Isis Breves

Saúde Coletiva

Por Isis Breves

Dia do Hospital – Conscientização de riscos pode diminuir a ocorrência de eventos adversos

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Dia 02 de julho comemora-se o Dia do Hospital. Neste contexto, a coluna Saúde Coletiva reedita uma matéria publicada no Portal Proqualis da Ficoruz, sobre a importância de se instituir uma Cultura de Segurança do Paciente no ambiente hospitalar, já que evidências científicas comprovam que o seu fortalecimento favorece a redução da incidência e mortalidade relacionadas a eventos adversos.

Desde 2013, a publicação da Resolução da Diretoria Colegiada (RDC)  nº 36, pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), institui ações para a segurança do paciente em serviços de saúde. Segundo a RDC nº 36, os hospitais, através de seus núcleos de segurança do paciente (NSP), devem adotar princípios e diretrizes de melhoria contínua dos processos de cuidado e do uso de tecnologias, disseminação sistemática da cultura de segurança do paciente, articulação e integração dos processos de gestão de riscos e garantia das boas práticas de funcionamento do serviço de saúde.

A disseminação da cultura de segurança do paciente significa “estimular os profissionais a reconhecerem os riscos e a acreditarem que esses podem ser minimizados, evitando-se, assim, que pacientes sejam vítimas de eventos adversos. Para fortalecer a cultura de segurança, é necessário valorizar o aprendizado contínuo. Há de se valorizar a notificação de incidentes para que se possa conhecer os principais erros decorrentes do cuidado de saúde e suas possíveis causas em cada hospital.  Habitualmente, quando ocorre um incidente de segurança em hospitais, há mais de um fator causal envolvido, favorecendo a sua ocorrência.  Outro ponto fundamental é promover uma cultura não punitiva, já que não é esta que prevalece nos hospitais a nível global. Os profissionais geralmente têm receio de notificar um incidente de segurança, pois ainda prevalece o questionamento do “quem” e não do “o quê” efetivamente ocorreu, atribuindo-se uma punição ao profissional, ao invés de ações corretivas. Isso impede que as reais falhas nos processos e na estrutura de trabalho sejam reconhecidas”, explica a enfermeira Claudia Tartaglia Reis, doutora em Saúde Pública e colaboradora do Proqualis.

Promover a cultura de segurança do paciente é uma estratégia prevista para o Plano de Segurança do Paciente, segundo a RDC nº 36 da ANVISA, para que haja ações de gestões de risco. “Uma cultura de segurança fortalecida trará benefícios para o paciente, para o profissional, denominado na literatura como “a segunda vítima”, e para a organização. Para o paciente, o maior benefício será receber um cuidado de qualidade e seguro, resultando em melhoria de sua saúde. Para o profissional, uma vez diagnosticadas e corrigidas as falhas nos processos e na estrutura, os benefícios serão condições melhores de trabalho e satisfação profissional com os resultados obtidos. Já a organização ganha em credibilidade e reduz os custos, evitando o aumento do tempo de permanência hospitalar provocados por incidentes de segurança”, afirma Claudia.

Hoje o MS preconiza seis metas internacionais para que os hospitais atuem em sua gestão de risco relacionada à segurança do paciente:

  1. Identificar corretamente o paciente;
  2. Melhorar a comunicação entre profissionais de saúde;
  3. Melhorar a segurança na prescrição, no uso e na administração de medicamentos;
  4. Assegurar cirurgia no local de intervenção, procedimento e paciente corretos;
  5. Higienizar as mãos para evitar infecções;
  6. Reduzir o risco de quedas e úlceras por pressão.

No entanto, para que as metas sejam trabalhadas e implementadas nas rotinas dos profissionais como práticas mais efetivas e mais seguras, é necessário trabalhar a cultura de segurança do paciente. “A cultura de segurança é um conceito multidimensional. Para fortalecer a cultura de segurança, há a necessidade de investimentos financeiros para a melhoria dos processos e de engajamento de todos os profissionais direta ou indiretamente envolvidos no cuidado de saúde, incluindo os administrativos. Para isso é essencial o apoio da alta gestão e das lideranças. Demanda investir em capacitação e treinamentos, visando o aprendizado contínuo. A comunicação aberta, com a valorização de todos os profissionais que compõem a equipe de trabalho, é salutar. A notificação de incidentes deve ser encorajada e sistematizada para se conhecer a realidade da organização com relação às causas dos seus incidentes de segurança. Outros pontos vulneráveis a se trabalhar constituem os processos nas transições do cuidado e transferências, em que é comum a perda de informações importantes para os pacientes”, comenta Claudia.

Existem ferramentas que avaliam a cultura de segurança do paciente em hospitais disponíveis e validadas internacionalmente para que esse processo possa ser implementado nas organizações. Segundo Claudia, como primeiro passo, “recomenda-se avaliar a cultura corrente. A avaliação da cultura de segurança em hospitais, enquanto ferramenta de gestão, é habitualmente realizada por meio de questionários desenvolvidos para esse fim e pode ter objetivos diversos: (i) compreender como os funcionários percebem a segurança do paciente na organização; (ii) identificar áreas/unidades cujas características da cultura necessitam de melhorias; (iii) avaliar a efetividade de ações implementadas para melhoria da segurança ao longo do tempo; (iv) comparar dados internos e externos à organização; (v) priorizar esforços de fortalecimento da cultura”.

Claudia finaliza ratificando que é “através dos resultados apurados na avaliação que se torna possível identificar pontos frágeis e fortalecidos da cultura de segurança a fim de que intervenções possam ser priorizadas. Através do uso de questionários, é possível também comparar as culturas prevalentes entre os diversos setores do hospital (as quais podem diferir) e entre diferentes categorias profissionais”.

Para o Brasil, estão disponíveis dois questionários já validados em estudos prévios: (i) o Hospital Survey on Patient Safety Culture (HSOPSC) (Sorra e Nieva, 2004), traduzido para o português e adaptado para uso no Brasil (Reis et al. 2012; Reis, 2013); (ii) o Safety Attitude Questionnaire (SAQ) (Sexton et al., 2006), também traduzido para o português e adaptado para uso no Brasil (Carvalho REFL, Cassiani SHB. Cross-cultural adaptation of the Safety Attitudes Questionnaire –Short Form for Brazil. Rev. Latino-Am. Enfermagem 2012; 20(3):575-82).

O Proqualis disponibiliza, por meio de seu portal, uma página dedicada à cultura de segurança do paciente, na qual o profissional de saúde poderá ter acesso a uma literatura de interesse sobre o tema, composta por artigos publicados, já com tradução de seus resumos em português, links de instituições internacionais e demais materiais selecionados. Destacamos, dentre estes, a aula sobre cultura de segurança do paciente no slideshare. Acesse: //proqualis.net

2 comentários em "Dia do Hospital – Conscientização de riscos pode diminuir a ocorrência de eventos adversos"

  1. Acyr Cunha disse:

    Os hospitais foram criados para pacientes e não para médicos e enfermeiros.
    Há algum tempo foram instituídos normas de segurança e avaliação de resultados, com a instituição de organismos de ACREDITAÇÃO DE HOSPITAIS, justamente para criar procedimentos de prevenção de acidentes hospitalares em geral.
    Rotinas de segurança devem ser implantadas e revistas periodicamente e estimulados a todos os trabalhadores das instituições de saúde a participar e colaborar.
    Com o progresso tecnológico, telemedicina, cirurgia robótica permite o paciente ser operado por alguém distante.
    A relação médico-paciente, o contato pessoal, o direito do paciente se expressar e questionar procedimentos não pode ser menosprezada em função da implantação de novas tecnologias.
    Normas de segurança, eficácia de procedimentos devem ser focadas na cura e bem estar dos pacientes.

  2. Claudio disse:

    Segurança do paciente é item imprescindível em um hospital.

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