Dr. Newton Richa

Programa Saúde do Futuro

Por Dr. Newton Richa

Bem Vindo ao Big Brother do Compartilhamento de Dados

Giselle Felix
Fisioterapeuta

Imagine uma sociedade onde você é vigiado através de milhões de câmeras, cada movimento seu é registrado em um banco de dados central ao lado de registros públicos, informações de saúde, realizações na escola ou no seu local de trabalho. Suas atividades on-line são gravadas sem esforço e seus dados são colocados ao lado das contas de sua família e amigos. Quão fácil seria influenciar os cidadãos através de meios como esse? Quão fácil seria para o governo discernir informações sobre nosso estilo de vida, humor, prioridades e prever nossos comportamentos?

Parece ficção científica, certo? Entretanto, há um país onde 200 milhões de câmeras de vigilância garantem que nada permaneça oculto. Torna-se uma brincadeira de criança para julgar ou acompanhar as rotinas de alguém. Em alguns programas-piloto, o Estado atribuiu “crédito social” a seus cidadãos com base em históricos, suas famílias e amigos, suas ações passadas, sua atividade on-line, emprego, estado de saúde – cada passo que eles fazem. O “crédito social” é, sem dúvida, construído de acordo com as expectativas do governo, e os cidadãos são recompensados, onde aqueles que por algum critério estabelecido, obtém pontos altos e por isso são beneficiados com mais opções, melhores escolas, melhores perspectivas de emprego ou melhor atendimento médico. As pessoas que fizeram algo contra os interesses do estado, entretanto, obtêm pontos baixos – e os portões se fecharão diante deles em todos os lugares. Nos piores casos, eles são condenados a prisão domiciliar sem serem realmente condenados.

Parece o roteiro do próximo episódio do Black Mirror, mas se trata da China, e isso não está acontecendo no futuro distante. Eles já introduziram o sistema piloto em várias localidades, e planejam uma implantação em todo o país em 2020, ou seja, em menos de dois anos.

Quanto tempo teremos até que os governos democráticos entendam o potencial das tecnologias digitais e comecem a construir as verificações e os equilíbrios necessários para nos ajudar a manter nosso estilo de vida mais saudável? Quanto tempo temos até que os resultados positivos das tecnologias digitais de saúde possam ser usufruídos em nossas sociedades?

A disseminação de registros médicos eletrônicos, a conectividade de sistemas de dados e a análise de big data ajudam a coletar, armazenar e analisar mais e mais dados de saúde. Além disso, as análises de dados serão alimentadas com informações provenientes de sensores de saúde, wearables e rastreadores – que permitem a coleta de dados sobre as escolhas de estilo de vida. Com o acesso a dados provenientes de rastreadores de sono e condicionamento físico, pressão sangüínea e ECG que eles armazenam e os aparelhos que eles usam para avaliar seu bem-estar geral. Dados esses que poderiam, a nível governamental, por exemplo,  serem usados para operar um sistema nacional de seguro de saúde baseado em um conjunto de informações capazes de ajudar em tomadas de decisão assertivas para elaboração de políticas públicas de saúde, distribuir especialidades médicas, medicamentos e campanhas onde o estudo dos dados mostrar a necessidade.

Hoje em dia, os dados são descentralizados, não se tem previsibilidade de quase nada, por isso, as ações são corretivas e não preventivas, com alto custo, e baixa possibilidade de retorno do investimento. Que chegue o tempo em que nossos dados comportamentais possam ser usados a nosso próprio favor, para implementação de políticas públicas de saúde em prol dos cidadãos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *