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Cientistas de SP testam células-tronco para tratar incontinência urinária

Pesquisa sobre tratamento, feito pela Unifesp e o Einstein, ainda está em estágio inicial

mulher
Mulheres costumam sofrer mais com a incontinência urinária – Jeff Pachoud/AFP
Por: Phillippe Watanabe
Folha de São Paulo – 26/09/2018

Uma tosse ou uma risada e vem a sensação de urina vazando. Espirrar, levantar objetos e fazer exercícios também causam o efeito indesejado, realidade de pessoas que sofrem com incontinência urinária por esforço.

O problema, que afeta mais as mulheres, ocorre por conta do enfraquecimento dos músculos e tecidos (como o assoalho pélvico) envolvidos no processo de liberação de urina.

O parto é um dos principais eventos associados à incontinência. O envelhecimento —e a consequente perda de tônus muscular— também são causas. Além disso, segundo a Mayo Clinic, obesidade, fumo e atividades de alto impacto também podem contribuir para o desenvolvimento da doença.

Para aplacar o problema, uma pesquisa desenvolvida na Unifesp e no Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo, aposta nas células-tronco para a resolução da incontinência urinária por esforço para reconstituir a musculatura da região.

Os cientistas retiram material da medula óssea ou de algum músculo do corpo das mulheres participantes do estudo e, após processamento do material, conseguem as células-tronco.

Hoje, segundo Rodrigo Castro, pesquisador responsável pelo projeto, o maior desafio é alcançar o número necessário de células para uma maior chance de sucesso no tratamento.

“Analisamos trabalhos da literatura e observamos que de 10 a 20 milhões é o adequado”, diz Castro. O caminho entre a retirada de material, processamento e obtenção dos milhões de células dura entre três e quatro semanas —a pesquisa está prevista para durar por um ano. 

Com as células-tronco —que têm potencial de se diferenciar e originar diferentes tecidos— os pesquisadores fazem aplicações na região da uretra das mulheres. São dez participantes do estudo.

Uma das voluntárias é Elza Gabaldi, 58. Acompanhada há três meses, afirma já perceber melhoras nos escapes. “O medo [dos vazamentos] começou a me prender”, diz. Roupas escuras —para esconder caso algo vazasse— e blusas mais compridas acabaram se tornando aliados. “Parece que você não tem controle de uma coisa super íntima. ”

Especialistas no assunto, contudo, são mais cuidadosos com a questão das melhorias.

“A terapia com células-tronco ainda é uma coisa inicial. Precisamos esperar resultados efetivos para ver se vai ou não ter resultados”, afirma Jorge Haddad, membro da comissão de uroginecologia e cirurgia vaginal da Febrasgo (Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia), e que não está envolvido no novo estudo.

Haddad, contudo, avalia que, pelos resultados que já se observam atualmente, a terapia é promissora. “A ideia é conseguirmos reconstituir colágeno, musculatura lisa, vasos da região uretral. Melhorando essas estruturas, aumentaríamos a pressão e evitaríamos a incontinência. ”

Castro também é cuidadoso em relação à promessa de resultados. “A terapia que estamos estudando precisa ter a mesma eficácia da cirurgia minimamente invasiva [um dos tratamentos padrão], que tem eficácia muito alta. ”

Além da cirurgia, também pode-se optar pela utilização de exercícios para fortalecimento da musculatura da região e fisioterapia para tratamento de casos menos graves e prevenção.

Um porém da pesquisa, de acordo com Castro, é a dor relatada pelas pacientes na obtenção do material que dará origem às células-tronco.

Segundo o especialista da Febrasgo, também não se sabe ainda quais tecidos conseguem melhores resultados na reconstituição da área da uretra. Ele cita um estudo feito por sua equipe que conseguiu obter células-tronco a partir de sangue menstrual. A próxima etapa será a aplicação do material em pessoas com incontinência.

Tratamentos novos com técnicas de ponta e reconstituição de tecidos têm sempre o custo como obstáculo. Castro afirma que estão sendo feitas análises e comparações do preço total da terapia com células-tronco e das atuais. “Preciso saber não só o quanto custa, mas o quanto complica. A complicação [como infecções ou rejeição] é cara. ”

O médico do Einstein diz, porém, que o custo do procedimento isolado é menor do que de algumas das técnicas cirúrgicas usadas atualmente.

As terapias com células-tronco poderiam ser úteis para os casos mais complexos do problema, nos quais nem mesmo as cirurgias têm sucesso, diz Haddad. “É promissor, mas ainda muito inicial.”

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