Opinião

Dor não tratada é tortura

Medos, preconceitos e desconhecimento sobre opioides emperram acesso no país

toninho
O flautista Toninho Carrasqueira toca pelos corredores do hospital Adriano Vizoni/Folhapress
Por: Claudia Collucci
Folha de São Paulo – 16/10/2018

A dor tem pautado meus últimos dias. Do ponto de vista pessoal, uma adenomiose me levou a experimentar um sofrimento físico até então nunca vivido agora sob controle.

No âmbito profissional, participei de um encontro na semana passada em Lima (Peru) sobre cuidados paliativos em que o subtratamento da dor foi um dos principais temas.

As palestras e as conversas com os especialistas me remeteram a outras experiências vividas recentemente com pessoas próximas que tiveram câncer e que sofreram dores alucinantes. 

Seja pelo desenvolvimento da doença, seja pelas sequelas do próprio tratamento, grande parte dos pacientes com câncer sentem dor. É um quadro tão frequente que parece incrível que esse tema ainda seja tão negligenciado.

Um dos palestrantes em Lima fez uma colocação perfeita: a dor não tratada é tortura. A frase me remeteu às últimas horas da minha mãe, aos últimos dias da minha tia, e às últimas conversas com minha amiga.

A dor foi a protagonista em todas essas situações. Roubou o sorriso da minha mãe, o bom humor da minha tia e o otimismo da minha amiga. 

Governos, gestores, instituições e profissionais de saúde ainda não dão a merecida atenção ao tema. Como pode um médico pensar no combate de uma doença como o câncer sem priorizar, ao mesmo tempo, o tratamento da dor?

Duzentos anos depois que a morfina começou a ser distribuída, persistem os mitos e os preconceitos sobre esse analgésico, capaz de aliviar dores severas. 

A falta de conhecimento de profissionais da saúde sobre o manejo da dor, a burocracia em certas instâncias governamentais para a prescrição de remédios à base de opioides e o medo de famílias e dos próprios doentes são as barreiras que ainda dificultam o alívio da dor.

De um lado tem o medo da dependência, agravado pela crise de opioides e mortes por overdoses nos Estados Unidos. Porém, em situações de pacientes graves e sem chances de cura, esse temor é despropositado.

Por outro lado tem o fato de que as pessoas tendem a relacionar a morfina à morte. Não faltam histórias de parentes que morreram logo após receberem a medicação. Para os especialistas, nesses casos, é possível que a morfina tenha chegado tarde demais, quando o doente já estava à beira da morte. 

De uso controlado (receituários de controle especial), essas medicações têm distribuição deficitária no SUS. No interior do Norte e do Nordeste, a falta de acesso aos opioides é dramática. Para a compra, além de toda a burocracia, são drogas caras para grande parte da população.

Os médicos relatam que não raras as vezes se deparam com pacientes que tomam doses menores que as indicadas e apenas quando passam do limite de suportar a dor.

Na próxima quarta (17), a Folha realiza seu primeiro evento para tratar do tema da dor. No seminário “Viver sem Dor” falaremos sobre o subtratamento, o abuso de medicamentos e a dor social. 

Um comentário em "Dor não tratada é tortura"

  1. Lidar com a dor continua sendo um grande desafio para muitos pacientes. Vemos com bastante frequência individuos na faixa etária de mais de 80 anos com terríveis dores de coluna e com indicação de cirurgia mas que, temerosos dos efeitos colaterais deste procedimento, optam pelo uso quase que diário de analgsicos potentes. Devemos lembrar que tais medicamentos também podem trazer efeitos delérios graves.

    Nestes casos uma ampla e franca conversa entre o paciente, seus parentes mais próximos, clínico e cirurgião devam buscar uma solução a contento para todas as partes envolvidas nesta fase da doença.

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