Opinião

Cérebros de porcos abatidos mantidos vivos: rediscutindo o conceito de vida

Haveria sofrimento em um cérebro desligado de seu corpo? Que tipo de consciência existiria?

Luciano Melo

Imagine uma pessoa sob efeito de anestésicos, que durma o sono profundo, mas com uma diferença que torna o procedimento especial: o cérebro desse indivíduo se encontra susceptível a estímulos elétricos artificiais, designados a criar sensações ilusórias.

Assim, poderíamos injetar no encéfalo desta pessoa imagens, sons, cheiros, gostos e sensações de toque. Induziríamos esse humano a acreditar estar em um determinado local; ele poderia sentir seus movimentos.

Quando cessarem a sedação e os falsos estímulos, a pessoa acordaria com a nítida lembrança de ter passado por uma experiência real.

Em um experimento mais radical, forneceríamos a mesma sorte de estímulos a um cérebro mantido vivo, mas fora do corpo ao qual um dia pertenceu. Este cérebro teria a percepção de um “eu” que viveria em um mundo cheio de interações, mas na realidade estaria mergulhado em um pote ligado a inúmeros fiozinhos.

Foi essa imagem de cérebros ativos fora de corpos que me veio quando li um editorial da revista Nature, cujo título era este: “Cérebros de porco mantidos vivos fora do corpo por horas após a morte”. O texto comentava os resultados de um estudo audacioso publicado em outras páginas desta mesma revista.

Mas o que foi essa experiência? Os pesquisadores retiraram cérebro de porcos abatidos em um matadouro. Quatro horas após a morte dos porcos, um líquido enriquecido com nutrientes e oxigênio foi bombeado para o interior das artérias, cérebro adentro, como se houvesse um coração. BrainEx é o nome do aparato utilizado.

Medicamentos foram aplicados para que os neurônios não funcionassem e não produzissem qualquer forma de consciência. Os pesquisadores perceberam que, ao longo de seis horas de observação, os neurônios e outras células do cérebro reiniciaram sua funçãometabólica, com consumo de glicose e oxigênio.

A estrutura do cérebro e das células foi preservada ao longo da experiência, ou seja, estavam vivas. Cérebros de porcos não submetidos ao BrainEx morriam. Nenad Sestan, um dos responsáveis pelo estudo, afirmou que seu experimento evitou o inevitável. Seria mais prudente dizer isso foi feito apenas por algumas horas.

Mas, afinal, o que fazer com um cérebro vivo, viável, mas desencorpado? Haveria sofrimento em um cérebro ativo, mas desligado de seu corpo? Que tipo de consciência existiria nessa situação? A definição de morte seria repensada, após o corpo ter sucumbido, enquanto o cérebro continua preservado? Essas são algumas das questões éticas espinhosas que talvez impeçam novos estudos com o BrainEx.

Supondo que esses pontos sejam solucionados e as pesquisas prossigam, é possível que essa engenharia toda tenha aplicação medicinal. Como criar mecanismos para preservar o cérebro quando houver colapso circulatório, até a resolução do problema inicial. Ou, quem sabe, estudar detalhadamente no cérebro vivo o avanço de doenças degenerativas, com o intuito de se encontrar algum processo que possa ser revertido.

A nova pesquisa pode ainda romper uma fronteira da medicina atual ao introduzir técnicas que mantenham um cérebro saudável extraído de um corpo moribundo. Esse cérebro poderia ser implantado em um novo corpo, que viria de um doador – nos moldes das doações atuais, só que numa forma mais abrangente. Ou o cérebro poderia ser ligado a um androide, o qual controlaria.

Enquanto o cérebro estiver no BrainEx, poderia receber estímulos artificiais, como discutido no preâmbulo desta coluna, que construam um roteiro acolhedor e prazeroso. O clima seria o ideal e a percepção da passagem de tempo não traria angústia. Se não for possível encontrar um receptor para esse cérebro, essa simulação do paraíso seria mantida indefinidamente —ou até o fim do seguro-saúde.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *