Sustentabilidade

Departamento de Pedestres

Adotamos velocidades de trânsito estúpidas no Rio de Janeiro. São altas e oferecem riscos, contribuindo para as estatísticas de morte no trânsito, onde o Brasil faz parte da elite de países assassinos.

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Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), o Brasil, com 23,4 óbitos por cem mil habitantes em 2015, é o 56º trânsito mais mortal do mundo em números absolutos, mas é o quarto em números proporcionais; é também o terceiro lugar das Américas. A OMS aponta que, mesmo sendo um país que adota legislação com obrigação de itens de segurança (uso do cinto, capacete, limite de velocidade, proteção a crianças, proibição de bebidas), os índices ainda são temerários.

O Rio de Janeiro, em dados do Datasus de 2013, teve 3,47 óbitos/100 mil habitantes, a menor média do país no ano, mas em 2012 registrou 16,68 mortes/100 mil habitantes. Existem medidas sendo adotadas para alcançar maiores reduções dos indicadores, mas falta ainda melhor entendimento sobre o impacto dos veículos no espaço urbano, e há ausência total de interesse pela causa dos pedestres. Os órgãos dedicados ao trânsito fazem contagem de veículos como modo de avaliar a eficiência de vazão de uma via, mas nunca contagem de pedestres.

A Operação Lei Seca vem contribuindo tanto para redução das mortes quanto para uma cultura de paz no trânsito. Mas os números ainda são altos e as séries históricas, assustadoras.

Como sociedade modernista, amamos os princípios de velocidade e amplitude como atributos do território urbano. Tais valores são associados à liberdade individual e à autonomia espacial. Entretanto, esta mobilidade no espaço urbano é compreendida, para cidadãos e seus representantes políticos, como a fluidez do carro, organizada como num pacto social automotor e consumidor de petróleo. O conforto do carro individual é um dos raros consensos da sociedade brasileira, e ai de quem mexer com isso!

O carro, como artefato onipresente do urbanismo ao longo do século XX, virou divindade na segunda metade do século, quando o pós-guerra e a geração baby-boomer o idolatrou como parte da psiquê humana e seus desejos. No Brasil, fizemos a capital como um templo para este deus, e o Rio definiu sua área de expansão, a Barra da Tijuca, como a grande festa religiosa do carro.

O Rio de Janeiro, que possui como marca urbana o compromisso histórico da natureza como lugar de civilização, equilibrando-se entre preservação e intervenção, é protagonista de infinidade de eventos e associações internacionais que miram o desenvolvimento sustentável como meio de promoção de uma melhor cidade. Como consequência, repetimos a esmo palavras como resiliência, adaptação, mudanças climáticas, baixa emissão de carbono, e todo o corolário do urbanismo politicamente correto, a tal ponto que os significados destes vocábulos viraram apenas fonemas opacos, e não identificamos de fato quais decisões e boas práticas que a cidade deva implementar no seu cotidiano em concordância com as metas ambientais.

É como se quiséssemos implementar a sustentabilidade de modo fordista, quando isso seria, na verdade, uma contradição filosófica.

A Lagoa Rodrigo de Freitas, área residencial, de lazer e de interesse turístico, tem como velocidade máxima 70 km/h. O mesmo se passa em toda a orla. Entre Barra e Recreio, na Reserva, temos quase uma pista de autódromo. Vias arteriais adotam 80 km/h. E vias locais, em bairros residenciais, adotam, em grande maioria, 60 km/h como velocidade banal. As áreas “30” (km/h) têm crescido muito, mas aquilo que são ilhas deveriam ser continentes dedicados aos pedestres.

O pedestre e sua infraestrutra, o espaço público e a calçada estão abandonados, ocultos por camadas de verniz dos modismos urbanos.

Não há, em nenhuma administração municipal, um órgão dedicado à “arquitetura do pedestre”, mas todos têm de “engenharia de tráfego”. Gastamos bilhões com vias para carros, com recapeamento asfáltico, manutenção de semáforos; mas fazer uma calçada bem feita parece ciência aeroespacial. Talvez seja mais fácil mandar cariocas à Lua do que fazer uma boa calçada, que dure, que seja acessível, que não tenha tantos postes, que possa suportar atividades cidadãs e de lazer.

O choque entre um carro, acima de 40 km/h, com o corpo humano é fatal. A velocidade ideal para áreas urbanas é de 30 km/h. O Centro do Rio, começando a circular o VLT, precisa urgentemente ser convertido numa grande área “30”, correndo-se o risco de acidentes e de ensinar à população uma mobilidade esquizofrênica, onde a inovação precisa ceder passagem ao arcaico.

Precisamos urgentemente de um Departamento de Pedestres nas cidades, antes que quem circule pelas calçadas vire uma espécie em extinção, tendo o carro como seu predador natural.

Fonte: Washington Fajardo – O Globo – 14/05/2016

Washington Fajardo é arquiteto e urbanista.

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