Isis Breves

Saúde Coletiva

Por Isis Breves

Dia 13 de Setembro é Dia Mundial da Sepse

A sepse é um problema grave de saúde e dados divulgados pelo Instituto Latino Americano de Sepse (ILAS) impressionam: a sepse hoje é responsável por mais mortes do que o câncer ou infarto agudo do miocárdio. Estima-se cerca de 670 mil casos no Brasil por ano. A maioria dos casos são de pacientes atendidos nos serviços de urgência e emergência. Segundo o ILAS, a letalidade por sepse de pacientes provenientes desses serviços de instituições públicas brasileiras é de 51,7%. Por isso, esse ano, a campanha para o Dia Mundial da Sepse liderada pelo ILAS é promover uma campanha de conscientização tanto para o profissional de saúde, quando para a sociedade, com foco na melhora da percepção e do tratamento da sepse. A identificação rápida da doença e o tratamento adequado são o diferencial para a sobrevida e, para isso, é necessário que as equipes da emergência e pronto-atendimento estejam devidamente treinadas para a identificação precoce através de sinais de alerta. 

Em maio de 2017, Genebra, a Organização Mundial de Saúde (OMS) aprovou durante a 70ª Assembleia Mundial de Saúde (MAS), a Resolução para melhorar a prevenção, diagnóstico e controlar a sepse por meio de uma série de ações dirigidas em todo mundo. Isso significa que a sepse é prioridade de saúde mundial pela OMS.

A resolução enfatiza a falta de reconhecimento e tratamento adequado da sepse com um dos maiores problemas de saúde mundial resultando em milhões de mortes preveníveis a cada ano. A resolução recomenda aos 194 Países-Membros das Nações Unidas, entre eles o Brasil, a implementarem medidas adequadas para reduzir o ônus da sepse tanto em termos de vidas perdidas como em termos de gastos despendidos para seu tratamento. A publicação de relatório sobre a sepse e suas consequências globais está prevista até o final de 2018.

Dada a importância e relevância da sepse na área da saúde coletiva, vou reproduzir a entrevista que fiz em 2016, mas continua atual, para o Portal Proqualis do Icict/Fiocruz com o médico intensivista Dr. Luciano Azevedo, Presidente do ILAS, professor livre-docente da Disciplina de Emergências Clínicas da Universidade de São Paulo e médico pesquisador do Instituto Sírio-Libanês de Ensino e Pesquisa.  

ProqualisO ILAS está promovendo uma campanha do “Dia Mundial da Sepse” de conscientização tanto para o profissional de saúde, quanto para a sociedade sobre a sepse. “Pare a Sepse, Salve Vidas” é o slogan dessa campanha que integra o projeto “Dia Mundial da Sepse”, um projeto mundial capitaneado pela Global Sepsis Alliance (GSA), uma organização sem fins lucrativos que conta com a colaboração de 39 instituições internacionais. Este ano o objetivo da campanha é aumentar a percepção da doença tanto entre os profissionais de saúde como entre o público leigo e, assim, priorizar a sepse como uma emergência médica. Nesse sentido, quais são as estratégias para a identificação rápida da sepse? 

Luciano Azevedo (ILAS): “Diante dos números significativos da incidência da sepse em pacientes provenientes das emergências médicas, ao contrário do que se imagina ser apenas um problema que atinge aos pacientes já internados em hospitais, a finalidade da campanha é fazer com que a doença fique conhecida entre os profissionais de saúde e a população, para que de fato os pacientes possam receber intervenções básicas, incluindo antibióticos e fluidos intravenosos, na primeira hora. A estratégia para a identificação rápida da sepse é estar atento aos sinais de alerta, como febre, hipotermia, aceleração da respiração, diminuição da pressão arterial, redução da quantidade de urina, sonolência e confusão mental. O início de tratamento deve ser em até uma hora da identificação, com antibiótico adequado e hidratação com soro, pois essas intervenções fazem a diferença na sobrevida desse paciente. Comparo essa mudança de paradigma no atendimento da emergência, com o que aconteceu na prevenção do infarto no miocárdio, onde sinais clínicos como dor no peito, ou no braço quando relatadas no atendimento recebem na triagem uma prioridade principalmente na realização de exames para diagnosticar a doença. Assim deve acontecer quando os sinais da sepse se manifestarem na emergência. O paciente deve receber uma prioridade na triagem para a realização de exames como coleta de sangue e de imagens possam confirmar a sepse e monitorização restrita para que o paciente receba o tratamento adequado em até uma hora. Para isso, é necessário que as equipes de emergência e pronto-atendimento recebam treinamento específico para a identificação e tratamento da sepse”. 

ProqualisFalar de treinamento dos times da emergência e pronto-atendimento, significa a implementação de Protocolo para prevenção e tratamento da Sepse. Quais os desafios para implementação de Protocolo de Sepse nas emergências? 

Luciano Azevedo (ILAS): “O primeiro desafio no meu entender é mobilizar e motivar os gestores de instituições de saúde da importância da identificação precoce da sepse. É primordial garantir que as lideranças sejam envolvidas para implementar e de fato, fazer valer o protocolo com início da terapia precoce. Organizar esse atendimento, a partir da triagem para que o paciente receba atendimento prioritário como acontece nos casos de sinais clínicos para infarto e acidente vascular cerebral (AVC). Em seguida, um desafio a ser enfrentado é o treinamento das equipes da emergência e pronto-atendimentos. Nessa área existe uma grande rotatividade dos profissionais de saúde, o que se torna uma dificuldade para um treinamento adequado, já que geralmente as instituições realizam treinamentos únicos. Por isso, é fundamental que o treinamento sobre a Sepse dos times dessa área seja parte dos programas de educação continuada, o que irá garantir que mesmo com mudanças de profissionais, o treinamento seja realizado. Também são importantes as realizações de campanhas de sensibilização, como essa do ILAS, para que a sepse não caia no esquecimento. Toda e qualquer campanha e treinamento para implementação do protocolo deverá envolver uma equipe multiprofissional para liderar o cuidado especial ao paciente com os sinais de alerta para a sepse”. 

ProqualisOs dados divulgados pelo ILAS impressionam: A sepse é responsável por mais óbitos do que o câncer ou o infarto agudo do miocárdio. Estima-se cerca de 670 mil óbitos por sepse no Brasil por ano e a letalidade de pacientes com sepse provenientes do serviço de urgência em instituições públicas brasileiras é de 51.7%. As razões para essa letalidade elevada são múltiplas. Entre elas: condições básicas de saúde da população inadequadas, dificuldade de acesso ao sistema de saúde, falta de infraestrutura na rede hospitalar, principalmente nos setores de urgência, número inadequado e despreparo de profissionais para atendimento e desconhecimento entre profissionais de saúde e leigos. Há alguma estratégia apoiada pelo Ilas para o enfrentamento desse problema de saúde através de políticas públicas? 

Luciano Azevedo (ILAS): “ Há uma discussão do ILAS com o Ministério da Saúde (MS) na tentativa de incluir a Sepse como prioridade em saúde pública através do Programa Linhas de Cuidado, que atualmente integra a Redes de Atenção à Saúde (RAS). O objetivo é priorizar o atendimento de casos da sepse nas unidades básicas de saúde, e também investimento para a prevenção e tratamento da doença. As Linhas de Cuidado são baseadas nas diretrizes clínicas que são recomendações que orientam decisões assistenciais, de prevenção e promoção, como de organização de serviços para condições de saúde de relevância sanitária. Essas diretrizes clínicas se desdobram em Guias de Prática Clínica e/ou Protocolos Assistenciais que orientam Linhas de Cuidado e viabilizam a comunicação entre as equipes e serviços, programação de ações e padronização de determinados recursos. É uma estratégia que iria padronizar o cuidado de pacientes com sepse nas unidades básicas de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) e poderá fazer a diferença em salvar vidas, desse universo de 51,7% de letalidade”. 

ProqualisHá muito a se fazer. O atraso na procura de auxilio é um entrave a ser vencido. Uma pesquisa do ILAS em 134 municípios brasileiros mostrou que 93% dos entrevistados nunca tinha ouvido falar sobre sepse. Já 98% tinham conhecimento sobre infarto do miocárdio. Campanhas de esclarecimento envolvendo sociedades médicas e imprensa devem ser realizadas para minimizar o problema. O ILAS está dando seu primeiro passo trazendo a campanha tanto para os profissionais de saúde quanto para a sociedade. Poderia falar sobre a campanha para a sociedade?

Luciano Azevedo (ILAS): “ A campanha tem o foco a melhorar a percepção e o tratamento da sepse. Incluímos na campanha tornar a sepse conhecida governamentalmente para que se torne uma prioridade pública como citei anteriormente com verbas para assistência e pesquisa. Políticas apoiadas na epidemiologia da doença lideradas pelo Ministério da Saúde certamente impactarão na prevenção e tratamento. A campanha voltada para o público leigo tem o objetivo de mostrar a importância da procura precoce pelo atendimento, já que os sinais de alerta são comuns a várias doenças benignas e com isso há uma demora na procura de atendimento. É importante que a sociedade tenha conhecimento de que os sinais clínicos podem ser decorrentes a uma infecção grave e que o tempo de procura é fundamental na sobrevida nos casos da sepse. No dia 13 de setembro, o ILAS estará em 14 cidades distribuindo material com informações sobre a sepse em pontos de grande circulação da população, como rodoviárias, aeroportos e shoppings. Uma equipe de enfermagem acompanhará essa iniciativa para esclarecer as dúvidas”, finaliza. 

Veja também o material do Ilas para a população sobre o Dia Mundial da Sepse:

http://diamundialdasepse.com.br/

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