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AVC: para prevenir, é preciso controlar os principais fatores de risco

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Por Juliana Temporal

 

Em entrevista no último domingo para o programa Fantástico, da Rede Globo, a apresentadora Ana Maria Braga afirmou que “Todo mundo falava que ele não se cuidava”, referindo-se ao ator Tom Veiga, que fazia o personagem Louro José e faleceu recentemente com apenas 47 anos, vítima de um acidente vascular cerebral (AVC). De acordo com o Dr. Octávio Marques Pontes-Neto, membro titular da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), Vice-Presidente da Sociedade Brasileira de Doenças Cerebrovasculares e Coordenador da Rede Nacional de Pesquisa em AVC, instituída pelo Ministério da Saúde (Decit/SCTIE/MS), o AVC tem prevenção e é possível reduzir em até 80 ou 90% dos casos da doença se houver controle dos principais fatores de risco. Ou seja, se a pessoa se cuidar.

– O primeiro deles é a pressão alta. A hipertensão arterial é um fator de risco muito importante e o controle de pressão é fundamental para a prevenção. O segundo é o tabagismo. Então, parar de fumar é muito importante também. Fazer exercícios para evitar o sedentarismo, pelo menos 150 minutos por semana, é essencial. Controlar a dieta, o colesterol, as doenças do coração (arritmias como afibrilação atrial, doença de Chagas, etc) e doenças vasculares prévias também. Uso de álcool e drogas aumenta o risco, bem como o uso de anticoncepcionais. Além disso, o estilo de vida estressante e a depressão ampliam o risco de AVC – relatou o especialista.

Estima-se que o Brasil tenha cerca de 400 mil casos de AVC por ano e, destes, acontecem 100 mil mortes por ano. A doença afeta igualmente homens e mulheres e pode acometer em qualquer idade, apesar de ser mais comum acima dos 50 anos. A incidência dobra a cada 10 anos acima dos 50 anos. O acidente vascular cerebral é um problema nos vasos do cérebro, mais especificamente nas artérias que levam o sangue para o cérebro.

– O AVC é uma doença grave, na qual a mortalidade chega a 25% no primeiro ano. 25% dos pacientes ficam com sequelas graves e completamente dependentes, 25% terão sequelas moderadas e parcialmente dependentes e 25% vão se recuperar plenamente. Ou seja, mais da metade dos pacientes virão a óbito ou ficarão incapacitados. Menos de 50% dos sobreviventes consegue voltar para o trabalho, por exemplo – afirmou o especialista.

Em relação aos tipos de AVC, Dr. Octávio Pontes-Neto afirmou que o AVC isquêmico, responsável por 80% dos casos, é causado por entupimento de uma artéria que leva sangue para o cérebro. A artéria entope e subitamente uma região do cérebro fica sem receber sangue e para de funcionar para poupar energia. Logo, esse tecido começa a morrer. Outro tipo é o AVC hemorrágico, causado por uma ruptura da artéria, em que extravasa sangue para dentro do cérebro, daí que vem o termo “derrame”.

– Não sugerimos o uso desse termo, porque, primeiro, a maioria dos casos é isquêmico, e segundo, porque passa uma ideia muito niilista e negativa de que não tem nada para fazer mais. É como aquele ditado “não adianta chorar pelo leite derramado” – comentou o neurologista.

O acidente vascular cerebral geralmente começa de forma súbita. Os principais sintomas são: fraqueza ou dormência súbita de um lado do corpo; dificuldade para falar ou entender; dificuldade súbita para andar, tontura ou incoordenação de um lado do corpo; dificuldade súbita para enxergar em um ou dois olhos; e, em alguns casos, uma cefaleia explosiva e muito intensa.

– De forma geral, não dói, são só os sintomas em um lado do corpo. Diante desses sintomas, é importante ligar rapidamente para o 192, porque o Samu tem sido treinado no país inteiro para reconhecer os sintomas e levar o paciente para o hospital adequado. Quanto mais cedo chegar ao hospital, melhor. Nos locais onde não tem Samu, recomendamos que a pessoa baixe o aplicativo AVC Brasil, disponível em plataforma Android e Apple, que mostra os hospitais da região que tem atendimento à enfermidade. Esses hospitais tem que ter tomografia ou ressonância, exames fundamentais para descobrir se é o tipo isquêmico ou hemorrágico – explicou.

Gostaria de ressaltar, continuou o especialista, que o paciente deve ser internado em uma unidade especializada em AVC, pois isso tem um impacto muito positivo na evolução: melhora a evolução clínica, diminui complicações, diminui tempo de internação, ajuda na recuperação do paciente e, além disso, tem custo menor. É importante que mais unidades de AVC no Brasil sejam criadas, pois reduzem muito as comorbidades e complicações desses pacientes.

Segundo o Dr. Octávio Pontes-Neto, é muito importante identificar a causa do AVC, porque quem teve o primeiro faz parte do grupo de risco para um segundo. De acordo com a causa, o paciente começa o tratamento mais adequado.

– O AVC é uma emergência médica e tem tratamento, que sofreu uma revolução nos últimos anos. Há 30 anos, não existia tratamento direito. Hoje, já é muito eficaz. Mas, ele precisa ser feito nas primeiras horas do início dos sintomas, o mais rápido possível. No caso do AVC isquêmico, é para desentupir a artéria, o que pode ser feito com remédios trombolíticos que dissolvem os coágulos ou com procedimentos endovasculares, como a trombectomia mecânica (um tratamento novo utilizado em casos mais graves, em que grandes artérias do cérebro estão entupidas), uma espécie de cateterismo em que inserimos um cateter no cérebro até a artéria entupida para “pescar” o coágulo. Quando feito nas primeiras horas, tem uma chance muito grande de deixar o paciente sem sequelas – ressaltou.

A trombólise já é paga pelo SUS, acrescentou o neurologista, mas a trombectomia ainda não. Felizmente, essa semana, o Ministério da Saúde comunicou passo importante para a incorporação do tratamento: o parecer favorável pela Conitec (Comissão Nacional de Tecnologias em Saúde). Isso aconteceu depois que divulgamos um estudo importante no Brasil, o Estudo RESILIENT, publicado na Revista New England Journal of Medicine em agosto desse ano. A incorporação no SUS deve acontecer em breve.

– Já o tratamento do AVC hemorrágico requer uma internação em uma unidade de terapia intensiva neurológica e requer intervenção cirúrgica por neurocirurgia aberta ou por procedimentos endovasculares, como cateterismo – enfatizou.

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