Opinião

Democracia, um mito

Depois do voto, a grande maioria dos cidadãos se afasta da ação política, se limitando a receber informações sobre a mesma, a emitir suas opiniões, a discutir em grupos

Por: Luiz Roberto Londres
01/08/2017

O título acima é o mesmo do livro de um magistrado, educador, artista, escritor, pintor, criador de filmes, de restaurantes, de um belíssimo hotel (Le Canton, em Vargem Grande, Teresópolis) e de uma universidade que, em poucos anos, tornou-se a maior de nosso país: a Universidade Estácio de Sá. Falo de João Uchoa Cavalcanti Netto. Com sua vasta cultura e com seu espírito criativo, foi a fundo na realidade de uma democracia e nos leva a pensar sobre ela.

No livro, ele discorre sobre todas as incongruências deste regime, de suas flagrantes contradições e das diferenças flagrantes entre o que ela prega e o que acontece. Discorre também sobre diversos outros poderes que nos cercam e, acima de tudo, as profundas diferenças existentes entre o povo e o cidadão.

Como em todas as outras doutrinas com as quais convivemos, a idealização das mesmas não se confirma na prática. Assim como o Direito e a Justiça, a religião, a polícia, os jornais, rádios e TVs, as Forças Armadas, a Receita Federal, os políticos e muitos outros.

O autor disseca as realidades que divergem completamente das ideologias criadoras desses sistemas e leva a fundo as divergências entre ambas. E outros comentários interessantes são os que falam de povo, maiorias e minorias.

Uma conclusão a que chega é de que a democracia nos dá um único direito: o direito ao voto. E mostra ainda que, a partir desse evento, a grande maioria dos cidadãos se afasta da ação política, se limitando a receber informações sobre a mesma, a emitir suas opiniões, a discutir em grupos sem qualquer ação relevante para que a democracia cumpra os seus desígnios. E mais, que essas opiniões fazem parte das grandes divergências que campeiam entre os membros do povo: linhas políticas, faixas etárias, credos religiosos, grupos étnicos, riquezas ou pobrezas, eruditos ou iletrados, homófilos ou homófobos e muitas outras divisões.

Outro ponto importante é a colocação de momentos na vida de cada cidadão. Dependendo de sua estrutura ética, momentos que aparecem podem fazer com que o cidadão acate ideias às quais não aceitava anteriormente e que participe de ações que antes não considerava ou mesmo repudiava.

E se olharmos para o comportamento de boa parte dos servidores públicos que hoje se intitulam “autoridades” ocupando os mais altos postos dos três poderes, veremos que a representação pública que deveria ser parte inerente de suas atividades passa a se esconder em função de interesses privados ou de grupos que os financiam. E a democracia está aceitando que conhecidos e reconhecidos corruptos sejam autores de leis por vezes absolutamente imorais.

Prezado cidadão: uma lição da democracia da Grécia Antiga era a divisão do povo em dois grupos: os que se interessavam pelos assuntos públicos, os polites que se reuniam no Parlamento de então, a ágora, e aqueles que só se interessavam pelos seus assuntos particulares, que eram os idiotes.

Uma conclusão: que possamos todos nos aprofundar no conhecimento da realidade dentro da qual vivemos e possamos vislumbrar caminhos que nos levem a uma situação mais próxima das definições do que a realidade da nossa democracia.

Luiz Roberto Londres é presidente do Instituto de Medicina e Cidadania e Editor Sênior do Observatório da Saúde.

 

 

 

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