Saúde pública

A desospitalização de pacientes idosos com condições crônicas ou dependência.

Na última década, a população brasileira vem apresentando um aumento da prevalência das doenças crônicas e a um acelerado envelhecimento populacional. A prevalência de hipertensão aumentou de 21,6% para 24,8%, a de obesidade aumentou em 50% e proporção de brasileiros com 65 anos aumentou em 30%. Consequentemente, a ocorrência de doenças incapacitantes aumenta, sobrecarregando os hospitais. Na saúde suplementar, a proporção de assegurados com mais de 60 anos representa 12% da população coberta, mas corresponde a um quarto das hospitalizações.  Os gastos com despesas hospitalares de idoso chegam a 30% dos custos totais dos segurados. O tempo de permanência médio aumenta com a idade, subindo de 3,9 dias na faixa entre 45 a 59 anos para 6,4 dias na faixa entre 60 a 74 anos e até 13,4 dias na população acima de 90 anos, aumentando os custos.

Do ponto de vista clínico, os idosos com doenças crônicas e fragilidade têm maior risco de internação por condições agudas como a fratura de quadril, o infarto e o acidente vascular cerebral, patologias que levam a perda funcional e dependência para as atividades de vida diária. Consequentemente, estes pacientes necessitam de um período de reabilitação para melhorar a capacidade funcional. Frequentemente a recuperação é parcial e os pacientes requerem o suporte de profissionais de saúde e de cuidadores após alta. Do ponto social, o cuidado após a alta é limitado pelo isolamento dos idosos, pela desestruturação das famílias, pelas limitações financeiras, pela fragilidade da rede social de suporte aos idosos e o estresse físico e emocional do cuidador e a escassez de pessoas capacitadas para o cuidado.

Na estrutura atual do sistema de saúde suplementar, os hospitais são equipados com recursos mais complexos e caros que os requeridos pelos idosos crônicos.  As operadoras de saúde oferecem planos com coberturas amplas para internação, mas sem cobertura para situações de recuperação funcional. As equipes médicas são treinadas para atenção à doença aguda e utilizam intensamente os recursos hospitalares aumentando os custos, mesmo em pacientes recebendo cuidados paliativos, sendo remuneradas por produção. A indefinição dos papeis do sistema de saúde, da família e da sociedade no cuidado de pacientes idosos, crônicos e com dependência ou fragilidade é agravada pela judicialização das questões de saúde o que dificulta a administração dos riscos atuariais nas populações asseguradas.

A melhora do suporte aos pacientes idosos, crônicos com fragilidade ou dependência requer um alinhamento amplo da sociedade, dos prestadores de serviço, dos profissionais e das operadoras. É necessário desenvolver uma rede assistencial de menor complexidade e custo para idosos com dependências, focada no controle dos sintomas, na melhora da qualidade de vida e na redução da dependência. A vinculação entre os hospitais de agudos e crônicos é essencial para a sustentabilidade de ambos. Algumas necessidades de cuidado podem ser supridas no próprio domicilio por familiares ou cuidadores treinados e requerem o engajamento social. Outras mais complexas podem ser definidas através de critérios objetivos para alocação em hospitais de retaguarda, internação domiciliar e de longa permanência. Estes critérios viabilizam a cobertura racional de diferentes tipos de recursos pelas operadoras, reduzindo o risco de judicialização. A educação continuada dos profissionais de saúde deve incorporar a reabilitação e os cuidados paliativos. Finalmente, cabe ao governo e as agencias regulatórias o papel de reunir os agentes do sistema para buscar a reestruturação do sistema de saúde em busca de um modelo melhor.

Referências

  1. IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatítica. Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação. Acessado em 02/05/2016. Disponível em http://www.ibge.gov.br/apps/populacao/projecao/.
  2. Ministério da Saúde. VIGITEL 2014. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Acessado em 22/10/2015. Disponível em http://www.abeso.org.br/uploads/downloads/72/553a243c4b9f3.pdf.
  3. Ministério da Saúde. VIGITEL 2006. Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico. Acessado em 02/05/2016. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/vigitel_brasil_2006.pdf
  4. ANSS – Agência Nacional de Saúde Suplementar. Plano de Cuidado para Idosos na Saúde Suplementar. Acessado em 02/05/2016. Disponível em http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/plano_cuidado_idosos.pdf
  5. ANAHP – Associação Nacional dos Hospitais Privados. Observatório ANAHP. Acessado em 02/05/16. Acessado em 02/05/2016. http://anahp.com.br/produtos-anahp/observatorio/observatorio-anahp-2015

 

Fonte: Rogério S. Ribeiro

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *