Opinião

Nem tudo o que faz bem é bom – sobre a oferta de práticas integrativas no SUS

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DANIEL MARTINS DE BARROS
Estadão – 13/03/2018

A oferta de medicina alternativa pelo SUS pode ser bonita. Mas não é ética.

Vamos falar sobre as controversas práticas integrativas oferecidas pelo SUS. Com as novas modalidades incluídas essa semana, dentre as quais a aplicação de “argila misturada com água sobre ferimentos” (geoterapia) e a imposição de mãos para promover “troca de energia com os pacientes (…) e assim curar mazelas”.

Quando estava pensando como abordar o tema lembrei-me de um episódio de Star Trek, a Nova Geração, que assisti em minha adolescência. Ele se chamava Simbiose e contava a história de dois planetas que viviam uma estranha relação, digamos, simbiótica. Um era assolado por uma praga mas seu remédio só era produzido no outro planeta. Como todos os habitantes precisavam do medicamento, o planeta produtor vivia exclusivamente de sua produção, recebendo em troca tudo o que precisava – sua única indústria era a do medicamento. No entanto a médica da Enterprise descobre que na verdade a praga fora erradicada há muito tempo, e que o remédio causava dependência química. Os sintomas que os habitantes apresentavam na ausência da medicação eram, na verdade, síndrome de abstinência. Infelizmente o capitão Jean-Luc Picard não pode interferir naquela situação, já que a a Primeira Diretriz da Frota Estelar diz que “É proibido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade”. Mais tarde, porém, Picard encontra nessa mesma regra a solução. As naves cargueiro que fazem o escambo entre os planetas precisavam de reparos que nenhum dos habitantes sabia realizar; o capitão invoca então a Primeira Diretriz para não consertá-las, condenando essa simbiose à extinção.

Por que essa história toda? Porque nem sempre o que faz as pessoas se sentirem melhor é bom para elas. Que a medicina alternativa funciona, não há dúvida. Só depende de como definimos “funciona”. Se as pessoas não lhes atribuíssem algum valor elas já teriam sido varridas do mapa dada a ululante ausência de eficácia clínica corroborada por evidências científicas. Quem recorre à apiterapia (tratamento com produtos das abelhas) ou à homeopatia não quer saber se os cientistas validaram aquelas práticas. Ao contrário, é mais frequente do que não as pessoas reconhecerem a ausência de base científica para tais métodos. Elas normalmente estão em busca de algo que, sem substituir a medicina científica, lhes dê algum significado e conforto no momento da doença. Tanto que numa grande pesquisa americana, os fatores que mais levavam alguém a buscar terapias complementares era a presença de ansiedade, dores crônicas, em pessoas bem educadas mas com saúde ruim.

Existem dois grandes problemas aqui. O primeiro tem a ver com os limitados recursos que qualquer governo, em qualquer lugar do mundo, tem para investir em saúde. Numa realidade em que é preciso fazer escolhas sobre o que oferecer à população, já que nunca haverá dinheiro para disponibilizar tudo para todos (ao contrário do que sonha o SUS), no momento em que se paga pela fabricação de essências para que os pacientes as cheirem e sintam-se melhor (aromaterapia), está-se necessariamente deixando de pagar pela fabricação de AAS ou insulina para infartados e diabéticos adoecerem e morrerem menos. É uma questão ética.

 

Vamos falar sobre as controversas práticas integrativas oferecidas pelo SUS. Com as novas modalidades incluídas essa semana, dentre as quais a aplicação de “argila misturada com água sobre ferimentos” (geoterapia) e a imposição de mãos para promover “troca de energia com os pacientes (…) e assim curar mazelas”.

Quando estava pensando como abordar o tema lembrei-me de um episódio de Star Trek, a Nova Geração, que assisti em minha adolescência. Ele se chamava Simbiose e contava a história de dois planetas que viviam uma estranha relação, digamos, simbiótica. Um era assolado por uma praga mas seu remédio só era produzido no outro planeta. Como todos os habitantes precisavam do medicamento, o planeta produtor vivia exclusivamente de sua produção, recebendo em troca tudo o que precisava – sua única indústria era a do medicamento. No entanto a médica da Enterprise descobre que na verdade a praga fora erradicada há muito tempo, e que o remédio causava dependência química. Os sintomas que os habitantes apresentavam na ausência da medicação eram, na verdade, síndrome de abstinência. Infelizmente o capitão Jean-Luc Picard não pode interferir naquela situação, já que a a Primeira Diretriz da Frota Estelar diz que “É proibido a todas as naves e membros da Frota Estelar interferir com o desenvolvimento normal de uma cultura ou sociedade”. Mais tarde, porém, Picard encontra nessa mesma regra a solução. As naves cargueiro que fazem o escambo entre os planetas precisavam de reparos que nenhum dos habitantes sabia realizar; o capitão invoca então a Primeira Diretriz para não consertá-las, condenando essa simbiose à extinção.

Por que essa história toda? Porque nem sempre o que faz as pessoas se sentirem melhor é bom para elas. Que a medicina alternativa funciona, não há dúvida. Só depende de como definimos “funciona”. Se as pessoas não lhes atribuíssem algum valor elas já teriam sido varridas do mapa dada a ululante ausência de eficácia clínica corroborada por evidências científicas. Quem recorre à apiterapia (tratamento com produtos das abelhas) ou à homeopatia não quer saber se os cientistas validaram aquelas práticas. Ao contrário, é mais frequente do que não as pessoas reconhecerem a ausência de base científica para tais métodos. Elas normalmente estão em busca de algo que, sem substituir a medicina científica, lhes dê algum significado e conforto no momento da doença. Tanto que numa grande pesquisa americana, os fatores que mais levavam alguém a buscar terapias complementares era a presença de ansiedade, dores crônicas, em pessoas bem educadas mas com saúde ruim.

Existem dois grandes problemas aqui. O primeiro tem a ver com os limitados recursos que qualquer governo, em qualquer lugar do mundo, tem para investir em saúde. Numa realidade em que é preciso fazer escolhas sobre o que oferecer à população, já que nunca haverá dinheiro para disponibilizar tudo para todos (ao contrário do que sonha o SUS), no momento em que se paga pela fabricação de essências para que os pacientes as cheirem e sintam-se melhor (aromaterapia), está-se necessariamente deixando de pagar pela fabricação de AAS ou insulina para infartados e diabéticos adoecerem e morrerem menos. É uma questão ética.

Um comentário em "Nem tudo o que faz bem é bom – sobre a oferta de práticas integrativas no SUS"

  1. Acyr Cunha disse:

    O exercício da MEDICINA é uma aplicação de CIENCIA E ARTE. Evolução diária, século após século, ensino e pesquisa, observação e experimentação, documentação de resultados e divulgação para ser aplicado em escala, por pessoas habilitadas.
    Saberes ancestrais, tradições, costumes populares, enquanto possam ser úteis em tratamento em quem acredita no resultado, não devem ser proibidos, mas, no SUS, mal financiado e mal gerido, não devemos admitir aplicação de recursos e meios sem avaliar custo/beneficio.
    Concordamos com o autor com a inadequação de incluir na lista do SUS, o que não implica em proibição do uso de tais condutas.

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