, praticamente todos se conheciam e se relacionavam nas mesas, durante as refeições, nas filas da reserva de armamento, onde se contavam os feitos dos serviços passados, fazíamos piadas uns dos outros. Os cursos de formação eram preciosas pausas de 4 ou 6 meses, onde o policial era afastado de sua rotina para ser aperfeiçoado e em seguida ser promovido, os cursos eram difíceis, ou ralados, como chamamos na caserna., mas ao mesmo tempo, eram grandes exercicios de superação, alem da oportunidades de fortalecer os laços de amizade e de fazer novos amigos dentro das salas de aula, amigos de verdade, que saiam juntos, que conheciam as famílias uns dos outros. Ocorre que na praticidade dos tempos atuais, os policiaos não ficam mais em filas das reservas de armamento, porque já têm o armamento acautelado; não dão mais risadas uns dos outros nos ranchos, pois agora recebem um valor referente a alimentação e se alimentam no local da sua preferência ao longo do serviço, não mais na compania de muitos, mas apenas da guarnição de serviço, na maioria das vezes apenas dois policiais. Atualmente os policiaos não são mais os melhores amigos dos policiais, eles mal se conhecem, não existe o sentimento de pertencimento a Corporação, mas apenas a guarnição de serviço ( ele e mais um). Creio que estas pequenas coisas do cotidiano, que pareciam entediantes ou burocráticas, na verdade nos proporcionavam algo que o conforto e a modernidade não proporcionam, o pertencimento, a amizade verdadeira, a competição saudável, o companherismo tão necessário nesta profissão que ganhou sim, muita praticidade e conforto, mas perdeu uma parte considerável do equilibrio que só a proximidade de muitos amigos pode proporcionar. Pode parecer apenas saudosismo, e talvez até seja, já que não sou estudioso do assunto, mas naquele tempo, mesmo com todas as dificuldades, não perdíamos tantos policiais para eles mesmos.

    1. Jacir luiz disse:

      Muito elucidativo os seus comentários sobre a Policia Militar nos tempos áureos e nos atuais, infelizmente a modernidade nos retirou o contato “tet a tet”, impossibilitando a observação da atual situação dos companheiros de farda, isso acho eu que, em determinados casos, impediria que certas doenças se propagase no nosso meio.

    2. Francinete disse:

      Faço minhas suas palavras, bela dissertação da verdade do ontem da PMDF.

  3. Lídia disse:

    Infelizmente nós policiais com problemas mentais ou doenças de ordem psicólogica adquiridas ao longo dos anos em nossa profissão,por conta ou não dela, sofremos discriminação, descaso,somos constrangidos quando deixamos de ser úteis! Quem deveria nos cuidar, são os primeiros à nos crucificar! Temos que voltar a trabalhar, se podemos fazer outras coisas, se não estamos como andarilhos,se não estamos definhando externamente,se ainda conseguimos “respirar” e ainda o coração pulsa, então ñ existe problema! Sou policial militar, mas, honestamente, sinto que ñ passo de uma número, uma matrícula, se sou útil, ótimo, do contrário,apoio zero! Principalmente das juntas médicas. Me sinto muito constrangida,infelizmente. As pessoas só entendem o que passamos, quando passam pela mesma situação,ou não! Somos apenas um bando de preguiçosos e aproveitadores para a maioria, médicos, colegas de serviço, juizes anônimos da vida alheia, que se acham no direito de te julgar e condenar e te tratar como uma pessoa sem caráter algum! Não quero generalizar, nem devo,tenho amigos e ótimos companheiros de trabalho, bons comandantes, mas, infelizmente são minorias. De qualquer forma,sigo sonhando um dia que possamos ser tratados com dignidade que merecemos por nossa profissão e por cidadãos que somos!

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