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A melhor opção no combate ao câncer do colo do útero é a vacina contra o HPV

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Por Fernanda Machado (estagiária)*

 

O câncer do colo do útero é um dos tipos de tumor mais fácil de prevenir e detectar. Apesar disso, em 2020, o Brasil terá cerca de 16 mil novos casos, isto é, 15 a cada 100 mil brasileiras desenvolverão a doença. É o que estima o Instituto Nacional de Câncer (Inca).

— O câncer de colo uterino é o terceiro tumor maligno mais frequente na população feminina (atrás do câncer de mama e do colorretal), e a quarta causa de morte de mulheres por câncer no Brasil. Na análise regional, o câncer do colo do útero é o segundo mais incidente nas regiões Norte (26,24/100 mil), Nordeste (16,10/100 mil) e Centro-Oeste (12,35/100 mil). Já na região Sul (12,60/100 mil), ocupa a quarta posição, e na região Sudeste (8,61/100 mil), a quinta posição — apontou Dr. Gustavo Guitmann, cirurgião do Departamento de Ginecologia Oncológica do Inca.

Esses números chamam a atenção pelo fato de esse ser um câncer prevenível, visto que existem dois fortes aliados na prevenção: a vacina quadrivalente e a bivalente, ambas conferindo proteção contra o HPV, principal causa da doença. 

Desde 2014, o Brasil incluiu a vacina do HPV em seu Calendário Nacional de Vacinação, para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos. A idade, considerada precoce, é motivo de polêmica, mas o Dr. Gustavo Guitmann explica que o ideal é que a vacinação ocorra antes da primeira relação sexual, por isso a faixa etária.

— O Brasil é o 1º país da América do Sul e 7º do mundo a inserir a vacina no programa nacional. Ela é segura e aprovada em 133 países. Meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14 anos podem se vacinar gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS). São duas doses, sendo a segunda seis meses após a primeira. Portadores de HIV, indivíduos submetidos a transplantes de órgãos sólidos, de medula óssea e pacientes oncológicos na idade entre 9 e 26 anos deverão receber o esquema de três doses. É essencial apresentar, no ato da vacinação, a prescrição médica para esses casos — esclareceu.

Outros grupos etários podem dispor das vacinas em serviços privados, se indicado por seus médicos. De acordo com o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), essas vacinas possuem indicações para idades distintas: a vacina HPV quadrivalente é indicada para mulheres e homens entre 9 e 45 anos; e a vacina bivalente tem indicação para mulheres a partir de 9 anos, sem restrição de idade. Todos que já tiveram diagnóstico de HPV podem se vacinar, desde que estejam na faixa etária elegível.

Há ainda estudos com evidências promissoras de que a vacina previne a infecção por outros tipos do HPV, reinfecção ou reativação da doença relacionada ao vírus nela contido. Pesquisas mostraram que entre 9 a 14 anos, a vacina quadrivalente induz melhor resposta quando comparada em adultos jovens. As jovens vacinadas sem contato prévio com a doença têm maiores chances de proteção contra lesões que podem provocar o câncer uterino.

De acordo com o especialista, o número de mortes ocasionadas pelo câncer de colo de útero é maior em locais onde o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é mais baixo e os programas de controle de câncer não estão bem estabelecidos. Nesses locais, onde a doença é diagnosticada em estágios mais avançados, o índice de mortalidade tende a ser maior.

— A mortalidade na Região Norte no período entre 1981 a 2017 teve uma forte tendência a elevação, com uma taxa de óbito de 12,24 /100 mil mulheres. As Regiões Sul e Sudeste tiveram as menores taxas (4,82/100 mil e 3,64/100mil) — enfatizou Dr. Gustavo Guitmann.

A história natural do câncer de colo de útero é um assunto que deve fazer parte da educação familiar, pois a informação é um dos fatores mais importantes para a prevenção do HPV e por outras doenças.

Como dito anteriormente, há ainda um tabu acerca da vacinação contra o HPV. Segundo o médico, o estigma em relação ao assunto é um tópico importante a ser vencido.

— O medo e desinformação em relação à vacina, a falta de conhecimento sobre o HPV e sobre o câncer de colo uterino, talvez sejam os principais fatores que levam os pais a não vacinarem seus filhos. Essa mentalidade leva alguns pais de adolescentes a acharem que a vacinação pode estimular a sexualidade, sendo que vários estudos negaram essa hipótese. Muitos também acham que podem contaminar seus filhos com HPV ao aplicarem a vacina. A quadrivalente é segura, foi desenvolvida por engenheiros genéticos e não possui risco de contaminação pelo HPV, pois não contém o DNA viral — esclareceu Dr. Gustavo Guitmann.

O especialista relembrou o grande sucesso da campanha da primeira dose dessa vacina no Brasil, em 2014, iniciada dentro das escolas, batendo a meta esperada. Após a campanha, ocorreram alguns eventos adversos sobre a aplicação, divulgados em mídia leiga, gerando desconfiança e receio por parte da população, levando a uma diminuição de indivíduos vacinados na segunda etapa.

Dr. Gustavo Guitmann ressaltou que a escolha por não vacinar contra o HPV significa ignorar uma das ferramentas mais eficazes e fundamentais que há na prevenção do câncer de colo uterino. Outro ponto importante da vacinação é a diminuição do contágio entre os indivíduos.

— Em países que respeitaram e aderiram à vacinação, como a Austrália, os níveis de casos de câncer de colo uterino são muito baixos. É um exemplo a ser seguido — salienta o especialista.

Existem outros fatores que aumentam o risco do desenvolvimento desse tipo de câncer. São eles: início precoce da atividade sexual e múltiplos parceiros, tabagismo (a doença está diretamente relacionada à quantidade de cigarros fumados), número elevado de gestações, infecção por HIV e outras doenças sexualmente transmissíveis (como herpes e clamídia).

O rastreamento do câncer de colo de útero é de grande importância para a prevenção de morbimortalidade, sendo recomendado, no Brasil, o exame citopatológico (Papanicolau), anualmente, em mulheres de 25 a 64 anos de idade.

— Além disso, o uso de preservativos e ações educativas são outros métodos importantes na prevenção. Precisamos reforçar que adolescentes e mulheres vacinadas devem seguir normalmente as regras de controle preventivo, com exame ginecológico e coleta de Papanicolau. Adolescentes que já iniciaram a vida sexual devem consultar o médico para outros exames ginecológicos também — explicou. 

Dr. Gustavo Guitmann finalizou ponderando que a eficácia da vacina é de mais de 95% sobre os tipos do HPV, verrugas e displasias. Entretanto, a vacina não modifica a história natural das pacientes já contaminadas. O diagnóstico precoce das lesões causadas pelo HPV no colo uterino e, consequentemente, seu tratamento adequado, são de suma importância para interrupção da evolução dessa patologia.

 

*Sob a supervisão de Juliana Temporal

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