Opinião

A revolta da vacina

Há uma minimização dos efeitos maléficos da propagação da doença. Posições pessoais não consideram o mal social que podem gerar

oswaldocruz
POR LUIZ ROBERTO LONDRES
O Globo – 27/07/18

‘Tudo volta ao que era, só que diferente”. Estes são os dizeres de Hegel que aprendi em meu primeiro dia do curso de mestrado em Filosofia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro que nunca abandonaram meu pensamento.

Há 114 anos, durante o governo de Rodrigues Alves, acontecia em nosso país a chamada Revolta da Vacina. Na época, o sanitarista Oswaldo Cruz enviou ao Congresso Nacional um projeto que tornava obrigatória a imunização, visando a erradicar uma doença que provocava epidemias maléficas. Esse projeto foi aprovado em 31 de outubro de 1904 como “Lei da Vacina Obrigatória”.

Nele eram exigidos comprovantes de vacinação para matrículas nas escolas, assim como para obtenção de empregos, viagens, hospedagens e casamentos. Previa-se também o pagamento de multas para quem resistisse à vacinação. Mas, apesar das óbvias e boas intenções em relação à saúde populacional, o projeto foi entendido como arbitrário e despótico, sendo suas medidas apontadas como violação dos direitos civis e constitucionais.

Esse projeto não era apenas relativo à conscientização da população, mas desencadeava medidas forçadas, chegando ao ponto de invasão de residências para aplicação da vacina. Em 5 de novembro, a oposição criou a Liga contra a Vacina Obrigatória.

Foi intensa a revolta popular, com movimentos diversos, chegando a depredações, o que fez o governo federal declarar estado de sítio no dia 16 de novembro. A retomada das ações de vacinação do governo, em pouco tempo, levou à erradicação da febre amarela.
Estamos vendo hoje nas redes sociais uma crescente resistência aos movimentos de vacinação. Isto se deve, sem dúvida, principalmente ao desconhecimento de nossa história sanitária. Está havendo uma minimização dos efeitos maléficos da propagação da doença. Posições pessoais estão desconsiderando o malefício social que podem gerar, uma vez que a propagação da doença costuma se iniciar com pequenos focos, disseminando o seu alastramento.

Não somos cidadãos isolados, somos parte e pertencemos a uma sociedade múltipla e temos imensas responsabilidades em relação a ela, a todos os nossos companheiros de vida. Por algumas de nossas atitudes, podemos fazer um grande mal, não só a nós mesmos como aos que nos rodeiam. E este foi o motivo pelo qual o eminente cientista Oswaldo Cruz lutou e conseguiu implantar a obrigatoriedade da vacina. Ele não pensava em indivíduos isolados, levava em conta a sociedade como um todo.

É sempre bom relembrarmos um magnífico pensamento do renomado filósofo e ativista político que foi Ortega y Gasset e que resume o pensamente eminentemente social: “Yo soy yo y mi circunstancia, si no la salvo a ella, no me salvo yo”.

Luiz Roberto Londres é presidente do Instituto de Medicina e Cidadania

Um comentário em "A revolta da vacina"

  1. Sebastião Amoêdo disse:

    Excelente lembrança, ainda que haja tristes memórias. O maior opositor à vacina se chamava Rui Barbosa, que fez duro discurso contra aquilo que considerava “a invasão de seu corpo”. A polícia precisou interver e obrigar alguns a se vacinarem. Oswaldo, segundo relato da família, morreu com pessoas gritando contra ele em sua janela. Muito doente, a mulher o confortava dizendo que era um bloco de carnaval. Após sua morte Rui sobe à Tribuna para pedir desculpas. Como Tomé precisou ver para crer.

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